A história de Oksana Masters não é sobre desporto. É sobre a resistência do corpo humano. É sobre superação e inspiração.
Nascida na Ucrânia em 1989, três anos após o desastre nuclear de Chernobyl, a atleta transporta no próprio corpo a herança biológica da radiação.
Hoje, Oksana Masters é a atleta de inverno mais condecorada dos Estados Unidos. Contudo, é preciso lembrar que o seu início de vida foi marcado pelo abandono e pela sobrevivência extrema.
A bebé abandonada de Chernobyl
Oksana Masters nasceu com malformações congénitas severas devido à exposição da sua mãe biológica à radiação durante a gravidez.
O seu quadro clínico inicial incluía:
- Tibias inexistentes: nasceu sem os ossos de suporte das pernas (hemimelia tibial).
- Malformações nas extremidades: tinha seis dedos em cada pé e cinco dedos palmados em cada mão, sem polegares.
- Danos internos: apresentava defeitos em órgãos e falta de tecido muscular em várias partes do corpo.
Devido a estas condições, a bebé foi entregue a um orfanato logo após o nascimento. Viveu em três instituições diferentes até aos sete anos, onde enfrentou fome, abusos físicos e negligência absoluta.
Aliás, Oksana pesava apenas 15 quilos quando foi adotada pela norte-americana Gay Masters.
A reconstrução médica e a amputação
A chegada aos Estados Unidos deu início a uma longa jornada hospitalar. Para que pudesse ter mobilidade, o corpo de Oksana Masters teve de ser cirurgicamente reconstruído.
- Perda dos membros: a dor causada pelas pernas sem suporte ósseo obrigou à amputação da perna esquerda aos 9 anos e da perna direita aos 14.
- Mãos funcionais: os cirurgiões realizaram múltiplas reconstruções nas mãos, utilizando ligamentos para criar polegares funcionais onde não existiam.
- Resiliência clínica: ao longo da vida, Oksana Masters submeteu-se a 28 cirurgias.
O desporto surgiu aos 13 anos como uma ferramenta terapêutica para lidar com o trauma e a nova realidade física.
Domínio em quatro modalidades
Apesar de todas as adversidades, Oksana Masters quebrou a barreira da especialização.
Na verdade, ela é uma das poucas atletas no mundo a conquistar medalhas paralímpicas em desportos de verão e de inverno, adaptando o seu corpo a cada seis meses para novas exigências físicas.
- Remo: conquistou o bronze em Londres 2012, mas uma lesão nas costas forçou a mudança de modalidade.
- Ciclismo: especializou-se em ciclismo de mão, somando quatro medalhas de ouro entre Tóquio e Paris.
- Esqui de fundo: tornou-se a referência máxima nas pistas de neve, vencendo múltiplos títulos mundiais e paralímpicos.
- Biatlo: disciplina que exige precisão absoluta no tiro sob fadiga extrema, onde Masters é a atual campeã.
A consagração nos Jogos de 2026
Oksana Masters, a bebé de Chernobyl abandonada à nascença, está agora a competir ao mais alto nível.
Mesmo com um historial recente de infeções ósseas e uma cirurgia à mão no verão passado, a atleta continua a quebrar recordes nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026, a decorrerem em Itália.
- 20.ª medalha: Alcançou o marco histórico de 20 medalhas na carreira, unindo as suas participações de verão e inverno.
- Ouro no biatlo: Confirmou o seu favoritismo ao vencer a prova de 7,5 km sprint com uma pontuação perfeita no tiro.
- Legado: consolidou-se como a maior referência do desporto paralímpico norte-americano, superando as limitações físicas impostas no nascimento.
Perfil de Oksana Masters
- Origem: Khmelnytskyi, Ucrânia
- Residência: Louisville, Kentucky, EUA
- Total de medalhas: 20 Paralímpicas / 24 em Mundiais
- Próximo objetivo: Jogos de Los Angeles 2028
A participação de Oksana Masters nos Jogos 2026 é a prova de que a sobrevivência pode ser transformada em excelência técnica. O seu percurso, de um orfanato ucraniano ao topo do pódio, serve de base para o seu trabalho como mentora de jovens atletas com deficiência através da organização “Sisters in Sports”.
