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Opinião

A tempestade e a mudança

RedaçãoPor Redação23/05/20185 Mins Leitura
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A temporada do Sporting acabou, com lágrimas e estrondo, no final de uma semana tenebrosa e com uma derrota muito penalizadora para os leões. O pior já passou, porque nunca mais se repetirá um ataque como o de 15 de maio, mas é chegada a hora das explicações e das soluções. No meio destes dias agitados, uma questão ecoará na cabeça de muitos sportinguistas: o que é que faltou para que a época tivesse sido melhor? A resposta é simples: estabilidade. O Sporting nunca a teve, por culpa do presidente.

Nos últimos dias têm sido apontados inúmeros defeitos a Bruno de Carvalho, mas há uma característica que está gravada de forma indelével na personalidade do líder leonino: a da perseverança. Como um cowboy de rodeo, Bruno de Carvalho não larga a montada, apesar de estar a ser sacudido por todos os lados. E quando se pensa que a queda do cavalo é inevitável, o presidente do Sporting volta a conseguir segurar-se.

Na véspera da final da Taça de Portugal, o presidente do Sporting assinou de viva voz um longo “sermão” ao país, com críticas implícitas a todo o plantel e explícitas a Rui Patrício. De repente, no dia anterior ao jogo que encanta milhões de adeptos, o protagonista era Bruno de Carvalho, aproveitando o espaço mediático deixado vago pela falta de comparência dos treinadores. 

Mais do que foco de instabilidade, o homem que dirige os destinos do Sporting foi um verdadeiro agitador, incapaz de se remeter ao silêncio nas horas que antecederam a final da Taça de Portugal. Bruno de Carvalho anunciou que não iria ao Estádio Nacional, mas acabou por ser o primeiro a entrar em campo. Seria abusivo pensar que influenciou o resultado, mas demonstrou, uma vez mais, que está na presidência do Sporting com uma agenda própria, muito diferente da dos reais interesses do clube. 

Depois da derrota no Jamor, Bruno de Carvalho voltou a cavalgar as redes sociais, mas desta vez com uma mensagem bem mais presidencial. Enquanto os jogadores cediam às lágrimas, o presidente pedia o apoio dos adeptos à equipa e fazia um apelo à união. A mesma que não promoveu tantas vezes, ao longo dos últimos tempos.  

No início da semana, Bruno de Carvalho aproveitou a falta de ação dos órgãos sociais para anunciar várias medidas: o reforço da segurança em Alcochete, a suspensão do apoio à Juventude Leonina e a contratação de Augusto Inácio para diretor-geral do futebol do Sporting. 

Ao reforçar a vigilância na Academia, parece ser evidente que o clube dirigido por Bruno de Carvalho está a admitir de forma implícita que existiu negligência na forma como foram tratados os alegados sinais de desentendimento entre os jogadores e uma pequena falange de adeptos. Por outro lado, ao fazer regressar Augusto Inácio, Bruno de Carvalho afasta-se do banco, mas talvez espere conseguir aproximar-se da continuidade na liderança do clube. Ao contratar um antigo dirigente, treinador e jogador com enorme experiência, o presidente quererá demonstrar aos críticos que tem a intenção de ceder espaço a Inácio na gestão desportiva do futebol. O plano até parece ser aceitável, mas ao mesmo tempo serve para confirmar que o afastamento de Jorge Jesus será inevitável, a não ser que a relação com Augusto Inácio tenha conhecido uma evolução muito positiva. Mas mesmo que isso fosse verdade, já há uma montanha a separar o treinador do presidente. 

O regressado dirigente irá tentar juntar os cacos e iniciar a preparação da próxima época, mas não há cola que dê solidez a um clube que vive um verdadeiro clima de caos. E o rosto que encima esta crise é o de Bruno de Carvalho. 

P.S. – Na história da democracia portuguesa há um ou dois casos de políticos que aproveitaram os discursos eleitorais de vitória para desenrolarem críticas e mensagens revanchistas. Foi um pouco esse o caminho trilhado por José Mota na conferência de imprensa do Jamor, após o triunfo na final da Taça de Portugal. 

Por não concordar com a agenda mediática da semana que antecedeu o jogo, o treinador do Desportivo das Aves chegou ao ponto de dizer que, se fosse pelos jornalistas, o clube nortenho não teria vencido a Taça de Portugal.  

Na mesma frase, o técnico cometeu vários lapsos. Em primeiro lugar, os jornalistas não vencem jogos, nem sequer os influenciam. No máximo, relatam aquilo que aconteceu. Neste caso, relataram uma vitória justa e competente do Desportivo das Aves, da mesma forma que acompanharam, até às primeiras horas da manhã, os inéditos festejos do clube. Por outro lado, José Mota também se esqueceu do ferrolho mediático que foi imposto e que impediu o treinador de responder às perguntas dos jornalistas na antevisão daquele que foi o jogo mais importante da carreira.

José Mota esteve embrenhado na preparação da final, mas terá percebido, como todo o país, tudo aquilo que o Sporting viveu na última semana. Uma crise de tal forma grave que motivou declarações públicas do Presidente da República, do Primeiro-Ministro e do Presidente da Assembleia da República. José Mota ganhou bem, mas naquela conferência de imprensa não conseguiu acompanhar o brilhantismo da equipa em campo. 

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.

Augusto Inácio Bruno de Carvalho José Mota Manuel Fernandes Silva Sporting
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