Técnico francês precisou apenas de ano e meio para fazer o que nenhum outro treinador havia feito a nível europeu
O Real Madrid conquistou este sábado a 12.ª Champions do seu historial, a segunda de forma consecutiva. Os merengues foram os primeiros a conseguir repetir o sucesso na era da Liga dos Campeões, que se iniciou em 1993. Um feito que tem tido em Cristiano Ronaldo o grande rosto. Mas que também teve a mão de um homem que demorou a convencer a crítica, mas que desde que chegou ao Real, há ano e meio, só sabe vencer.
Zidane chegou à “cadeira de sonho” a 4 de janeiro de 2016, numa altura em que o Real se encontrava a atravessar uma fase complicada, que resultou na saída de Rafa Benítez. O francês já estava a ser “preparado” para o cargo há algum tempo por Florentino Pérez, mas nem isso o salvou das críticas e das dúvidas iniciais, uma vez que só trazia no currículo a experiência de um ano a treinar a equipa b do emblema espanhol e poucos lhe reconheciam valências táticas para enfrentar a alta roda do futebol europeu.
Ainda assim, o técnico francês ignorou as críticas, blindou o balneário e começou a inverter o clico negativo. Apesar de já não ter conseguido entrar na luta pelo título espanhol da última época, conseguiu levar os merengues “silenciosamente” até à final da Champions. Venceu o Atlético Madrid nos penáltis e conseguiu logo aí estabelecer um feito de relevo: vencer a prova rainha do futebol europeu de clubes na sua primeira experiência de técnico principal ao mais alto nível.
Apesar de ter conduzido o Real Madrid ao título europeu, o reconhecimento não chegou logo a Zidane, uma vez que o francês acabou por ficar fora da luta pelo troféu da UEFA para o melhor treinador do ano. Em 2016/17 o ex-galático voltou ao trabalho em força e conduziu os merengues a um feito ainda maior: vencer duas Ligas dos Campeões consecutivas e juntar ainda o título espanhol, que fugia há cinco temporada. Algo que já não acontecia há cerca de 60 anos: apenas em 56/57 e 57/58 os merengues conseguiram terminar a época como campeões europeus e também espanhóis.
Na senda de José Villalonga Llorente
Agora, depois de ter quebrado o “enguiço” merengue e da Liga dos Campeões, Zidane parece ver-lhe ser, finalmente, reconhecido algum mérito nas conquistas merengues. Em toda a história da competição, apenas um nome conseguiu fazer algo semelhante. Trata-se de José Villalonga Llorente, técnico que começou a carreira nos bancos a meio da temporada de 1954/55 e logo no… Real Madrid.
O malogrado treinador espanhol, que faleceu em 1973, viria a conduzir o Real à vitória na primeira Taça dos Campeões Europeus da história, em 1955/56, com apenas 36 anos, sendo ainda o mais novo de sempre a triunfar, repetindo o êxito no ano seguinte. Tinha apenas 37 anos quando o conseguiu, menos sete que Zidane, embora o francês tenha precisado de praticamente menos uma temporada para conseguir reeditar a proeza europeia.
O treinador gaulês, de 44 anos, juntou-se assim a uma lista de outros 17 nomes que também venceram a competição por duas ocasiões, onde estão José Mourinho e Pep Guardiola, por exemplo. Guardiola até tem a seu favor o facto de ter conseguido vencer a prova no seu ano de estreia ao mais alto nível – tal como Zidane, também passou pela equipa B, mas do Barcelona. Contudo, nem o espanhol nem o português conseguiram ganhar o troféu em duas ocasiões seguidas.
Agora, Zizou irá tentar conduzir o Real Madrid ao tri na Champions e, caso o consiga fazer, poderá igualar Carlo Ancelotti e Bob Paisley como os técnicos com mais títulos europeus de clubes. Curiosamente, foi com o italiano que Zidane começou o “estágio” rumo ao cargo de timoneiro dos blancos, tendo sido seu adjunto na temporada de 2013/14, quando Ronaldo e companhia venceram o troféu na final de Lisboa. Essa seria a segunda Champions de Zidane pelos merengues, depois de o ter feito como jogador em 2001/02.
Gestor de egos
Numa equipa recheada de galáticos, Zidane teve o mérito de gerir com pinças um balneário que tantas dores de cabeça já havia dado a outros técnicos de topo, como José Mourinho, por exemplo. Em Madrid é, por vezes, mais importante ter um gestor de egos que um mestre da tática. É essa a grande valência do francês, sobretudo num plantel onde há Ronaldo, Bale, Ramos, Isco, Kroos, Modric, Benzema, entre outros.
Também Villalonga Llorente não se podia queixar do plantel que tinha na década de 50. Di Stéfano, Puskás, Gento, Miguel Muñoz ou Kopa, eram alguns dos nomes que despontavam na super equipa merengue. Tal como também Del Bosque não se queixará de ter orientado a primeira levada de “galáticos”, onde brilhavam estrelas como Figo, Ronaldo “Fenómeno”, Roberto Carlos, Raúl ou… o próprio Zidane.
Se recuarmos no tempo, até 1998, quando Jupp Heynckes conduziu o Real à conquista da sétima Champions do historial, vemos que todos os outros técnicos que também conseguiram ser campeões europeus desde então pertencem ao mesmo registo de Zidane. Tanto Del Bosque – que, posteriormente, saiu de Madrid para aproveitar o “tiki-taka” do Barcelona e “gerir” as rivalidades no balneário da Espanha, levando o país vizinho ao título mundial -, como Ancelotti souberam gerir egos como ninguém. Curiosamente ou não, Zidane trabalhou com ambos, bebendo, talvez, esse espírito pacificador capaz de conduzir um grupo de craques à glória.