Frente ao Irão, Omar Al-Somah fez o golo mais importante da história do futebol sírio, unindo o que a guerra dividiu
Omar Al-Somah é por esta altura um herói improvável pela Síria. A Síria vive momentos complicados. Há anos embrenhada numa dura e violenta guerra civil, é no futebol que o país asiático procura, e encontra, alguma esperança num futuro mais otimista e positivo. O futebol sírio é também um espelho do ambiente social e político do país mas ao contrário do território geográfico, a seleção de futebol síria é uma equipa unida em prol de um objetivo comum: alcançar uma histórica participação num campeonato do Mundo. Seria a primeira do futebol sírio e Omar Al Somah deixou o sonho mais perto. Dois jogos frente à Austrália e um play-off intercontinental são tudo o que separa a Síria do Rússia 2018.
Teerão, setembro de 2017. Omar Al-Somah fez um golo histórico para o futebol sírio. Talvez, ao dia de hoje, o mais importante da história do futebol sírio. Omar Al-Somah fez o golo do empate da Síria, já em período de compensação, para deixar a sua seleção no terceiro lugar do Grupo A da terceira fase de qualificação asiática para o Mundial 2018 a ser disputado na Rússia. Só um resultado positivo no Irão o permitia e mesmo o empate só seria válido caso o Uzbequistão não fizesse um resultado melhor. Um jogo que assistir, até num café de Istambul, como reportou o Washington Post, era arriscado dado o possível confronto político entre os adeptos. O Irão, afinal, é um dos maiores aliados políticos e armados do governo de Bashar Al-Assad – que dividiu e destruiu a Síria nos últimos anos -, um facto que levantou a possibilidade de um possível arranjo de resultado entre Irão e Síria. No Irão, a Síria arrancou tardiamente um empate a duas bolas um resultado que, minutos depois, colocou os sírios no caminho da Austrália no play-off continental face ao empate a zero do Uzbequistão frente à Coreia do Sul em Tasquente, disputado à mesma hora.
Omar Al-Somah é um exemplo de que, também no futebol, a Síria é um país dividido. Autor do segundo golo sírio em Teerão mas, mais que isso, alegado opositor do regime de Bashar Al-Assad, algo que pode ter estado no exílio do avançado que apesar de ser um dos mais talentosos jogadores do país e ir fazendo uma carreira de registo pela Arábia Saudita, poucas vezes esteve presente nos encontros da seleção Síria desde que se estreou pela mesma em 2012. Em campo, frente ao Irão, esteve também Firas Al-Khatib, frequentemente considerado o melhor jogador da história do futebol sírio. Se as afiliações políticas de Al-Somah são alegadas, as de Al-Khatib são bem assumidas e tal como Al-Somah, apesar do inegável talento do futebolista, também Al-Khatib esteve fora da seleção Síria praticamente desde 2012 altura em que se auto excluiu declarando não voltar a jogar pela Síria enquanto existirem bombardeamentos e guerra armada no país. A oportunidade vista pelo governo sírio no futebol, porém, permitiu que a federação de futebol do país pudesse convocar dissidentes do mesmo fazendo regressar à equipa Al-Somah e Al-Khatib, tão importantes para o sucesso do futebol do país. A seleção síria espelha a atual situação sócio-política do país. A Al-Somah e a Al-Khatib, críticos e opositores do governo de Al-Assad, somam-se jogadores que, tanto apoiam o governo sírio, como nunca ousaram tomar uma posição sobre o assunto. Conformando-se apenas.
Na Síria o futebol uniu, e vai unindo, o que a guerra dividiu. Uma guerra que obrigou a equipa síria a disputar os seus encontros de qualificação para o Rússia 2018 quer em Omã, quer na Malásia. Uma situação que não impediu a equipa de terminar na terceira posição do Grupo A da terceira fase de qualificação da zona asiática para o Rússia 2018. No Irão, a Síria arrancou um empate frente ao líder invicto do grupo, terminando a fase de grupos com três vitórias, quatro empates e três derrotas, um registo que coloca agora a Síria frente a frente com o terceiro classificado do Grupo B para um play-off continental. O adversário é de peso, a Austrália, e ultrapassar o conjunto que até habita na Oceania, colocaria a Síria no play-off intercontinental frente ao quarto classificado da zona CONCACAF da qualificação para o Mundial 2018.
Chegar ao Rússia 2018 é ainda um longo caminho a ser percorrido para a Síria mas o trabalho realizado pela equipa que, muitos, ainda consideram como a “equipa do regime” e não a verdadeira representação do povo sírio, não pode ser ignorado. Uma equipa dividida politicamente, oriunda de um país tão instável e que se vê obrigada a disputar os seus encontros longe de casa. A Síria ficou a um golo marcado/sofrido, a uma vitória, de alcançar um feito ainda mais significativo. Uma vitória teria colocado o país asiático diretamente no Rússia 2018. Os sírios, porém, já mostraram prosperidade futebolística quando absorvidos em total adversidade e durante a fase de qualificação foram vários os jogos recuperados pelos sírios nos últimos instantes da partida. Vencer a Austrália e o play-off intercontinental, serão apenas mais duas adversidades que a Síria já se habituou a ultrapassar.
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