A Taça das Confederações não traz grande coisa ao futebol. E quem a ganha não encarrila para um Mundial bem conseguido
O palmarés da Taça das Confederações, no seu formato atual, diz tudo acerca desta competição bastarda: a França ganhou-a em 2001 e em 2003, depois sucedeu-lhe o Brasil (2005, 2009 e 2013). Os sucessos foram sempre portadores de falsas esperanças: em 2001, os Bleus tinham, sem qualquer dúvida, a melhor equipa do Mundo mas, um ano depois, a ausência de Robert Pires, seguida da lesão na coxa de Zinédine Zidane, conduziram-nos a um Mundial totalmente falhado. Em 2003, em casa, acreditavam ter reencontrado a receita, mas na verdade tudo não passou de um sobressalto: foi uma equipa já envelhecida a que acabou eliminada nos quartos-de-final do Europeu de 2004 pela Grécia (0-1).
A cada vez, como aconteceu com o Brasil nas edições seguintes, a vitória trazia a sua parte de veneno. Esta crença de que poderemos apoiar-nos num esqueleto estabelecido um ano antes da competição que conta verdadeiramente. O sucesso na Taça das Confederações leva à tentação de imobilizar uma equipa. E quanto mais bela for a vitória, mais forte é o veneno. Como poderia Luiz Felipe Scolari alterar a sua equipa base após a demonstração de poderio dada pelo Brasil na Taça das Confederações de 2013, concluída com um triunfo sobre a Espanha na final (3-0)? Inconcebível. É esse mesmo o problema maior desta competição que é oficial mas não é verdadeiramente importante: não convém nada ganhá-la se queremos ganhar o Mundial que se segue. Ela cria uma interferência perniciosa no trabalho de um selecionador.
Nesse caso, Portugal, que vai participar pela primeira vez, deve perder na Rússia? Claro que não. Fernando Santos tem razão em afirmar que vai para ganhar. Até porque levou a melhor equipa que poderia reunir, incluindo Cristiano Ronaldo.
Porque o selecionador português tem trunfos de que os seus antecessores franceses e brasileiros não beneficiavam. Primeiro, ganhou a final do Europeu a 10 de Julho do ano passado no Stade de France e transporta, à volta da cabeça, a mesma auréola que se viu em Aimé Jacquet, selecionador francês que ali conquistou o Mundial de 1998. E teve a inteligência de a aproveitar para fazer evoluir o seu grupo. Renato Sanches, a revelação do último Europeu, não vai jogar a Taça das Confederações. Éder, o herói da final, também não. Santos precisa desta quinzena na Rússia para alargar o grupo. Se ganhar, muito bem. Se perde, não é assim tão grave. Afinal, quem é que conhece o palmarés desta prova?
Esta Taça das Confederações, tal como as anteriores, não fugirá à regra. Antes dos primeiros jogos, falaremos sobretudo de problemas de organização. Em 2009, os observadores tinham apontado os atrasos na construção dos estádios sul-africanos e a qualidade apenas mediana das infraestruturas. Em 2013 tinham constatado o quanto a corrupção e a incúria estavam a colocar em risco o Mundial a realizar no Brasil. E, mais do que olhar para os jogos, o planeta inteiro punha os olhos nas manifestações de um povo ultrapassado pelo desbaratar de dinheiros públicos na construção de estádios que depois, na grande maioria, se transformaram em “elefantes brancos”. Estes grandes ajuntamentos populares e a repressão que se lhes seguiu marcou-nos mais do que os jogos propriamente ditos.
Na Rússia, não veremos movimentos destes, mas os meios de comunicação social de todo o Mundo vão estar atentos às questões em torno da corrupção que gangrenaram a atribuição do Mundial de 2018. Para salvar a competição do anonimato a que parece condenada, a FIFA conta, ainda e sempre, com um homem providencial. Não se trata de Gianni Infantino, mas sim de Cristiano Ronaldo. Se o capitão português juntasse a Taça das Confederações ao palmarés prodigioso que acumulou nos últimos doze meses, asseguraria um pouco mais da sua quinta Bola de Ouro. E daria, por fim, um golpe de luz positivo a este encontro internacional que de resto é muito em vão.
Régis Dupont é jornalista do L’Équipe e escreve no Bancada ao terceiro sábado de cada mês.