Ao contrário de outras potências, privilegiadas pelos seus êxitos iniciais, a Espanha recorreu a uma minuciosa aprendizagem para deixar de parte o rótulo de equipa dececionante, eterna perdedora nas competições que marcam a hierarquia mundial do futebol. Em poucos países se desenhou uma diferença tão abismal entre o prestígio dos clubes e os tristes resultados da seleção. Ninguém o diria agora, nesta grande época de felicidade, com o futebol espanhol em estado de ebulição em todas as categorias.
Nem a vitória no Europeu de 1964 mereceu o menor crédito. Era uma boa equipa – Luis Suárez, Amancio, Iribar, etc. – submetida ao peso do franquismo. A vitória sobre a URSS foi presidida pelo ditador, no meio de uma viciada atmosfera política. Desde então, a sucessão de fracassos transformou a seleção espanhola em tópico ambulante. Cada Mundial, uma ferida mais profunda.
Quase nunca há razões milagrosas para explicar o êxito no futebol. A seleção espanhola foi, durante décadas, um lugar de desencontro. Tinha bons jogadores, mas faltava-lhe identidade. Não tinha critério nem segurança. Ao contrário da Itália e da sua eficácia defensiva, do Brasil e da sua deslumbrante criatividade ou da pujança da Alemanha, na Espanha nada se destacava. A sua bandeira era a fúria. Que é o mesmo que dizer a ausência de ideias. Tudo mudou na década de 90. Se necessário for colocar uma data simbólica na revolução do futebol espanhol, seria conveniente assinalar o ano de 1992.
Foi o ano dos Jogos Olímpicos de Barcelona, da primeira Taça dos Campeões Europeus conquistada pelo Barcelona – o primeiro título europeu de uma equipa espanhola desde 1966 – a medalha de ouro olímpica e a entrada definitiva da Espanha na modernidade. Ainda assim, a seleção espanhola não se qualificou para o Europeu desse ano. Essa contradição entre o otimismo e a crua realidade persistiu durante quase uma década, até à irrupção da Espanha como grande potência mundial do futebol juvenil.
Em 1999, a Espanha ganhou o Mundial de sub20 na Nigéria. Duas futuras lendas se destacavam naquela equipa: Casillas e Xavi. O êxito esteve mais relacionado com um estilo de jogo do que com a qualidade dos futebolistas. As equipas jovens começaram a divulgar o modelo que acabou por se tornar célebre na seleção que ganhou duas edições do Europeu (2008 e 20012) e o Mundial de 2010. A receita era simples: técnica abundante, maior posse de bola possível e predomínio de centrocampistas astutos.
A Espanha encontrou a solução para os seus velhos problemas com uma proposta heterodoxa. Numa época que se identificava pelas férreas estruturas defensivas e pela sublimação do atleta, a seleção espanhola aderiu ao magistério de Cruyff. A revolução que ele fez no Barça produziu êxito e entusiasmo em partes iguais. O seu modelo fascinou especialmente os jovens jogadores e os jovens treinadores. Jogar bem, entendido como a maneira de funcionar do Barça, tornou-se um objetivo geral, favorecido pelas mudanças introduzidas pela federação espanhola no modelo formativo das equipas infantis e juvenis.
Poucos lugares no Mundo podem comparar-se com Espanha no que respeita à impressionante rede competitiva nas categorias juvenis, além do mais alimentadas pela atenção extrema dos principais clubes – Real Madrid, FC Barcelona, Atlético de Madrid, Athletic, Sevilha FC, Valência CF, Villarreal CF – às suas canteras. O Real Madrid e o Barça são os dois maiores exportadores de futebolistas para as melhores Ligas da Europa. A produção é de tal calibre que muitos destes jogadores se consagram noutros clubes e são depois chamados à seleção.
Vários dos integrantes da atual seleção de sub21 assinalam este dado. Bellerín (Arsenal), Deulofeu (Milan), Sandro (Málaga CF), Mayoral (Wolfsburg) e Llorente (Alavés) cresceram nas academias do Barça e do Real Madrid. É algo que se repete há 20 anos, num período de esplendor que não encontra comparação na Europa. Este século tem pertencido às equipas juvenis espanholas, com umas estatísticas esmagadoras. A Espanha ganhou o Europeu de sub19 em 2002, 2004, 2006, 2007, 2011, 2012 e 2015. No Europeu de sub21 conquistou as edições de 1998, 2011 e 2013.
A Espanha, que não podia aprender com os fracassos nos Mundiais, utilizou o laboratório juvenil para encontrar a identidade no estilo, a excelência na formação e um vigor competitivo que se transportou para a inesquecível seleção que dominou o Mundo entre 2008 e 2012. Ao que parece, a ideia funciona e alimenta o otimismo: a última seleção de sub21 é tao boa ou melhor do que as suas antecessoras.
Santiago Segurola é jornalista, ensaísta e comentador de futebol espanhol e escreve no Bancada ao primeiro sábado de cada mês