Se a receita resultou, repete-se a receita. Portugal ganhou o Europeu de 2016 com um futebol feito de racionalidade e equilíbrio, respeito por cada adversário e grande preocupação em disfarçar fragilidades. Tacticamente foi isto: organização defensiva que foi ganhando solidez e aposta na estratégia (o plano de cada jogo) perante uma identificação competente do rival seguinte. E a isto se somou um espírito de grupo positivo, do qual emergiu um Cristiano Ronaldo feliz, o que é sempre meio caminho andado.
A racionalidade passou por não querer dar passos além da perna. Exemplo: se a equipa não tem centrais rápidos (com excepção de Pepe, que já vai nos 33), não joga com bloco muito subido e assim controla mais facilmente a profundidade defensiva. O equilíbrio notou-se, e nota-se, em não arriscar dois laterais muito ofensivos em simultâneo (Guerreiro com Semedo ou Cancelo do outro lado), antes ter sempre um que se protege mais. Ou na escolha dos alas/extremos, que se um é mais de arriscar (Quaresma ou Gelson), outro há-de ser de mais de não errar (André Gomes). Depois, o respeito por cada adversário, sempre com a preocupação de controlar (evitar que possam intervir muito no jogo) os homens-chave de cada rival (o eixo Lewandovski-Milik frente à Polónia, a conexão Modric-Rakitic no jogo com a Croácia, a força da dupla Pogba-Matuidi na final com a França). Parar o melhor de cada rival foi quase sempre prioritário, e acabou por ser determinante, na tal aposta estratégica que Fernando Santos usou com mestria. Passada a fase de grupos, Portugal continuou sem encantar mas deixou de vacilar, nunca foi formoso mas não mais deixou de ser seguro. O resto foi ir acrescentando Renato Sanches para encher o peito e arrastar com ele a equipa, esperar que chegasse a inspiração de Ronaldo ou Quaresma e, por último, lançar Eder quando a felicidade máxima já estava ao virar da esquina.
Não é fácil pedir que se faça diferente quanto tudo acabou tão bem. Mas nem tudo está bem quando bem acaba. Ponto de ordem: jogue Portugal melhor ou pior, mais ofensiva ou defensivamente, dificilmente volta a ganhar um Europeu (ou ganha um Mundial) nos tempos mais próximos. O ponto de partida não pode ser o do resultado mas o do caminho que conduz a ele. Portugal soube fazer das fraquezas forças e esse é um mérito que ninguém tirará jamais a Fernando Santos e aos que com ele se tornaram comendadores de Paris. Acontece que se Portugal mantém hoje algumas das fragilidades do Verão passado – continua a não emergir um central jovem de valor indiscutível, que só Neto e eventualmente Ruben Semedo dão garantias entre os sub/30 –, também viu alargado um lote ofensivo de elite, quer permite decerto jogar um futebol mais sedutor e entusiasmante.
É injusto iludir dois handicaps: a falta de velocidade no centro da defesa portuguesa e o quanto o luxo (e que luxo!) de ter Ronaldo condiciona as opções tácticas do seleccionador. Mas a equipa tem se sair de uma espécie de bipolaridade, em que tanto recua linhas e cede iniciativa para correr menos riscos, como melhora quando assume o jogo fazendo circular a bola mais perto da baliza contrária. E de Ronaldo, já agora, o que não é de somenos. O jogo de domingo com o México mostrou essas duas faces portuguesas, quando a variedade de soluções entretanto surgida recomenda uma equipa mais reivindicativa do controlo do jogo, com mais iniciativa e posse de bola, que não se contente em ficar organizada atrás até ao momento em que há-de surgir uma arrancada de Guerreiro, um cruzamento de Quaresma, uma oportunidade para finalizar de Ronaldo. Quando Fernando Santos assume com a franqueza do costume que não gostou do que viu, fica claro que também ele quer mais. Falta saber se quer diferente, ou se lhe parece possível pretender ser diferente.
Certo é que, entretanto, emergiu o talento incrível de Bernardo e Gelson, cresceram André Gomes e João Mário (que só uma lesão retirou das Confederações) surgiu o ansiado ponta de lança em André Silva, ainda por cima a ligar tão bem com Ronaldo, e mesmo se Renato Sanches viu adiada a afirmação plena, Adrien e Pizzi mostraram caber justamente entre os melhores. E há Nelson Semedo que não deve tardar no onze principal, além de tantos que Rui Jorge tenta por estes dias tornar também campeões da Europa. Muitos dirão que é melhor jogar menos e ganhar do que jogar mais e perder? Não acredito, de todo. Não se ganha mais a jogar pior, nem Portugal ganhou a jogar mal. Ganha-se escondendo fragilidades mas está-se mais perto de ganhar quando se aproveitam potencialidades, e elas são mais agora. No Europeu de França, éramos uma selecção no meio da ponte. Fernando Santos preferiu a solidez de um passo atrás e a história deu-lhe razão. Mas como o filósofo Heraclito nos ensinou há uns milénios, ninguém se banha duas vezes nas mesmas águas. Fernando Santos já provou, particularmente nos clubes, que gosta de um futebol mais ofensivo e o sabe o caminho de o encontrar. Gostava que a próxima tentação fosse a de buscar um futebol mais solto, mais alegre, que nos dê vontade de rever os jogos e não apenas os golos. Porque importa, importa mesmo, se jogamos bem ou mal, mesmo se há um ano adorámos fazer coro com os nossos craques a cantar precisamente o contrário.
Carlos Daniel é jornalista da RTP e escreve no Bancada às segundas-feiras.