Com o futebol brasileiro de férias, a última imagem é que fica. E a última imagem, desagradável para os adeptos locais, foram os festejos do multi-milionário Real Madrid na final de Mundial de Clubes após vitória por 1-0 sobre o remediado Grêmio. Aliás, essa imagem, não foi desagradável, foi terrível.
Desagradável seria se a equipa de Cristiano Ronaldo, que marcou o único golo do jogo num livre desviado na barreira, tivesse realizado uma volta olímpica, de taça na mão, em euforia absoluta. Não: os astros merengues, dois deles brasileiros, limitaram-se aos abraços e sorrisos da praxe, receberam as medalhas e troféus burocraticamente, falaram depressa à imprensa, mais do clássico que aí vinha com o Barcelona do que do triunfo sobre o Tricolor, e voltaram, sossegados, para o aeroporto após a curta tournée ao Médio Oriente.
E isso é que é terrível para os fãs do Grêmio e para os outros fãs brasileiros e sul-americanos que apoiaram o conjunto de Renato Gaúcho – que foram quase todos, menos os do rival Internacional: a indiferença europeia em relação ao troféu mais desejado na América do Sul.
Essa indiferença europeia é atribuída no Brasil, quase exclusivamente, à arrogância. À sobranceria. À bazófia. Ao pedantismo. Chega até a ser chamada de complexo de superioridade colonial dos europeus ricos frente aos sul-americanos pobres.
Não é de todo falso que exista uma certa arrogância europeia, consciente ou inconsciente. Um clube como o Madrid, depois de seis jogos na fase de grupos na Liga dos Campeões, e de eliminar nos play off Napoli, Bayern, Atlético Madrid e Juventus, clubes que têm parte da nata dos futebolistas sul-americanos, sente que não precisa de provar mais nada a ninguém. O Grêmio, como os demais gigantes brasileiros, argentinos, uruguaios e mais um outro clube sul-americano, são respeitadíssimos na Europa como instituições históricas e míticas. Mas o nível de elencos que vêm apresentando, quase sempre composto por craques ainda em maturação (como o lesionado Arthur ou o apagado Luan, para dar exemplos do próprio Tricolor) e veteranos maduros demais (como Barrios ou Léo Moura), além de meia dúzia de jogadores de classe média etária sem especial brilho, diminuem a importância do desafio.
Aliás, se vamos falar de arrogância, o Brasil devia olhar para o próprio umbigo: durante décadas, a Taça dos Libertadores foi considerada para a generalidade dos clubes locais menos relevante do que os estaduais. E a Copa América é levada a sério por todos os países participantes, menos pelos canarinhos, que não se coibiram de convocar nalgumas edições jogadores de segunda e terceira linhas. Ou seja, o Brasil é o primeiro a olhar para a América do Sul, onde está geograficamente incluído, com sobranceria: o que lhe interessa é ser campeão global, por isso tem tantos campeonatos do Mundo e, em proporção, tão poucos campeonatos do seu continente.
Mas as razões porque os europeus subestimam o mundial de clubes vão além do argumento, meio raso, da arrogância. Tem a ver com cultura. E com calendário.
Em relação ao calendário, não há na Europa, como no Brasil, cujas temporadas coincidem com os anos civis, a sensação de continuidade, de sequência – ganhei o continente, agora vou ganhar o mundo. No calendário europeu, o vencedor da Liga dos Campeões tem, até à disputa do Mundial de Clubes, um mês e meio de férias e um mês e meio de pré-época, com mudanças de jogadores e, não raras vezes, de treinadores – perde-se, pois, o foco, o encadeamento. Por isso, os jogadores madridistas estavam, mesmo em Abu Dhabi de taça na mão, com o jogo com o Barça na cabeça; enquanto, os gremistas, por sua vez, faziam o último jogo da temporada, uma espécie de ápice.
Por outro lado, no Velho Continente, talvez por ser velho, atribui-se outro valor ao tempo. As conquistas rápidas são mais um hábito do Novo Mundo – no Brasil, muita gente ainda não se adaptou aos campeonatos de pontos corridos, preferiam “mata-matas”, emoção em detrimento da razão; nos jovens EUA, por sua vez, também nenhum dos seus principais desportos contempla essa “chatice” do empate, ou se ganha ou se perde, é tudo ou nada. Ora na Europa, os campeonatos nacionais são sempre prioritários face às provas a eliminar e a própria Liga dos Campeões, que tem play off, dura antes duríssimos nove meses – com as pré-eliminatórias chega quase a um ano. Assim, que valor tão extraordinário poderia atribuir o Real Madrid a uma prova em que para levantar a taça precisa de fazer uma mini-excursão e realizar apenas dois jogos?
Os brasileiros – e sul-americanos em geral – deviam dar cada vez mais importância aos seus campeonatos nacionais e à Libertadores e menos à semaninha do Mundial de Clubes. Esse é o primeiro passo para serem, a prazo, novamente competitivos a nivel planetário. O segundo passo é saber ganhar dinheiro com o seu futebol, mas isso é assunto para outro dia.
João Almeida Moreira é um jornalista português radicado em São Paulo e escreve no Bancada ao segundo sábado de cada mês.