Criteriosamente polido por Maurizio Sarri, o catarinense tem vindo a assumir-se como um dos melhores pivôs-recuados da atualidade. Amanhã, no início da Serie A, Jorginho regressa ao Bentegodi, o recinto onde começou a ganhar notoriedade no ‘calcio’. E também por isso será uma ocasião especial para o ‘regista basso’ dos azuis.
Apesar do aparecimento de Diawara, que, na visão de Sarri, também trouxe aspetos positivos em determinados segmentos da época 2016/17, Jorginho nunca baixou os braços para voltar a recuperar a confiança e o plano de destaque tivera na primeira temporada pós-Benítez. Parece ter recuperado o moral e as gentes de Fuorigrotta admiram a perseverança.
Tanto admiram que a celebração do San Paolo foi ligeiramente mais efusiva quando Jorginho marcou um golo. Não é habitual, mas aconteceu anteontem, contra o Nice, quando Mertens teve a cortesia de o deixar bater o penalty que carimbou o 2-0.
Não é surpreendente que Jorginho tenha tido a força psicológica para esperar pacientemente por uma nova oportunidade. Natural do estado de Santa Catarina, no sul do Brasil, saiu para Itália com apenas 15 anos de idade. Foi em Verona que deu os primeiros passos no país da bota e a passagem para a Campânia foi potenciada pelo interesse de Riccardo Bigon, que era o diretor desportivo do Nápoles na altura da transferência do centrocampista, em janeiro de 2014, por €9,5M.
Riccardo Bigon é mais conhecido por ser filho de Albertino Bigon, mítico treinador do Nápoles campeão em 90. Riccardo é hoje diretor desportivo no Bolonha. E Cristiano Giuntoli, o tal que contribuiu para o milagre da ascensão do Carpi à Serie A, é o atual homem forte do futebol dos napolitanos. Mas, em 2014, Riccardo tinha os seus argumentos para assegurar o negócio, como o facto de ser natural de Pádua e de ter jogado muitos anos por aqueles lados. Essa boa rede de contactos naquela região do Véneto, à qual também pertence Verona, no norte de Itália, facilitou a resolução da aquisição de Jorginho para o Nápoles.
«Na altura em que começou a ser titular, Jorginho era um dos jogadores com salário mais baixo»
O problema de Jorginho em Nápoles tinha um nome: Rafa Benítez. O espanhol não o valorizou, preferindo David López e Walter Gargano, num meio-campo mais musculado com duplo-pivô, e que escoltasse Marek Hamsik, o ‘trequartista’ em 14/15.
A saída de Benítez e a consequente entrada de Sarri foi a combinação ideal de fatores para Jorginho emergir, ao ponto de ter voltado a ser chamado à seleção italiana (por Conte).
É bom recordar que as primeiras semanas de época em 2015/16 não foram festivas para Sarri. A crítica foi severa, até Maradona se meteu ao barulho e o jogo ofensivo estava manifestamente engasgado. A melhoria regista-se, porém, em meados de setembro, num jogo da Liga Europa, contra o Club Brugge. Sarri não quis mais Insigne a ‘trequartista’, desviou-o para a esquerda para abrir mais a receção junto da faixa e iniciar o 1v1 com mais condições de êxito, estabelecendo um triângulo mágico com Ghoulam, o lateral, e Hamsik, o interior-esquerdo. Esta reconfiguração de sistema foi a chave para tudo o resto. Sarri desistiu da utilização de um “10”, montou meio-campo a três com um pivô-recuado, que passaria a ser Jorginho, meio afastado da hierarquia da posição até então porque Valdifiori era um conhecido de Sarri dos tempos do Empoli.
Na altura em que começou a ser titular, Jorginho era um dos jogadores com salário mais baixo em todo o plantel e nunca mais largou a posição ‘6’. Consolidou-se como a placa giratória do onze-tipo de Sarri e, globalmente, a capacidade de raciocínio, de equilíbrio e de fluidez da equipa elevou, a tal ponto que foram os mais sérios adversários da poderosa Juventus de Allegri.
A bola saía com facilidade para a zona média ou zona ofensiva, mesmo quando os adversários carregavam em cima. Afinado com a proximidade de Hamsik e Allan, bem como presença inabalável de Albiol e de Koulibaly, Jorginho melhorou o alcance na cobertura e no tempo de pressão. Mas foi na mecânica do passe que se distinguiu da concorrência, mesmo que continuasse a ser conveniente ter um caçador como Allan à sua direita para haver um suporte mais consistente na reação à perda da bola. Hoje, com Mertens no centro do ataque, os apoios frontais nos ioiôs mantêm-se bem trabalhados e há sempre a possibilidade de Jorginho introduzir o passe vertical para a desmarcação de um dos três atacantes, que facilmente perfuram o oponente.
De Laurentiis e Giuntoli não se enganaram quando contrataram Sarri. Embora seja toscano de adoção, Sarri é napolitano de berço. E quis devolver aos ‘azzurri’ um jogo mais atrativo e atacante, que causasse maior empolgamento. No geral, trouxe mais valentia e ambição, para levantarem a cabeça e se digladiarem com os maiores do país e da Europa. E também trouxe compreensão, sabendo, por exemplo, motivar Higuaín de uma forma que Benítez não conseguiu, particularmente naquele momento difícil depois do “drama” do argentino na Copa América.
« Jorginho tornou-se essencial por pensar as jogadas com um poder de lançamento e de antecipação que dá mais um ou dois preciosos segundos aos colegas que recebem a bola»
No entanto, é na organização suprema das zonas de pressão que a equipa de Sarri mais se evidencia, e pela variabilidade de ataques, tanto em velocidade, como em ações mais metódicas em qualquer área do campo. Atrás, há apoios bem delineados para criar escapatórias e na frente também promovem, em ataques planeados, a chegada de Hamsik ou de Callejón à baliza adversária – este último em diagonal. Em qualquer dos cenários, Jorginho tornou-se essencial por pensar as jogadas com um poder de lançamento e de antecipação que dá mais um ou dois preciosos segundos aos colegas que recebem a bola.
É verdade que Sarri, na época anterior, utilizou Amadou Diawara em bastantes jogos, esperando que o guineense, que dois anos antes estava a jogar em São Marino, bloqueasse mais ataques dos adversários em virtude do pressing mais agressivo (embora algumas vezes menos incisivo). Aconteceu no Bernabéu, por exemplo. A questão era quando o Nápoles recuperava a bola e as ideias que faltavam quando isso acontecia. Independentemente da evolução de Diawara no momento da construção, Jorginho estabelece um nível acima na qualidade como recebe e distribui perto da linha do meio-campo. Dá mais certeza na ligação.
E essa ideia de jogar com Jorginho, e não com Diawara, parece ter voltado às prioridades de Sarri para este início de 17/18, desiludindo, entre vários treinadores, Eddie Howe, o estratega do Bournemouth, que o queria contratar antes do fecho da janela de transferências.
O Luís Catarino é comentador da Sporttv e escreve no Bancada às sextas-feiras