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Beira-Mar. Eia, Avante, sem parar pela Veneza portuguesa

RedaçãoPor Redação26/04/20249 Mins Leitura
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Entrevista a Rúben Silvestre, defesa do Beira-Mar do Campeonato de Portugal

Muitos vivem só do futebol e para o futebol. Outros, também muitos, tentam conciliar horários, tarefas e missões para amealhar algum dinheiro, pois não há contratos milionários. Numa Liga 3 ou no Campeonato de Portugal milionária é a paixão e a entrega. O compromisso vai sempre a jogo e está sempre presente na temporada.

Acordar cedo, deitar tarde, andar numa correria desenfreada é já hábito de muitos atletas e equipas técnicas, ou simples colaboradores que fazem a paixão do futebol continuar.

Umas semanas aziados pela derrota, outras alturas de sorriso de orelha a orelha porque correu bem ‘no domingo’, o dia sagradinho para a bola rolar.

Beira-Mar é futebol. Como explicar aquilo que se sente?

No balneário uns chegam mais cedo que outros, há quem passe pela rouparia para dar ‘duas de letra’ e levantar o cesto. Há também tempo para uma brincadeira ou uma ‘teoria’.

Desde a formação ao futebol sénior é assim, sempre assim. A rotina apertada, mas sempre detalhada para que nada falhe. O relógio sempre ‘esticado’ para dar tempo para tudo. Mas aquele é mundo que realiza tantos corações por Portugal fora, e não só.

O som das chuteiras a ‘cantar’, as brincadeiras de balneário, ‘fazer barco’ ou boleia como alguns dizem. É tudo futebol. Faz tudo parte. 

Só que as épocas têm fim. Por uns, muito cedo, para outros, perfeitamente normal. Cedo ou tarde o que é certo é que passa a sobrar tempo mas também saudade.

O Jogo do Povo foi até à cidade dos ovos moles para entrar no mundo do Beira-Mar, um histórico que está a tentar ser o que foi outrora. 

Rúben Silvestre foi o chefe do moliceiro na viagem pela realidade de um emblema que alinha no Campeonato de Portugal, mas que tem nome de gigante; um gigante que se tenta reerguer inspirado no passado.

Ao Jogo do Povo, Rúben Silvestre não escondeu que o emblema aveirense queria mais do que aquilo que leva desta época. “A palavra que mais define esta época é frustração”, confessou o defesa.

“O Beira-Mar é muito grande”

“Acho que andámos sempre a tentar buscar aquilo que queríamos, mas esse objetivo e essa força fugia sempre de semana a semana”, admitiu o jogador do Beira-Mar, certo de que o clube “é muito grande” e precisa de trepar patamares na escada do futebol nacional.

“O Beira-Mar é muito grande. Eu equiparo muito o clube à União de Leiria”, referiu Silvestre, falando ao Bancada de “dois históricos que caíram da sua glória e em que a única maneira de realmente despertar todo o valor que têm é juntar a cidade e todos os envolvidos no clube e no projeto”.

Essa é a forma que o jogador encontra para que o Beira-Mar volte a ser o que já foi. Assim, será possível “projetar tudo para dentro de campo.”

“Acredito muito no futuro do clube, porque tem todo um potencial para voltar a ser o que já foi. Mas, neste momento, é preciso juntar forças, organizar e começar a andar, passo a passo”, aconselhou o jogador, ciente de que o futebol oferece um ensinamento constante.

“Se há coisa que o futebol me ensinou foi a dar o devido valor à mais pequena coisa que existe, em todos os sentidos”, revelou, alertando para a necessidade de, no campo, os jogadores estarem sempre focados para crescer.

“Seja um mau posicionamento, seja um mau passe, um bom remate ou um bom cruzamento. Tudo importa. Tudo na nossa vida tem valor e vai influenciar o resultado final”, salientou Rúben Silvestre.

Em declarações ao Jogo do Povo, o defesa do Beira-Mar salientou que é preciso também refletir sobre aquilo que corre bem e mal. Só assim se vai crescer na competição.

“E nem tudo tem que ser mau, por muito mau que pareça podemos tirar muito. E eu levo isso para a vida e tento aprender. Errar e voltar aprender para que consiga crescer e perceber a diferença a entre o certo e o errado”, contou Rúben Silvestre, ele que já foi campeão na II Liga e no Campeonato de Portugal.

É pois com essa experiência que espera continuar no futebol a crescer, constantemente. Mesmo quando as experiências possam parecer erradas. Nessa lógica, ao Bancada, o atleta lembrou experiências no futebol lá por fora.

“Lembro-me de quando fui para a Roménia. Foi aí que percebi e que comecei a dar o devido valor a família que tenho, à minha cidade que é Tondela e ao quanto é bom estarmos em casa”, destacou Rúben Silvestre, atento às coisas mais simples.

“Acho que é bom darmos valor à mais pequena coisa porque realmente estarmos aqui é uma benção”, admitiu o defesa, que confessa que é dos mais brincalhões do balneário do Beira-Mar.

“É disto que vamos ter mais saudades quando tudo acabar”

“Gosto muito de brincar porque acho que isso é o que levamos e do que vamos ter mais saudades quando isto tudo acabar”, prevê Rúben Silvestre, recordadno os tempos em que jogou no São João de Ver e lhe pregaram uma partida que encarou com sorriso no rosto.

“Vitafilmaram-me o carro todo e eu só percebi quando cheguei ao carro, mesmo com os meus colegas a dizerem-me que ‘íamos ao sushi’, como referência a como estava a parecer o carro”, disse, entre sorrisos.

Mas quem admite brincadeira, também brinca. E Rúben Silvestre também ‘tem algumas partidas’ no currículo. “Já congelei as chuteiras a um colega este ano, escondi sapatilhas, brinco muitas vezes com a indumentária, mas isso já faz parte do dia a dia e era isso que nos fazia rir e levar tudo com leveza”, reconhece aquele a quem, em tempos, na brincadeira, apelidaram de Mbappé.

Quatro trabalhos para o Mbappé de Tondela

O futebol está na vida de Rúben Silvestre mas não vive só dele. O jogador tem quatro trabalhos. É, pois, uma vida muito pautada pelo relógio para que consiga fazer tudo e nenhuma tarefa fique pelo caminho.

Além do futebol, Rúben Silvestre trabalha na Recheio em part time, na Stats Perform e ainda é consultor de viagens. Uma vida repleta de tarefas, até porque o futebol é feito de ciclos e, como se dizia no começo, alguns terminam cedo, como as épocas.

Assim, o defesa não tem problema em assumir que a longa paragem do Campeonato de Portugal para as equipas que não lutam pelo título é algo “ridículo”. ” Só há uma palavra que define toda esta paragem: ridículo”, admitiu Rúben Silvestre.

Para o defesa, “isto não protege em nada o futebol, não respeita em nada um campeonato supercompetitivo com muitas equipas estruturadas, organizadas e com objetivos e sonhos a atingir”, comentou o jogador, em declarações ao Jogo do Povo.

“E muito menos defende aquilo que é o jogador de futebol. Sabemos que hoje em dia há muitos miúdos que jogam neste campeonato com o sonho de um dia conseguir ‘dar o salto e, se a época lhes correr menos bem, chegam a abril e vão para casa ver os outros pela televisão desiludidos com tudo aquilo que lhes aconteceu e a desejar estar naqueles lugares que tanto trabalharam para estar”.

Paragem longa do CP leva a conselho para que jovens joguem na Distrital

Rúben Silvestre assume que por vezes até seria melhor jogar numa Distrital pois o quadro competitivo é mais longo em algumas associações do que no Campeonato de Portugal.

“Ficam 4/5 e alguns 6 meses sem receber. Isto tudo para quê? Para irem oito equipas a uma fase de subida em que em oito sobem quatro? Não faz sentido e alguém precisa de fazer alguma coisa em relação a isto porque assim o único conselho que eu consigo dar a esses miúdos, que têm a possibilidade de vir jogar para este campeonato, e que procuram brilhar e fazer com que as coisas lhes corram bem é irem jogar para a Distrital”.

“Isto não protege em nada o futebol, não respeita em nada um campeonato supercompetitivo com muitas equipas estruturadas, organizadas e com objetivos e sonhos a atingir”

Nessa realidade, defende Rúben Silvestre, quem tem talento acabará por conseguir ‘dar o salto’. “Se lá fores realmente bom vais sobressair, vais conseguir bons contratos e não vai ser por isso que não vais deixar de dar o salto e, para além disso, jogas mais tempo. Resumidamente, se não corre bem é perder tempo e dinheiro. E isto tem de ser uma revolta geral, de todos nós que gostamos deste campeonato. Exigimos respeito pelos jogadores e pelos clubes que ficam sem receitas”, desabafou Rúben Silvestre.

O futebol faz parte da vida do defesa desde que começou na escola de futebol ‘Os Pestinhas’ e de onde guarda memórias que ainda hoje o acompanham no mundo da bola.

“Jogar futebol na rua com duas pedras por muito clichê que pareça eu fiz isso, ou passar a passadeira com a bola no chão, conseguir dar toques com os dois pés”, recordou o jogador, lembrando tempos em que só a bola importava.

Agora as responsabilidades são outras mas o objetivo passa sempre por honrar os ídolos. “O meu pai e a minha mãe são as minhas duas principais referências, são duas pessoas que sempre lutaram para ter tudo aquilo que sou hoje”, relatou Rúben Silvestre, ciente de que nem tudo foi fácil até aqui.

“Passaram por muitas dificuldades mas nunca deixaram de me dar, quer a mim quer ao meu irmão, tudo aquilo que precisávamos para ser duas crianças felizes”, destacou o jogador de 30 anos que espera ser como quem o trouxe ao mundo. “Um dia quero ser como eles”, disse Rúben Silvestre, do Beira-Mar, em declarações ao Jogo do Povo.

E por Aveiro o Beira-Mar continuará o seu caminho. Entre canais mais estreitos ou largos, com maior agitação ou menor das águas, vai manter o seu ‘perfume’ no futebol. “Eia, Avante, sem parar pela Veneza portuguesa”.

Beira-Mar Campeonato de Portugal Liga 3
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