A lenda de Stjepan Bobek não resistiu ao tempo. Ele que jogou uma partida que podia ter mudado o futebol jugoslavo.
Stjepan Bobek. O melhor jogador da história do Partizan Belgrado. Ídolo de Ferenc Puskas. O melhor marcador da história do futebol sérvio e jugoslavo. Se o nome pouco lhe diz, não se preocupe. Certamente não será o único. Bobek não resistiu ao poder do tempo e o seu nome acabou esquecido pelo Mundo do futebol. Mesmo que ao longo de uma carreira de 17 anos, Bobek tenha apontado 445 golos em 501 jogos ao nível de clubes e, ao nível da seleção jugoslava, 38 golos em 63 jogos.
“A técnica de Bobek com a bola não tem rival. Não tenho vergonha de o admitir, mas já várias vezes tentei copiar a sua forma de jogar. Bobek tinha um drible genial e o seu passe de calcanhar era impecável. Será sempre um dos mais nobres artistas do futebol”. Ferenc Puskas pode ter sido um dos maiores jogadores da história do futebol, porém, era Bobek um dos jogadores que mais o Major Galopante idolatrava. Não era para menos. Falamos de um homem reconhecido pela sua capacidade técnica, visão de jogo e capacidade goleadora. Figura central da seleção jugoslava que foi duas vezes finalista vencida olímpica. Tudo isto, não tendo, sequer, nascido em território sérvio.
Bobek tornou-se ídolo do futebol jugoslavo e sérvio, porém, o melhor marcador da história do futebol sérvio nasceu, na verdade, em Zagreb. Hoje, território croata. A consciência política nunca faltou a Bobek que, em tempos, admitir ter noção que a seleção jugoslava serviu de bandeira ao regime do general Tito. Com Bobek pela esquerda e Mitic pela direita, poucas seleções Mundiais eram tão encantadoras no início dos anos 50 quando a Jugoslávia. E como tudo podia ter sido diferente na história do futebol jugoslavo não tivesse sido a intrasigência de um homem. Mervin Griffiths, árbitro galês que conduziu o decisivo Jugoslávia-Brasil do Mundial de 1950.
Por esta altura nada parava os jugoslavos. Vá, certo, fê-lo a Suécia em 1948 e a Hungria em 1952 nos Jogos Olímpicos, porém, pouco mais. No primeiro Mundial pós guerra a Jugoslávia era uma das forças a temer. Chegou ao Brasil como uma das grandes favoritas ao título Mundial e nem um relvado que parecia mais um batatal, em Belo Horizonte, acalmou o ímpeto jugoslavo. Na estreia do Mundial de 1950, a Jugoslávia derrotou concludentemente a Suíça por 3-0, também ela, uma das boas equipas da competição. Ao segundo jogo, melhor ainda. Em Porto Alegre a Jugoslávia fez dois em dois ao bater o México por 4-1. Bobek fez o primeiro golo.
A luta pelo primeiro lugar no grupo estava ao rubro à partida para a última jornada do grupo. Um empate bastava à Jugoslávia para seguir em frente rumo à ronda final da competição. O problema? Teriam, os jugoslavos, pela frente, o Brasil. Não só uma potência influente, mas também o organizador da prova. Já perceberam onde isto vai desaguar, certo? A Jugoslávia chegou ao jogo decisivo em vantagem pontual perante o Brasil que, ao contrário dos jugoslavos, não havia conseguido bater a Suíça, empatando a dois golos perante os helvéticos. Como tudo podia ter sido diferente tivesse o Marcanã sido construído como devia ser.
Maracanã. Quase 150 mil pessoas amontoam-se para assistir à receção do Brasil aos jugoslavos. O jogo, para os brasileiros, não podia ter começado melhor. Aos quatro minutos, Ademir, um dos ícones do Brasil ao lado de Zizinho e Jair, colocou a equipa brasileira na frente. Em campo, eram onze contra dez. Uma injustiça, clamam, ainda hoje, os jugoslavos. Tudo por culpa da intrasigência do árbitro da partida. Tudo por culpa de uma distração de Mitic.
No Maracanã pouco falta para as três da tarde, hora de início do encontro entre Brasile Jugoslávia, jogo decisivo. Quem vencesse seguia em frente. Seguiam, os jugoslavos, mesmo que empatassem. À saída dos balneários, rumo ao relvado, Mitic distraiu-se e bateu com a cabeça num ferro saliente fruto da construção apressada do mítico recinto brasileiro. O extremo abre a cabeça e para que o jogo começasse onze contra onze tinha sido preciso um atraso que Mervin Griffiths não permitiu. Quando Mitic finalmente entrou em campo, colocando a igualdade numérica sobre o relvado do Maracanã, já Ademir tinha colocado o Brasil na frente. Na segunda parte, terminou de vez o sonho. Zizinho, aos 69 minutos, fez o 2-0 final e o Brasil seguiu em frente. A Jugoslávia estava eliminada.
Bobek faleceu em 2010 com 86 anos. Ídolo na antiga Jugoslávia, venceu ainda a Liga e Taça grega, já como treinador, ao serviço do Panathinaikos. O melhor jogador da história do Partizan Belgrado. Ídolo de Ferenc Puskas. O melhor marcador da história do futebol sérvio e jugoslavo. Se o nome pouco lhe diz, não se preocupe. Certamente não será o único. Bobek não resistiu ao poder do tempo e o seu nome acabou esquecido pelo Mundo do futebol. Faltou-lhe honra internacional e justiça futebolística divina. Como tudo podia ter sido diferente tivesse sido, o Maracanã, construído como devia.
O PERCURSO RUMO AO RÚSSIA 2018
Oito anos depois a Sérvia está de volta a um campeonato do Mundo, fazendo jus ao enorme talento futebolístico do país, mas que nem sempre é explanado em campo. A Sérvia assegurou a chegada ao Mundial vencendo o Grupo D da fase de qualificação com seis vitórias, três empates e uma derrotas nos dez jogos realizados. Um percurso que deixou a República da Irlanda na segunda posição e tirou da competição russa, por exemplo, o País de Gales e a Áustria. Esta última, em Viena, na oitava jornada da fase de qualficação, conseguiu a proeza de ser a única equipa a vencer a Sérvia durante a competição.
JOGADOR A SEGUIR: Sergej Milinković-Savić
Por esta altura não há como fugir. Sergej Milinković-Savić, médio de 23 anos da Lazio, é a grande figura mediática da seleção sérvia, curiosamente, numa altura em que conta apenas quatro internacionalizações pela equipa dos balcãs. Milinković-Savić partiu para a Rússia sob forte cobiça e nada como ver os jogos da Sérvia para perceber o porquê de clubes como o Real Madrid ou o Manchester United estarem tão interessados na contratação do versátil e completo médio laziale. Milinković-Savić, que até nasceu em Lleida, Espanha, chega à Rússia na sequência de 14 golos e 9 assistências realizadas em 48 partidas esta temporada.
OS CONVOCADOS
Guarda Redes: Vladimir Stojković (Partizan), Predrag Rajković (Maccabi Telavive) e Marko Dmitrović (SD Eibar);
Defesas: Antonio Rukavina (Villarreal CF), Duško Tošić (Guangzhou R&F), Uroš Spajić (FC Krasnodar), Branislav Ivanović (Zenit São Petersburgo), Aleksandar Kolarov (AS Roma), Miloš Veljković (Werder Bremen), Milan Rodić (Estrela Vermelha) e Nikola Milenković (Fiorentina);
Médios: Luka Milivojević (Crystal Palace), Andrija Živković (Benfica), Dušan Tadić (Southampton FC), Marko Grujić (Liverpool FC), Filip Kostić (Hamburger SV), Nemanja Radonjić (Estrela Vermelha), Sergej Milinković-Savić (Lazio), Nemanja Matić (Manchester United) e Adem Ljajić (Torino FC);
Avançados: Aleksandar Prijović (PAOK), Aleksandar Mitrović (Newcastle United) e Luka Jović (Eintracht Frankfurt)
ONZE PROVÁVEL

TREINADOR: Mladen Krstajić
GUIA BANCADA: O MUNDIAL EM HISTÓRIAS
Grupo A
Rússia: O dia em que Rússia boicotou e “roubou” a Ucrânia para jogar o Mundial
Arábia Saudita: A lenda do “Pelé do Deserto”, o terror de Setúbal
Egito: O futebol nascido de uma tragédia
Uruguai: Uruguai quer fazer um Maracanazo. Ou um MaracanazovGrupo B
Portugal: Portugal, toca a jogar pelo chão que, de “Saltillos”, já foi suficiente
Espanha: O dia em que o General Franco teve medo dos russos e tirou um título à Espanha
Marrocos: “África minha” de Hervé Renard tem novo capítulo em Marrocos
Irão: Carlos Queiroz e o Irão: uma relação de amor e ódioGrupo C
França: Didier Deschamps, o capitão da saga de 1998 em busca da redenção como treinador
Austrália: Um continente pequeno demais para uma seleção
Perú: O amor que os brasileiros ganharam ao Peru e a Cubillas, com a Argentina no meio
Dinamarca: Elkjaer fumava e bebia, mas corria que se fartavaGrupo D
Argentina: O dia em que Deus deu a mão para Maradona ficar na história do futebol
Islândia: Islândia e a aritmética que permite escolher os 23 convocados
Croácia: Quando Boban e Suker viraram heróis de uma nação
Nigéria: Yekini, um lugar na história da Nigéria e no coração dos portuguesesGrupo E
Brasil: Marinho Peres: capitão, desertor e um sonho que virou pesadelo em Barcelona
Suíça: Uma reunião de lendas, duas batalhas épicas e um capitão a jogar com um tumor
Sérvia: Um goleador esquecido pelo tempo, ídolo de Puskas e um jogo que tudo mudou