Opinião
O triunfo do futebol de autor
2018-05-03 14:00:00

Disse, Wenger, um dia, que o futebol devia ser uma arte. Uma arte como o é a dança, que apenas quando é verdadeiramente bem feita se torna realmente arte. Wenger fez do futebol uma arte, como também disse Ivan Gazidis, diretor do Arsenal que teve a pesada missão de anunciar ao Mundo a demissão do maestro francês. Wenger pode não ter ganho muito nos últimos anos. Não no sentido habitual, por vezes erróneo, de que são os títulos que definem o sucesso de um projeto desportivo. Wenger não venceu muitos títulos nos últimos anos, mas uma coisa é inegável: o legado que deixa no futebol é imenso e não é possível ser contestado. Hoje, um pouco por todo o Mundo, todos reconhecem ao Arsenal uma identidade própria como, talvez, só o Barcelona tenha no Mundo.

Wenger não venceu qualquer título em 2017/18, mas esta foi a temporada em que alguma justiça foi reposta. Por fim, muitos esqueceram a ausência de títulos do Arsenal para recordar um homem que ofereceu ao jogo algumas das equipas que melhor o praticaram; que mais o honraram. E, numa fina ironia da vida, numa fina ironia do próprio futebol, 2017/18 foi o ano em que o futebol de autor; o futebol do qual Wenger é um dos expoentes máximos, verdadeiramente triunfou.

Com grande parte dos títulos decididos nos grandes e principais campeonatos europeus ou, pelo menos, encaminhados, tirando França em todos eles o “futebol de autor” triunfou. Sim, a Juventus será campeã na vez do Nápoles de Sarri; sim, o Bayern será campeão na Alemanha. Dificilmente alguém, porém, consegue negar identidade muito própria ao futebol das equipas de Allegri ou de Heynckes. Tal como é impossível negar o dedo de Sarri no Nápoles; de Guardiola no Manchester City; de Conceição no FC Porto; de Valverde, que tantas dúvidas colocava no início da temporada e que tão bem encaixou na Catalunha e tão bem moldou o plantel do Barcelona às suas ideias.

Em 2017/18 nem sempre o Barcelona teve mais bola do que o adversário, algo histórico e que há muito não se via por Camp Nou. Mas Valverde mostrou que ter bola não é tudo e, a quatro jogos do final da temporada doméstica por Espanha, o basco por afinidade está perto de se tornar no primeiro treinador de sempre a vencer de forma invicta a Liga Espanhola. Em 2017/18 o Barcelona não foi sempre o campeão da posse de bola, mas nem por isso deixou de estabelecer um recorde de invencibilidade que dificilmente será batido. Em 2017/18 o Barcelona rompeu com a tradição e o futebol de autor saiu reforçado por isso mesmo.

Mas o futebol não vive somente de títulos. Ganhar não é tudo. É importante, já dizia Quique Setién, mas não sob qualquer forma. Não sou Setiénista, não defendo a existência de uma única forma de se jogar futebol. Sou, sim, adepto de projetos. De ideias. De identidades futebolísticas e nisso me aproximo do Maestro. E por isso me regozijo com o triunfo do futebol de autor em 2017/18. O ano em que o futebol heavy-metal de Jürgen Klopp colocou o Liverpool na final da Liga dos Campeões. O ano em que Arsenal e Atlético Madrid discutem uma final antecipada da Liga Europa (ganha o futebol, que tem direito a duas mãos de futebol de autor). O ano em que Allegri e Sarri elevaram a Serie A a um patamar que não conhecia desde o início do milénio.

O ano em que mais uma vez Eddie Howe manteve o Bournemouth na Premier League com jogadores que estiveram com ele no terceiro escalão inglês em 2012/13 e que nem por isso fez o jovem inglês abdicar dos seus princípios de jogo duas divisões acima. O ano em que mais uma vez o Bournemouth mostrou ser uma das equipas com mais identidade em Inglaterra. Tal como o Burnley, de Sean Dyche, na epopeia épica que parece querer deixar o clube em lugar europeu. Mais há mais. Porque o futebol não vive de títulos e este foi o ano do triunfo do futebol de autor.

O ano em que Quique Setién virou Espanha do avesso e colocou a hierarquia do futebol andaluz de pernas para o ar. Mostrando aos rivais do Sánchez Pizjuán a diferença que faz apostar num treinador de projeto e não demiti-lo a meio da temporada quando esta até estava a ser uma temporada de sucesso. O ano em que Simeone mais uma vez colocou o Atlético na hora das decisões. O ano em que Marcelino Toral voltou a fazer do Valência um grande. O ano em que uma identidade muito própria vai deixando a Lazio em lugar milionário e mais uma vez a Atalanta e a Sampdória, de Gasperini e Giampaolo, estão junto do topo da elite italiana. O ano em que Tedesco e Nagelsmann mostraram, ou voltaram a mostrar, à Alemanha, que boas ideias valem, por vezes, mais do que qualquer experiência adquirida em anos de futebol.

Em Portugal, em particular, o ano em que a identidade permitiu que o FC Porto voltasse a ficar perto de um título e permitiu que clubes como o Rio Ave, o Chaves ou SC Braga fizessem temporadas verdadeiramente históricas e assinaláveis. Que permitiu que o Portimonense chegasse às últimas semanas em posição relativamente confortável na temporada de regresso à primeira divisão. O ano em que Boavista e Marítimo, com identidades muito próximas e muito próprias ficassem às portas da Europa. O ano em que o Tondela está perto de confirmar a melhor posição de sempre da sua história.

Porque tudo isto só é possível quando se acredita em projetos, em ideias e identidades futebolísticas e não se mede sucesso a partir da conquista de títulos. Porque o futebol é muito mais do que isso. É muito mais do que uma cultura de vitórias e resultadismo. É, como diz Wenger, uma arte quando é bem feito. É bem feito quando tem ideia e identidade. E, em 2017/18, muitos fizeram do futebol uma arte. Este foi, afinal, o ano do triunfo do futebol de autor.