Aos seis jogos a titular no campeonato germânico, somam-se onze como suplente utilizado. Não há como camuflar: são números que pintam de cinzento a campanha de Renato Sanches a representar o Bayern de Munique, o clube mais poderoso da Alemanha.
Muito provavelmente, o Bulo teria expetativas ambiciosas quando, com 18 anos de idade, elegeu o emblema dos diamantes para alavancar a carreira, apesar da observação atenta do Manchester United, mas que não foi acompanhada de uma investida tão célere como a dos alemães. No entanto, sejamos realistas: dada a riqueza do plantel dirigido por Ancelotti, a fasquia e a concorrência não podiam ser mais elevadas, pelo que, logo por aí, e não havendo colegas lesionados por tempo prolongado, as probabilidades de Renato ganhar amplo protagonismo na primeira época fora de Portugal não eram as maiores, por muito excecional que fosse o seu talento.
A montante da excelência das várias peças que o treinador emiliano, não muito adepto de uma rotatividade acentuada, tinha para a zona média – Alonso na coordenação e distribuição, Thiago na condução, Vidal na verticalização, Kimmich como remendo -, também não é de excluir totalmente a possibilidade de ter havido condicionantes de ordem vária que o tenham atirado ainda mais para baixo, que tenham interferido com a sua adaptação na equipa: inerentes às caraterísticas do treino e à vivência dentro do grupo. A evolução de um jogador, independentemente da dimensão competitiva em questão, é tudo menos linear, obedecendo, sim, a uma série de fatores, que nem sempre são conhecidos, mas que são importantes para uma análise macro da situação.
Depois de uma época estrondosa no Benfica em 15/16, foi um corpo estranho no Bayern 16/17. Na meia-final da Taça da Alemanha, quando o Bayern perdia para o Dortmund em Munique, não esteve sequer sentado no banco, quando podia ser daqueles trunfos para agitar e quebrar o marasmo, como demonstrou no Benfica pós-Enzo Pérez contra os “bichos” do Atlético de Madrid e do Bayern, ou por Portugal no Euro 2016 em cenários específicos, no meio ou a partir do flanco.
Um bom exemplo desse ímpeto injetado em campo é o golo que marcou à Polónia, o primeiro jogo de RS como titular na Seleção-A, em plena eliminatória dos quartos-de-final do Euro 2016, em Marselha. Quando Portugal já estava em desvantagem no placar após o golo de Lewandowski no 2.º minuto, Fernando Santos reposicionou Renato, que ataca sem tantas hesitações, para desbastar o flanco esquerdo da Polónia, que não afinava com tanta eficácia a cobertura com Jedrzejczyk, Pazdan, Maczyinski e Grosicki do que no outro com Piszczek, Glik, Krychowiak e Kuba. Dinamizou bem a jogada e marcou golo ainda antes do intervalo. Também comprovando a sua força mental, ainda converteu categoricamente um penalty a Fabianski no desempate que levou a Seleção às meias-finais.
Entendidas as mais-valias, a pergunta que se coloca é: será o conjunto bávaro o ideal para ele voltar à carga na próxima época?
Convenhamos que a retirada de Xabi Alonso, em si, mexe pouco com este tópico. Rudy, pivô do Hoffenheim, já está assegurado para o papel de Alonso. Em abono da verdade, a Renato Sanches não convém tanto quanto isso orientar os planos para ser convertido a “6” e vestir a pele do basco, até porque isso iria diminuir imensos pontos fortes do seu traço de futebolista de rua e inclusivamente a equipa ressentir-se-ia bastante da falta de um refinador mais apropriado para preencher a zona de construção. Ninguém ia ganhar com essa conversão. Por muito paradoxal que possa parecer, é, em muitos momentos, o seu estilo anárquico que torna Renato tão distinto, que o leva a tomar decisões mais inesperadas e menos “recomendáveis” que rompem com as normas e que, por isso, surpreendem o adversário.
Renato promove o choque, tendo ficado na memória a bola dividida com Hulk, que estremeceu o Estádio da Luz no Benfica v Zenit, ou a forma intrépida como, em Lens, lidou com Rakitic, Modric e Mandzukic.
A sua natureza de jogo, mais do que na pausa e na gestão metódica do ritmo, baseia-se na rotura e contempla o drible de coragem no 1v1, de transporte rápido, de explosão, de impulso, de remate e de pressing nervoso. Lembram-se dos golos à Académica e ao Vitória de Guimarães? Por contraste, é um centrocampista menos adequado para serenar e estabilizar. Servir de sincronizador à frente dos defesas não casa com Renato Sanches.
A opção por jogar a “6” nunca pareceu exequível para o craque da Musgueira, ainda para mais com a chegada de Rudy e ficando por saber se Uli Hoeness e KH Rummenigge contratam Rabiot e Zielinski. Com todas estas equações, também dificilmente se abrirá uma vaga nos outros dois médios-centro do onze-tipo, onde Renato já teria um encaixe mais feito à sua medida. Mesmo que Rudy não chegasse ou não fosse titular, Ancelotti não deve alterar o papel de Thiago e vai mantê-lo na função de manobrador preferencial na aproximação à zona ofensiva/de remate e Vidal, um incursor, também não é visto como o construtor cerebral para a função que era anteriormente exercida por Alonso.
Atendendo a esta conjugação de fatores, a saída de Renato do Bayern já foi menos plausível. É um facto que o Europeu de sub-21 pode devolver-lhe o ânimo e a sensação de importância esquecida nos últimos meses. Na fase de grupos da prova discutida na Polónia, voltará a defrontar o sérvio Maksimovic, depois da sua estreia na Champions em Astana, e também Saúl, da Espanha, que já encarara no confronto da equipa de Rui Vitória com os ‘colchoneros’.
Confiando que o Euro sub-21 lhe vai permitir reencontrar a bússola que necessita para nortear a carreira, regressar a Munique e à possível condição de suplente pode não ser o cenário que mais lhe interessa, particularmente em vésperas de Campeonato do Mundo e com os reflexos que isso poderá provocar no planeamento de Fernando Santos.
Em Manchester, vão noticiando o reacendimento do interesse dos Red Devils, desde que o Bayern aceite a venda do passe e que assuma uma redução do valor. É verdade que Pogba e Herrera são indiscutíveis no meio-campo de Mourinho. No entanto, entendendo que Carrick já não tem energia para a época inteira, não seria descabido pensar num reposicionamento de Herrera para “6”, como já aconteceu várias vezes na temporada anterior, abrindo vaga para Renato se assumir como um transportador dominante, sem tantas amarras, aproximando-se do nível de jogo que o notabilizou na fantástica caminhada feita do Cazaquistão até Saint-Denis.
O mercado ainda agora iniciou e muita água vai passar debaixo da ponte. Mas, nas atuais circunstâncias, uma transferência de Renato Sanches para Manchester podia ser benéfica para todas as partes.
Luís Catarino é jornalista e comentador da Sport TV e escreve no Bancada às sextas-feiras.