Opinião
Celebração e requinte
Mauro
2018-10-05 14:00:00
Luís Catarino é comentador da SportTV e escreve no Bancada às sextas-feiras.

Foi uma semana para recordar. Em Stamford Bridge, no paradisíaco Jardim do Eden, Maurizio Sarri e Jürgen Klopp celebraram o jogo e o requinte das equipas que dirigem. Depois do apito final do Chelsea v Liverpool, Sarri estava tão deslumbrado com o remate curvado de Sturridge e com a categoria exibida pelas duas equipas nos noventa minutos que nem sequer valorizou muito a perda de vantagem dos Blues no placar. Primeiro, o prazer.

O Liverpool está muito forte e constitui-se candidato consistente à conquista da Premier League. Antevê-se, por isso mesmo, um desafio titânico em Anfield no próximo domingo contra o Manchester City, dias depois de Guardiola ter confrontado um Hoffenheim bastante sagaz, com o cunho de Nagelsmann, particularmente no modo como Demirbay e Grillitsch planearam anestesiar Gundogan e David Silva.

De qualquer forma, o Chelsea foi do oito ao oitenta da época anterior para a presente. Com Sarri na sucessão de Conte, o Chelsea dá muito mais valor ao passe, ao controlo, à troca posicional - cenários onde facilmente sobressai Mateo Kovacic na desenvoltura técnica da meia-esquerda dos azuis, combinando com Marcos Alonso e Eden Hazard. A propósito do belga, viram como marcou o golo contra os Reds no jogo em Londres? Em Anfield, na Taça da Liga, já tinha assinando um solo monumental com um slalom inacreditável partindo do flanco direito.

Mas reparem no 1-0 em Stamford Bridge, como ele arrastou Alexander-Arnold para a zona do grande círculo. Kovacic e Jorginho entraram no “meínho”, descongestionaram e o lateral-direito do Liverpool ficou desorientado, sem saber quem tinha de pressionar e em que posição é que tinha de se estabelecer. Em poucos metros quadrados, como Sarri instiga em Cobham, o Chelsea saiu da zona de pressão efetuada pelo adversário e Kovacic transmitiu o passe frontal para a corrida de Hazard, que rasgou no corredor onde faltava… Alexander-Arnold, perdido algures na linha do meio-campo. Se há equipa que sabe como desajustar o adversário, essa equipa é o Chelsea de Sarri.

Hazard disse que vai deixar de celebrar os golos a deslizar os joelhos no relvado para evitar lesões. Tenho pena porque era dos festejos mais sensacionais do campeonato inglês. Mas, para além disso, todos estavam curiosos em ver como iria Morata celebrar o golo que marcou, ontem, aos húngaros do Vidi, na Liga Europa. Na verdade, não foi particularmente efusivo e até pareceu ter chorado, avaliando pela carga negativa que tem tido em cima dele, de precisar de muitas oportunidades para pôr a bola dentro da baliza, pelo jogo picado que estava a ter com Juhász, e pelo facto de ter perdido a titularidade para Giroud. Morata não é tão dominante na frente como era Diego Costa. Giroud também não o é, mas, na função de ponta de lança utilitário, fornece uma referência mais fixa e potencia mais tabelas para as combinações rápidas com Hazard, Willian e Kanté.

Noutra esfera, Benfica e Porto safaram-se nesta jornada europeia. Os lisboetas, notoriamente superiores ao AEK como demonstraram na primeira meia-hora, viveram uns bons minutos de pânico na segunda parte e Alfa Semedo fez um milagre. O Benfica era tão melhor equipa que, mesmo considerando a expulsão de Rúben Dias, não se justifica uma quebra tão abrupta da equipa de Rui Vitória.

Na Invicta, o jogo foi mais ritmado e Marega fez a diferença no pontapé de canto batido por Alex Telles. O maliano concluiu na zona coberta por Nagatomo (!). Os campeões vão à capital defrontar os vice-campeões no domingo para o campeonato. Sem o poder de Aboubakar e guardando André Pereira no banco, Conceição pode restabelecer a dupla Tiquinho e Marega para arrombar o eixo remendado do Benfica, enquanto Rui Vitória não pode dar-se ao luxo de colocar Gedson no banco. Seferovic tem tido uma boa participação a gerar apoios fora da grande área como foi visto em Chaves e vai marcando golos ocasionalmente, como em Atenas. Talvez ainda não seja desta que Jonas, Ferreyra ou Castillo lhe tiram o lugar no onze, ainda que a fasquia esteja bem alta para o suíço.

Não é muito fácil prever quem é que terá mais volume atacante na Luz. O Benfica não tem, de todo, essa obsessão, pois até prefere privilegiar ataques incisivos de pouca duração com os raides de Cervi/Rafa e Salvio, bem como pedir a Gedson ou Pizzi que se desmarquem pelo corredor central. E, para isso acontecer de forma mais bem planeada, Rui Vitória contempla uma equipa ligeiramente recuada no campo, chamando o adversário até à sua metade do campo, ganhar espaço e partir para a invasão. Essa até pode ser, também, uma boa forma de reduzir um dos pontos fontes atuais dos dragões: o momento excelente de Otávio na manobra e no pressing, como ficou comprovado contra o Tondela e contra o Galatasaray.

Conceição também prefere que o adversário abra espaço nas costas da defesa para favorecer a explosão de Marega, daí que possamos ter um dilema interessante interpretado pelos dois treinadores: dar um pouco de iniciativa ao oponente pode ser o caminho encontrado para o triunfo: "Joga tu, que eu espero".

Não sei como vai ficar o resultado, nem a ênfase com que ambos os treinadores vão querer as respetivas equipas propositadamente recuadas para obter o desejado espaço que permite a afirmação dos atacantes, de Salvio a Marega. No entanto, já não seria nada mau se, no fim, os dois treinadores celebrassem o futebol como vimos em Londres no sábado. Aquele sorriso de Sarri no abraço a Klopp será uma das imagens mais icónicas da história da Premier League. Em Portugal, estamos a precisar do mesmo respeito pelo jogo.

Luís Catarino é comentador da SportTV e escreve no Bancada às sextas-feiras.