Bothroyd é um caso raro de futebolistas afetados por esta doença.
Foi preciso esperar pela 15.ª temporada para ver Jay Bothroyd ser grande. Bom, grande já ele era, que mede 1,91 metros. Mas este avançado inglês foi para o Japão, já com 32 anos, marcar golos a granel. Já tinha feito três boas temporadas, no Cardiff, mas a Liga Inglesa nunca quis nada com ele. Ou ele com ela.
Para que fique claro: parece que só agora Bothroyd apareceu no futebol “a sério”, mas este rapagão até já foi internacional inglês. Foram só 18 minutos num particular, mas foi. “As pessoas dizem que foi “maravilha de um só ato”, mas, no fim do dia, não há muitos a poderem dizer que lá foram uma vez. Por isso, fico orgulhoso. Tive azar, porque me lesionei depois dessa primeira chamada. É a vida”, disse, ao “Guardian”.
Tudo isto com a epilepsia a dar-lhe cabo da paciência. Mas já lá vamos.
Nunca levantou uma taça, mas já é melhor do que Lineker
Bothroyd nasceu nos arredores de Londres e, apesar de não ter tido uma carreira de topo mundial, olha para o seu percurso com a visão mais feliz possível: “Quando era uma criança, sonhava jogar na Liga Inglesa, ser internacional pelo meu país e ganhar muito dinheiro. Fiz tudo isto”, explica.
O que lhe falta? Um troféu. Em 18 anos de carreira, Bothroyd nunca levantou uma taça como jogador profissional. Fê-lo uma vez, pela equipa jovem do Arsenal. Nada por aí além. Depois de vários anos de parco sucesso em Inglaterra – QPR, Sheffield Wednesday, Wolves, Stoke, Charlton ou Blackburn nunca viram um grande Bothroyd –, o avançado decidiu ir para a Tailândia e, depois para o Japão. Primeiro no Júbilo Iwata e, agora, no Consadole Sapporo, Bothroyd já é visto como um ídolo. Só lhe falta mesmo um troféu para se tornar figura de culto.
“Gostaria de ser o primeiro inglês a ganhar alguma coisa no Japão. Isso seria uma grande conquista. Sou o britânico com mais golos de sempre na J-League e o Gary Lineker esteve por cá. Já é uma grande conquista”.
Epilepsia que ajuda crianças
Recentemente, Bothroyd colapsou em campo, num treino. Nada de muito grave, mas valeu-lhe algumas manchetes. “Eu tenho epilepsia. Nunca foi muito agressiva, mas tenho. É algo que tenho desde criança e com o qual aprendemos a viver”, começa por dizer, antes de explicaro episódio do treino: “Foi a primeira vez que a epilepsia me influenciou no futebol. Nunca tinha acontecido. O motivo foi que eu me esqueci de tomar a medicação durante uns dias e fui apanhado por isso”.
Apesar de contar que tem de tomar a medicação diariamente, Bothroyd não olha para a epilepsia com má cara. “Não o vejo como doença, mas com uma condição. E aceito-a. Aliás, algumas pessoas, quando souberam desse episódio, escreveram-me a dizer que não imaginavam ser possível uma pessoa com este problema poder ser profissional de futebol. Disseram que vão deixar os filhos epiléticos jogar novamente. Ajudei a influenciar pessoas e isso é uma luz para mim”.
Bothroyd é um caso raro de futebolistas afetados por esta doença. Ao mais alto nível não é conhecido nenhum jogador que tivesse de lidar com este problema como jogador profissional. Existe o caso de Leon Legge, jogador de escalões secundários de Inglaterra. Existem, sobretudo, muitos casos na América, nomeadamente fora do “soccer”. O caso mais famoso é o de Florence Griffith Joyner, velocista norte-americana que é, ainda hoje, recordista dos 100 e 200 metros. A marca dos 100 metros é impressionante e será sempre polémica – alegadamente, estava com vento favorável acima do permitido -, mas o certo é que Flo-Jo é, unanimemente, uma das melhores desportistas femininas de todos os tempos. Faleceu em 1998, com 38 anos, precisamente durante um ataque epilético.