Opinião
Memphis e “aquela” atitude
Mauro
2018-10-19 14:00:00
Luís Catarino é comentador da SportTV e escreve no Bancada às sextas-feiras.

Recuemos trinta anos. O cenário era em Düsseldorf, durante a fase de grupos do Euro 88. Os jogadores de Holanda e Inglaterra estavam alinhados no túnel, à espera da ordem para entrar em campo, e Tony Adams, embora o mais novo de uma família que tinha Bryan Robson, Barnes, Hoddle e Lineker, chegou-se à frente para o grito que ecoou nas paredes estreitas do túnel: “Bora, malta! Vamos matar estes c..rões!”

Há alguns anos, Ruud Gullit contou este episódio e juntou ainda a reação do resto dos colegas holandeses quando ouviram o berro do defesa-central inglês: “Olhámos uns para os outros e só nos deu vontade de rir. A atitude holandesa é mais relaxada, descontraída. Só queremos ir para dentro do campo e jogar bem, nas tintas para o adversário ou para lhe chamar nomes.”

Convenhamos que o semi-grotesto toca-a-reunir de Adams acabou por não ser muito bem sucedido e não foi, de facto, a gritaria do túnel que inibiu Van Basten de silenciar a Inglaterra com um toque de classe. O ‘Cisne de Utrecht’ marcou três golos e o primeiro foi mesmo a pedido, judiando um defesa inglês dentro da grande área antes de rematar cruzado pelo chão. Já fazem uma pequena ideia de quem foi o defesa que Van Basten entortou, não já?

Os mais atentos recordar-se-ão, mas o apuramento da Holanda nesse grupo do Euro para as semi-finais foi um sufoco. Rinus Michels perdeu o primeiro jogo contra a URSS, ganhou bem contra a Inglaterra, mas só venceu a Irlanda no terceiro desafio com um golo de Kieft marcado com a orelha, de tão desajeitado que foi o cabeceamento para a baliza de Pat Bonner.

Foi à justa, mas era incrível como a Holanda, com monstros como R.Koeman, Wouters, Rijkaard, Gullit e Van Basten, nunca perdia a confiança, mesmo nos momentos mais tremidos. Michels sabia comunicar e tinha a intuição para dizer aquilo que os jogadores precisavam de ouvir. E também por isso se verificou uma diferença tão grande de comportamento na Holanda do Euro 88 para a do Mundial 90, com Beenhakker tendo uma base de jogadores quase igual, mas com uma equipa completamente dividida, estilhaçada e mentalmente “fora dela”, como até se percebeu pela cena da dupla cuspidela de Rijkaard a Völler em San Siro.

Serve esta espécie de preâmbulo para lembrar que, apesar do triunfo esmagador da Holanda no sábado, em Amesterdão, contra a Alemanha por 3-0, ainda estamos longe de ver o mesmo nível de moral, de estaleca e de qualidade em comparação com os fabulosos elencos de 74, de 88 ou até o de 98, que também tinha nível para ser campeão do mundo.

No entanto, depois da travessia no deserto, em que foram barrados à porta dos grandes torneios de 2016 e de 2018, Ronald Koeman, agora selecionador, tem dado algumas luzes na regeneração e na orientação. RK inspirou, agrupou, organizou e aproveitou a maturação de uma série de jogadores desenvolvidos no Ajax e no PSV.

Tiro o chapéu a Cillessen, que não tem jogado em Barcelona, mas que tem guardado bem a baliza laranja. Porém, a verdadeira coluna estabelece-se atualmente em três pontos: Van Dijk na defesa, Wijnaldum no meio-campo (mais adiantado do que no Liverpool) e Memphis na frente. À volta deles, De Ligt ultrapassou o trauma da Bulgária e assume-se como o melhor defesa-central do mundo na sua faixa etária. Frenkie de Jong transporta como Seedorf e roda com o compasso de Bergkamp, enquanto Babel, Promes, Bergwijn e Groeneveld aquecem os motores nos flancos. Contra os alemães, De Roon, com menos incursão do que mostrara em Middlesbrough e Bérgamo, deu a combatividade e a cobertura no centro-direita do meio-campo que era necessária, não só para ajudar De Jong e Wijnaldum, mas também para dobrar Dumfries, o estreante lateral que tinha de lidar com os avanços de Héctor.

Desconhecemos se houve muitos roubos de bicicletas como em 88, depois do triunfo contra a RFA na semi-final, mas toda a Holanda se entusiasmou com o resultado de sábado, pela consolidação da melhoria que já tinha sido evidenciada em St.Denis, nos sinais de retoma contra a França campeã do mundo, mas também porque esta vitória foi obtida contra o melhor oponente possível: a Alemanha.

Ganhar à Alemanha dá direito a uma energia extra, por uma rivalidade que Van Hanegem já explicou com todas as letras na sequência da súbita inversão de prioridades em plena final do Mundial 74. A crispação até pode ter decrescido desde que entrámos no novo milénio, mas ainda haverá muitos resquícios da II Grande Guerra e da ocupação nazi. “Os alemães mataram o meu pai, os meus irmãos e outros familiares meus. Odeio-os!”, afirmou o centrocampista da Oranje e do Feyenoord, justificando a razão porque, a certa altura, depois de estarem a ganhar por 1-0 na final de Munique com o penalty convertido por Neeskens, tentaram jogar mais para humilhar do que propriamente para segurar a vantagem com o devido discernimento. E perderam mesmo contra a RFA por 1-2.

Durante muitos anos, essa derrota em Munique ficou atravessada. Não conseguiram vingá-la no Euro 80 e Karlheinz Förster, central da RFA e do Estugarda, dizia, então, que os holandeses odiavam muito mais os alemães do que os alemães os holandeses. Daí que muitos se lembrem como Koeman celebrou a vitória, em Hamburgo, contra os germânicos na semi-final de 88, catorze anos depois da mítica decisão perdida por Cruyff em Munique. Terminado o jogo, Koeman trocou de camisolas com Olaf Thon e foi festejar à frente dos seus adeptos, fazendo o gesto de limpar o traseiro com a camisola alemã que tinha na mão direita.

Felizmente, nem Koeman, nem ninguém ajavardou dessa forma no sábado, na Liga das Nações, e a verdade é que foi um espetáculo com entretenimento, incluindo homenagens bonitas feitas a Van der Vaart e Kuyt, já retirados da Seleção, mas que tiveram um papel proeminente durante a Oranje da chamada “Geração Robben”.

Hoje, é justo considerar que temos a “Geração Memphis”. O atacante do Lyon, com uma função de máxima mobilidade em toda a largura e profundidade do campo, arrasou os alemães numa exibição cabal de técnica, velocidade e força, tendo ainda enviado uma bola à baliza de Neuer que fez estremecer a trave e toda a Alemanha.

Memphis encabeçou a lista de heróis da Holanda e teve um pouquinho “daquela” atitude que tem andado perdida na Oranje ao longo desta década e que era preciso recuperar, com estilo e com a insolência quanto baste para mostrar quem joga mais. Tanto funcionou que houve momentos, durante a transmissão do jogo, em que olhei para Boateng e Hummels e só me ocorria uma palavra: Adams.