Se o Torneio de Wimbledon é a catedral do ténis, com o branco absoluto a ser obrigatório e o silêncio religioso a imperar antes do serviço, o US Open é o oposto opulento e barulhento.
Disputado em Flushing Meadows, no borough do Queens, em Nova Iorque, o último Grand Slam da temporada é a antítese do conservadorismo desportivo.
Enquanto a Europa construiu a tradição do ténis sobre o elitismo da relva e da terra batida, os Estados Unidos transformaram o desporto num espetáculo de entretenimento puro. Mas de onde vem esta veia rebelde que faz do US Open um torneio sem igual?
Do silêncio vitoriano ao barulho de Nova Iorque
Em nenhum outro lugar do mundo o público de ténis se comporta como em Nova Iorque. Afinal, o Arthur Ashe Stadium é o maior recinto do mundo dedicado à modalidade, com capacidade para mais de 23 mil pessoas.
E, com tanta gente, a etiqueta clássica do ténis é constantemente desafiada.
- O ruído constante: O som dos aviões a descolar do aeroporto LaGuardia, o murmurinho constante de dezenas de milhares de adeptos nas bancadas e o som de copos de plástico a brindar fazem parte da banda sonora.
- A cultura da bancada: Ao contrário de Londres ou Paris, onde o público murmura reprovação a quem se move nas bancadas durante o jogo, em Nova Iorque a energia é de um concerto de rock ou de um jogo da NBA.

Night Sessions: O ténis em formato prime time
Foi o US Open que inventou as famosas sessões noturnas em 1975. O conceito era simples, mas revolucionário para a época: iluminar o complexo e permitir que as pessoas fossem ver ténis depois do trabalho.
Jogar à noite em Nova Iorque não é apenas disputar uma partida de ténis. É atuar num palco sob luzes de néon perante uma multidão que bebeu cerveja o dia todo e quer ver um combate de gladiadores.
Estas sessões transformaram o torneio num evento cultural. As partidas arrastam-se frequentemente até às duas, três ou quatro horas da manhã, com o público a empurrar os atletas ao limite numa atmosfera febril e saturada de adrenalina.
Sessão Noturna (US Open):
- Luzes de projetores de alta intensidade;
- Música nos intervalos dos jogos (DJ no estádio);
- Celebridades na primeira fila (cinema, música);
- Adeptos ruidosos e jogos até de madrugada.
Como o US Open rompeu com o passado
A rebeldia do US Open não se reflete apenas no comportamento do público; está entranhada nas suas decisões históricas.
O torneio norte-americano foi, quase sempre, o primeiro a quebrar as regras sagradas do ténis:
- Igualdade de prémios financeiros (1973): o US Open foi o primeiro Grand Slam a pagar exatamente o mesmo valor em dinheiro a homens e mulheres, após a ameaça de boicote de Billie Jean King.
- Introdução do Tie-break (1970): acabou com os sets infinitos muito antes dos restantes torneios de elite.
- Tecnologia na linha (2006): foi o primeiro grande torneio a adotar o sistema Hawkeye (Olho de Falcão) nos ecrãs gigantes, transformando a contestação dos jogadores num momento de suspense participado pelo público.
O US Open provou ao mundo que o ténis não precisa de ser rígido para ser grandioso. Ao abraçar a eletricidade, o ruído e o caos urbano de Nova Iorque, o último Grand Slam da temporada afirmou-se como o palco onde a tradição do desporto se curva perante a modernidade.
