Em pleno verão, os pavilhões da NBA estão vazios, as luzes dos balneários apagadas e não há um único jogo a decorrer. No entanto, é precisamente nesta altura do ano que a cabeça de quem acompanha a modalidade não para. Entre anúncios de trocas, rumores no mercado e a apresentação do plantel para a nova temporada, o trabalho nos escritórios das equipas atinge o pico.
É neste período de defeso que muitos adeptos olham para a nova cara do seu clube e juntam as peças do puzzle: a época fraca e as derrotas acumuladas no inverno anterior não foram um acidente de percurso. Foram uma estratégia calculada.
Num ecossistema desportivo desenhado ao milímetro para ser altamente competitivo, existe uma realidade bizarra: para muitas organizações, a forma mais rápida de chegar ao topo é passar vários meses a tentar perder ativamente. No basquetebol norte-americano, este fenómeno tem um nome: tanking. Entenda como funciona uma das mecânicas mais fascinantes e controversas do desporto mundial.
⚡ Em resumo
- O incentivo do ‘draft’: Ao contrário do futebol europeu, a NBA recompensa as piores equipas da fase regular dando-lhes as probabilidades mais altas de escolher os melhores jovens talentos do mundo.
- A armadilha da mediocridade: ficar no meio da tabela é o pior cenário possível, pois a equipa não luta por títulos nem consegue escolhas altas no recrutamento.
- Estratégia de longo prazo: O tanking consiste em sacrificar o presente (acumulando derrotas) para construir uma dinastia no futuro através do recrutamento de promessas geracionais.
Como funciona o ‘draft’ da NBA
Para entender por que razão uma organização que vale biliões de dólares aceita perder de forma deliberada, é preciso analisar a estrutura do desporto norte-americano.
Modelo americano vs. Modelo europeu
No futebol europeu, o último classificado sofre uma punição devastadora: a despromoção. Portanto, perder jogos significa perder receitas de transmissão, patrocinadores e prestígio.
Na NBA, a liga é um sistema fechado. Não há descida de divisão, nem o risco de falência. Pelo contrário, a estrutura foi criada para garantir a paridade financeira e desportiva. O que significa isto? Que os fracos são ajudados e os fortes são penalizados.
- Futebol europeu: Derrotas ➔ Despromoção ➔ Perda financeira.
- NBA: Derrotas ➔ Altas probabilidades no ‘draft’ ➔ Acesso a superestrelas.
A matemática da derrota na NBA
Ora, principal porta de entrada de novos talentos na NBA é o ‘draft’. E, para evitar que a pior equipa perca de propósito de forma demasiado ostensiva para garantir o primeiro lugar nesse sistema, a NBA utiliza a “Lotaria do Draft”.
Ainda assim, a matemática continua a favorecer quem perde mais: as três piores equipas da fase regular entram no sorteio das bolas de ping-pong com a percentagem máxima de probabilidade (14% cada) de garantirem a primeira escolha.
Num desporto onde um único jogador extraordinário (como LeBron James, Tim Duncan ou Victor Wembanyama) pode mudar o destino de uma franquia durante 15 anos, ter esses 14% vale mais do que vencer 35 ou 40 jogos irrelevantes.
O purgatório da NBA: por que razão o 9.º lugar é o pior de todos
Na perspetiva de quem gere uma equipa da NBA (um ‘General Manager’), existem apenas dois estados ideais para uma franquia:
- Lutar legitimamente pelo título de campeão.
- Ser categoricamente fraco para garantir escolhas de topo no ‘draft’.
Tudo o que fica no meio é considerado o purgatório da mediocridade.
Uma equipa que termine em 8.º ou 9.º lugar da conferência é eliminada na primeira ronda dos playoffs (ou nem lá chega), obtém uma escolha medíocre no ‘draft’ (entre o 14.º e o 18.º lugar) e não tem atrativo suficiente para contratar os melhores jogadores livres do mercado.
Sem estrelas para vencer e sem escolhas altas para reconstruir, a organização fica presa num ciclo de mediocridade que pode durar décadas.
A solução mais rápida para quebrar esta espiral? Deitar a estrutura abaixo e fazer ‘tanking‘.
Como se perde um jogo de elite? As táticas bizarras do ‘tanking’
Obviamente, nenhum treinador entra no balneário e diz aos atletas: “Hoje a ordem é para perder”. Os jogadores e as equipas técnicas têm contratos em jogo, orgulho e estatísticas individuais para defender. Por isso, a engenharia do tanking é executada ao nível da direção do clube.
- ‘Lesões’ prolongadas e rotações absurdas: A partir de meio da época, quando a direção percebe que o ano está perdido, começam as manobras de bastidores.
- Aparecimento de lesões misteriosas: As estrelas da equipa começam a ser encostadas por ‘rigidez nas costas’ ou ‘gestão de esforço’ durante meses a fio.
- Minutos aos suplentes: Nos momentos decisivos do quarto período, os melhores jogadores ficam no banco e os minutos são entregues a atletas inexperientes ou vindos da liga de desenvolvimento.
- Troca de veteranos: Em janeiro e fevereiro, o clube troca os seus atletas mais experientes por futuras escolhas de ‘draft’ e jogadores jovens sem rodagem.
O caso The Process: a revolução radical dos Philadelphia 76ers
O exemplo mais famoso da história recente pertence a Sam Hinkie, antigo gestor dos Philadelphia 76ers.
Entre 2013 e 2016, Hinkie assumiu abertamente a estratégia: trocou os jogadores consagrados e colocou em campo equipas manifestamente frágeis. Os 76ers acumularam marcas históricas de derrotas durante anos consecutivos.
O lema adotado pelos adeptos tornou-se mítico: “Trust the Process”. O sofrimento prolongado acabou por render as escolhas de topo que permitiram selecionar, entre outros, Joel Embiid, transformando uma equipa perdedora num candidato constante aos lugares cimeiros.
O que faz a NBA para combater esta ‘batota legal’?
A direção da liga, liderada pelo comissário Adam Silver, reconhece que o ‘tanking’ afeta o espetáculo televisivo e a venda de bilhetes na segunda metade da época regular. Ao longo dos anos, foram introduzidas várias medidas para travar o fenómeno:
- Equalização das probabilidades: Antigamente, a pior equipa de todas tinha 25% de hipóteses de ficar com o primeiro lugar do ‘draft’. A NBA reduziu essa margem para 14% e igualou essa percentagem às três piores equipas, tornando a corrida ao fundo da tabela menos lucrativa.
- Criação do Torneio Play-In: Dar ao 9.º e 10.º classificados a oportunidade de lutar por uma vaga nos playoffs fez com que mais equipas se mantivessem competitivas até abril.
- Investigações e multas: A liga passou a escrutinar relatórios médicos e a aplicar multas avultadas a equipas que sentem jogadores saudáveis sem justificação plausível.
Perder de propósito funciona mesmo?
A resposta curta é: depende do trabalho feito após o processo de derrota.
Afinal, o ‘tanking’ garante a oportunidade de escolher no topo, mas não garante a capacidade de escolher bem.
O histórico da NBA apresenta vários exemplos de equipas que falharam a seleção dos seus jovens talentos e ficaram viciadas numa cultura derrotista difícil de apagar.
Por outro lado, organizações como os San Antonio Spurs construíram a sua era dourada ao aproveitar uma época desastrosa para selecionar Tim Duncan em 1997. E, recentemente, repetiram a fórmula para garantir Victor Wembanyama.
Quando se analisa a reconstrução do plantel de uma equipa durante as férias de verão, compreende-se o sacrifício. Na NBA, por muito bizarro que pareça, as grandes vitórias do futuro são quase sempre desenhadas nas derrotas planeadas do passado.
