Grande Futebol
Ozil, um caso que está a dividir a Alemanha e meio mundo
2018-07-27 21:05:00
Criticado por muitos, como Uli Hoeness, o jogador é defendido por outros, como o presidente da Turquia

"Quando ganho sou alemão, quando perco sou imigrante turco." A renúncia de Mezut Ozil à seleção e a argumentação sustentada no racismo a que o internacional germânico de origem turca recorreu está a dividir meio mundo. Os partidos de direita, como o AfD, dizem que é um exemplo de "integração falhada", a Turquia aplaude e o presidente da Federação alemã, Reinhard Grindel, admitiu que errou na condução do processo. Ozil era tido por muitos como o "símbolo da seleção multicultural da Alemanha" e a sua saída é vista agora como "perturbadora".

O centro-campista não esteve com meias palavras e acusou o presidente da Federação de futebol alemã e muitos adeptos de racismo. "Nasci e estudei na Alemanha”, referiu, questionando: “Porque é que as pessoas não podem aceitar que sou alemão?”  Reinhard Grindel refuta as acusações de racismo, mas não deixa de lamentar a atuação no caso, que começou há cerca de dois meses, quando Ozil e Gudogan, alemães de origem turca a jogarem em Inglaterra, tiraram fotografias, em plena campanha eleitoral, com o presidente da Turquia, Recep Erdogan, que tem levado a cabo detenções (muitas de jornalistas), e detido também vários cidadãos alemães ou germano-turcos de visita ao país desde a tentativa falhada de golpe, em 2016, levando a um aumento de tensão entre a Alemanha e a Turquia. "Devo dizer claramente como pessoa e como líder da Federação que, obviamente, toda a forma de ataque racista é inaceitável e não deve ser tolerada", referiu, sublinhando: "Isso foi válido para Jerome Boateng (que já foi alvo de racismo) e é válido para Özil e todos os outros jogadores da seleção que têm origem migratória."

O líder do organismo federativo não gostou da divulgação da fotografia. "Temos os nossos valores. Por isso questionámos criticamente a foto com o presidente Erdogan. Lamentamos que isso tenha sido usado para ataques racistas." Após a divulgação da fotografia com Erdogan, Özil e Güdogan foram recebidos pelo presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, que na altura efetuou um comunicado conjunto. O caso podia terminado, mas tal não aconteceu e o jogador acabou por ser uma espéce de bode expiatório da precoce e escandalosa eliminação da Alemanha no Mundial, depois da derrota sofrida diante da Coreia do Sul.

Özil reclamou que a DFB não o defendeu dos ataques sofridos e entendeu que por conta disso acabou sendo colocado como principal vilão pela eliminação na primeira fase do Mundial. "Olhando para trás, como presidente, eu deveria ter dito inequivocamente o que é natural para mim como pessoa e para todos nós como uma federação: qualquer forma de hostilidade racista é insuportável, inaceitável e intolerável", sublinhou esta quinta-feira Grindel, deixando uma mensagem para o futuro, em jeito de promessa. "Em primeiro lugar, temos de analisar o debate em curso sobre a integração. Em segundo lugar, como consequência da dececionante história no Mundial, deve haver uma sólida análise fisico-atlética, para reencontrarmos o bom futebol e, em terceiro lugar, todos nós temos o grande objetivo comum de ganhar a corrida para a realização do Campeonato da Europa de 2024. Trabalharemos juntos nas próximas semanas e meses com grande comprometimento na resolução destes projetos."

O presidente da Turquia também tomou posição relativamente ao caso, apoiando a saída de Ozil da seleção alemã. "A Alemanha não consegue digerir o facto de ele ter posado numa foto comigo", disse Erdogan para a CNN da Turquia. "Apoio as declarações de Mesut Ozil. Não é possível aceitar esses tipos de atitudes racistas somente por conta da religião, ainda mais de um jovem que derramou tanto suor para o êxito da equipa nacional da Alemanha", frisou.

A atitude de Ozil gerou o mais variado tipo de reações e Uli Hoeness, presidente do Bayern, não poupou o médio do Arsenal. "Há anos que não joga uma m... Ganhou o seu último duelo individual antes do Mundial de 2014", afirmou Hoeness, em declarações ao jornal "Bild", recorrendo a um discurso demolidor. "Só faz passes cruzados e esconde o seu rendimento penoso por detrás da polémica gerada pela foto com Erdogan. Sempre que jogávamos contra o Arsenal procurávamos o Ozil, porque é o ponto fraco deles. Só brilha quando joga com São Marino."

"Ozil tem 35 milhões de seguidores que não existem no mundo real. Ele pensa que é um fora de série quando acerta um passe cruzado", acrescentou o presidente do Bayern.

Tags: