Opinião
Brasil de costas para o mundo
Mauro
2018-10-13 14:00:00
João Almeida Moreira é um jornalista português radicado em São Paulo e escreve no Bancada ao segundo sábado de cada mês.

Leonardo treinou o Inter em 2010-11. E o que é que isso tem de extraordinário? Foi a última vez que um técnico brasileiro trabalhou num dos cinco principais campeonatos da Europa, ou seja, com a licença da portuguesa, as ligas inglesa, espanhola, alemã, italiana ou francesa.

E como e quando é que a escola de pensamento brasileira, que há oito anos não opera no centro do mundo do futebol, se tornou tão periférica? Porque é que ao contrário dos seus jogadores, que habitam como mais ninguém aquelas praças, os treinadores canarinhos deixaram de ter mercado?

Recuemos no tempo: em Janeiro de 1947, Portugal bateu a Espanha, no Estádio Nacional, por 4-1 com bis de Travassos e Araújo, na primeira vitória portuguesa da história sobre os vizinhos. Era uma época em que na imprensa e nos cafés se discutia, não os benefícios ou contradições do VAR, mas se o futebol português deveria optar pelo profissionalismo, como quase todos os países europeus, ou por continuar semi-amador, uma vez que mesmo nessa condição deu para bater a profissional La Roja. 

A discussão permaneceu mais ou menos empatada até Maio de 1947, quando naquele mesmo palco e mais ou menos com o mesmo onze, a seleção das quinas sofreu um violento 10-0 da Inglaterra. E mais nenhum jornalista ou debatedor de café teve coragem de defender o amadorismo. 

Profissionalize-se, então. Mas como? Seguindo que modelo? Quem está metodologicamente na vanguarda do futebol mundial e não se importe de ver cá ensinar? 

É nesse contexto que anos depois chega ao futebol português o brasileiro Otto Glória para treinar os quatro grandes, Benfica, Belenenses, Sporting e FC Porto, por ordem cronológica, e a seleção que conquistou o bronze em 1966, na Inglaterra. Além de Flávio Costa, Dorival Yustrich ou Gentil Cardoso.  

Por esses anos, o Brasil usou o Mundial-1958, que ganhou goleando quase toda a gente, para experimentar um esquema tático inovador, baseado num 4-2-4 com posse de bola que se transformava em 4-3-3 em situação defensiva, usando o tático Zagallo como extremo puro, no primeiro caso, e médio de cobertura, no segundo. Sim, Pelé, Didi ou Garrincha foram as principais razões do título, mas aquela variante tática ajudou. Assim como o próprio Zagallo, já na qualidade de treinador, contribuiu para a vitória no México-70, ao encaixar Pelé e também os craques Gerson, Rivellino, Tostão e Jairzinho num quinteto de ataque altamente criativo e, ainda assim, organizado. 

De então para cá, apesar do cerebral Carlos Alberto Parreira, do intuitivo Vanderlei Luxemburgo ou do vencedor nato Luiz Felipe Scolari, a escola brasileira de treinadores contribuiu pouco para a evolução do jogo. Tite e mais um punhado de talentosos técnicos da atualidade até tinham condições de recolocar o Brasil nessa luta mas não arriscam a Europa. 

Ou seja, além da falta de ideias, que afetou sobretudo os bancos nos anos 90 e primeira década do século XXI, mesmo os que as têm preferem ficar em solo brasileiro. Aí, entram razões de ordem econômica: no Brasileirão paga-se tanto aos treinadores como nas principais ligas europeias, razão pela qual eles preferem continuar nos clubes gigantes da sua terra a ousar ir para clubes do meio da tabela do Velho Continente – ao contrário dos vizinhos argentinos que, mal pagos em casa, se aventuram num Espanyol, como Mauricio Pochettino, ou num Catania, como Diego Simeone, antes de ganharem a justa fama que hoje ostentam. Ganhar mais nem sempre gera progresso – no caso, gera comodismo. 

Por outro lado, num país em que só uma meia dúzia de privilegiados sabe falar inglês, os treinadores locais têm medo da barreira linguística. Mas mesmo assim, nem a Portugal chegam hoje em dia, com uma ou outra exceção irrelevante.

É do convívio com as diferenças culturais, no entanto, que se apressa o crescimento: por alguma razão as cidades mais avançadas dos EUA e do Brasil são as que mais imigrantes diversificados receberam, como Nova Iorque ou São Paulo; por alguma razão, o futebol inglês, poderoso no final dos anos 70 e até metade dos anos 80, perdeu o domínio quando se fechou sobre si próprio, na sequência de Heysel Park, perdendo o comboio da evolução para Itália ou Espanha nos anos 90. 

Enquanto os treinadores das principais ligas se diversificam – fora a comunidade espanhola, francesa, alemã, italiana, portuguesa ou argentina ainda há representantes isolados croatas, sérvios, arménios, suíços, chilenos, uruguaios – os técnicos brasileiros só trocam muito de clube mas não de cultura. 

Numa frase, “o futebol no Brasil está fora do circuito, fechado para o mundo, baseado apenas no lado empírico, acreditando que basta vestir a camisa verde e amarela para ganhar”. Quem a disse, Leonardo, sabe do que fala.   

João Almeida Moreira é um jornalista português radicado em São Paulo e escreve no Bancada ao segundo sábado de cada mês.