Grande Futebol
Os Iaquinta: uma família de campeões do Mundo e de mafiosos
2018-05-25 16:00:00
Vincenzo Iaquinta e o pai Giuseppe enfrentam acusações de associação criminosa com a Ndràngheta.

Vincenzo Iaquinta. 38 anos. Campeão italiano. Campeão do Mundo. Membro da Ndràngheta, organização mafiosa da zona da Calábria, sul de Itália. Assim acredita o ministério público italiano que, ontem, pediu que o antigo avançado italiano, que passou por clubes como o Calcio Pádova, o ASD Castel di Sangro e, claro, Udinese e Juventus, onde se notabilizou, fosse condenado a seis anos de prisão por envolvimento com a Ndràngheta. Em causa, na base da acusação, está a alegada intermediação feita por Iaquinta na venda de duas armas à organização mafiosa. Mas não é o único na família Iaquinta. Não. Esta é a história de uma família de campeões de Mundo e de mafiosos.

Itália nunca viu um julgamento destes. Ao todo, são 147 os réus de um processo que envolve uma das organizações mafiosas mais conhecidas do país. A Ndràngheta, com sede na Calabria, sul de Itália, mas com fortes ligações ao resto do país. É, aliás, em Bolonha, que Vincenzo Iaquinta está a ser julgado. Nunca o Norte de Itália viu um julgamento tão grande relativo ao envolvimento de vários italianos à Ndràngheta. Um deles é Vincenzo Iaquinta, antigo avançado italiano que venceu o título nacional pela Juventus em 2013, vários anos depois de ter levantado a taça de Campeão do Mundo, em 2006, na Alemanha, ainda como jogador da Udinese.

Ao todo, foram mais de 400 jogos como profissional de futebol, incluindo 40 presenças pela seleção nacional italiana, presenças coroadas com seis golos. Um deles, no Mundial de 2006, quando a Itália bateu o Gana por 2-0 e Iaquinta selou o resultado final. Hoje, vive um momento bem diferente na sua vida ao ver a procuradoria geral de Reggio Emilia pedir seis anos de prisão para si e dezanove para o seu pai. Em causa está o envolvimento de ambos com a Ndràngheta, no caso de Vincenzo, a intermediação na venda de duas armas. No caso do pai, por pertencer, efetivamente, à organização.

Os problemas de Vincenzo Iaquinta com a justiça já não é de agora. Em 2015, por ocasião de investigações da direção anti-mafia de Emília-Romanha, foram encontradas armas ilegais na casa de Vincenzo Iaquinta, em Quattro Castella, bem como na casa do pai de Vincenzo. Inicialmente indiciados por posse ilegal de armas, rapidamente as acusações derivaram para associação com a Ndràngheta, bem como para a intermediação para a venda ilegal de armas, com a agravante de tal estar associado a organizações mafiosas.

Original de Crotone, há muito que Vincenzo Iaquinta se estabeleceu na região de Reggio Emília. Iaquinta nunca foi sujeito a medidas preventivas, mas pode agora ser preso por seis anos com a chegada ao fim das investigações feitas pelo MP da região. 160 pessoas foram já presas num julgamento que teve inicio em janeiro de 2015, investigação alargada às zonas de Emilia-Romagna, Lombardia, Piemonte, Veneto, Calabria, protagonizadas pelos procuradores de Bolonha, Catanzaro e Brescia. A investigação descobriu a presença de vários setores da economia e da política da região de Emilia na Ndràngheta e esta semana foi o ministério público de Bolonha que pediu a acusação a 151 individuos, entre os quais, Vincenzo Iaquinta e o pai.

Iaquinta foi então apanhado na posse duas duas armas de forma ilegal. Um revólver .357 Magnum da Smith & Wesson, bem como uma pistola Kelt-tec 7.65 Brownin. Não esquecendo os 126 projéteis, claro. Apesar de Iaquinta sempre ter declarado a posse das armas, as mesmas acabaram encontradas noutra localização. Segundo a investigação, Iaquinta terá dado as armas ao pai Giuseppe que, em 2012, havia sido proibido de deter armas devido à sua proximidade a pessoas que eram acusadas de estar associadas à Ndràngheta. O caso seguiu então para tribunal.

A 17 de maio de 2017, Iaquinta foi então ouvido pelo tribunal, sessão que durou quase três horas e durante a qual o antigo campeão do Mundo admitiu ter comprado as duas armas para segurança pessoal, mas também para divertimento. “Sou uma pessoa famosa. Comprei as armas, acima de tudo, para proteger o meu futuro quando terminasse a carreira. Gosto de ir para o campo de tiro quando chego a casa”, afirmou o antigo avançado segundo a imprensa italiana. Segundo a investigação, Iaquinta terá então dado as armas ao pai quando deixou a Udinese e seguiu para Turim, algo que Vincenzo tinha de ter assinalado às autoridades e não o fez. Segundo Iaquinta, o pai terá então tirado as armas do cofre obrigatório e colocado as mesmas num esconderijo debaixo do telhado, acabando as armas esquecidas pela família Iaquinta.

A ligação da Ndràngheta à região de Cutro não é de agora, algo que dá força ao envolvimento do pai de Iaquinta à organização mafiosa. A parte paternal da família Iaquinta é originária de Cutro, cidade da província de Cutro onde a colonização de Quattro Castella, por parte da Ndràngheta, começou e tem, ainda hoje, uma presença bastante forte. Tudo começou em 1982 quando o padrinho da mafia de Cutro, Antonio Dragone, foi enviado para a pequena cidade de Reggio Emília para exílio. Em Quattro Castella, Dragone e outros 30 indivíduos iniciaram uma organização mafiosa que acabou por dominar toda a região de Emília Romanha, entre os quais, estaria Giuseppe Iaquinta e, por isso, o pai de Vincenzo enfrenta agora uma possível pena de prisão de 19 anos.

Segundo a Gazzetta Dello Sport, o envolvimento de Vincenzo Iaquinta com a Ndràngheta terá então começado numa fase terminal da carreira, com o jornal italiano a avançar que o antigo internacional está também acusado de falsificação de documentos, usura, extorsão, fraude fiscal e associação criminosa com a Máfia. Eis os Iaquinta. Uma família de campeões do Mundo e de mafiosos.