Técnico irlandês criou o mágico Leeds “europeu” na viragem do século, mas, aos 59 anos, está sem treinar há mais de seis
Na viragem do século houve uma equipa que encantou o futebol inglês, tornando-se num dos maiores casos de “underdogs” que quase surpreenderam a Europa do futebol. O Leeds United apresentava uma equipa jovem e recheada de craques, com David O’Leary a assumir-se como o homem do leme. O jovem técnico irlandês afirmou-se logo na primeira experiência que teve como treinador e tornou-se num dos mais cotados em Inglaterra. Foi muitas vezes apontado como o futuro sucessor de Alex Ferguson no Manchester United, mas a verdade é que nunca confirmou o potencial que lhe previam.
O’Leary experienciou aquilo que terá sido uma espécie de maldição inversa àquela que o mítico Brian Clough teve no Leeds – história retratada no filme “Damned United”. Clough falhou na passagem pelo clube, também muito novo, lançando-se depois para a ribalta, numa verdadeira “Cinderella Story” ao serviço do Nottingham Forest. Já David O’Leary viveu o reverso da medalha. Fora de Leeds acabou por desaparecer do mapa, vivendo agora um período de “ostracização”. Isto após ter chegado às meias-finais da Liga dos Campeões em 2000/01, numa equipa onde pontificavam jovens estrelas como Ian Harte, Rio Ferdinand, Harry Kewell, Alan Smith ou Robbie Keane.
Foram quatro temporadas de David O’Leary ao serviço do clube. Depois de uma carreira quase lendária como defesa do Arsenal, o internacional irlandês ainda jogou as duas últimas épocas da carreira no Leeds United. Terminou em 1995 e em 1998/99 assumiu o comando técnico da equipa. Nunca chegou a vencer títulos, mas tornou o Leeds numa das equipas mais fortes de Inglaterra e sempre com uma palavra a dizer nas contas do título, que havia vencido pela última vez em 1991/92, na temporada que antecedeu a criação da Premier League.
Em 1998/99, no ano de estreia, O’Leary conduziu o Leeds ao quarto posto da Liga inglesa, melhorando o quinto posto que havia conseguido o escocês George Graham na época anterior. Nessa altura estava por Leeds o português Bruno Ribeiro, que viveu de perto o “apogeu” europeu do Leeds. Na época seguinte, O’Leary conduziu a equipa ao terceiro posto da Premier League e só foi travado pelo Galatasaray nas meias-finais da Taça UEFA – os turcos acabariam por vencer a prova, depois de bater o Arsenal na final.
Em 2000/01 foi o grande ano da afirmação do Leeds. Na Liga terminaram no quarto posto, mas na Champions surpreenderam (quase) tudo e (quase) todos. Na primeira fase de grupos ajudaram logo a eliminar o FC Barcelona e na segunda fizeram tombar a Lazio, que na altura era campeã italiana em título. Nos quartos-de-final eliminaram o Deportivo Corunha e só caíram nas meias-finais perante o (ainda mais) super Valência CF, de Cúper, que perderia a final para o Bayern Munique. Uma campanha que fez com que, por exemplo, o Manchester United pagasse mais de 45 milhões de euros por uma das estrelas da equipa: o central Rio Ferdinand.
A saída e a queda. De ambos.
Mas em 2001/02 o Leeds ficou-se apenas pelo quinto posto e no final da época O’Leary acabou por partir. Uma história com alguma polémica à mistura, depois de um comunicado que falava em saída por “mútuo acordo”, mas com o técnico a desmentir mais tarde essa versão, dizendo que tinha sido despedido. Por trás da decisão terão estado também várias situações de discordância entre técnico e direção. A começar pela venda de Rio Ferdinand. O “clima” não era o melhor e David O’Leary acabou por mudar de rumo.
O’Leary esteve um ano parado, até que em 2003/04 apareceu a oportunidade de orientar o Aston Villa. A experiência começou bem, levando a equipa até ao quinto posto, depois de na época anterior ter sido 16.ª classificada. Curiosamente, foi nessa época de 2003/04 que o Leeds acabou relegado para o Championship, de onde nunca mais voltou. Tudo parecia encaminhado para o “renascer” de O’Leary, mas tudo descambou na terceira e última época em Birmingham. Após um décimo lugar em 2004/05, terminou apenas no 16.º posto em 2005/06. A saída consumou-se já em plena pré-temporada, no verão de 2006.
Seguiu-se mais uma travessia do deserto. Apenas em 2009/10 voltou a ser falado o nome de David O’Leary. Com o Newcastle no Championship, o irlandês chegou a ser opção para os “magpies”, mas a troca na direção do clube acabou por fazer com que Chris Hughton assumisse o cargo. Sem oportunidades que lhe agradassem, O’Leary acabou por optar pelo estrangeiro e em 2010/11 assumiu o comando do Al Ahli, dos Emirados Árabes Unidos. A experiência durou oito meses e cerca de 15 jogos. O’Leary saiu em conflito com o clube e em 2013 viu o tribunal dar-lhe razão, com o Al Ahli a ter de pagar uma indemnização superior a três milhões de libras pelo despedimento. Desde então, David O’Leary está sem treinar.
No ano passado O’Leary voltou a surgir na imprensa britânica, concedendo uma entrevista onde admitia o arrependimento em algumas decisões tomadas na carreira e dizendo-se disponível para regressar ao ativo caso surgisse “o cargo certo”. “Não tenho qualquer agente ou pessoas a fazerem-me ‘boa imprensa’”, apontou O’Leary nessa entrevista ao “The Telegraph”. “Se gostaria de voltar caso surgisse a proposta certa? Claro que sim. Nunca fui perdido de amores pelo futebol. Tenho orgulho pelo trajeto que tive, vivemos dias fantásticos no Leeds, jogando nos melhores estádio da Europa”, recordou.
“No Aston Villa sei que fiz um bom trabalho. Mas as circunstâncias eram diferentes, pois eu era um treinador de estilo europeu no Leeds. No Villa era muito mais ‘manager’. O Doug Ellis [presidente] estava a vender o clube e ele era um homem perspicaz. É como quando estás para vender uma casa, tentas mantê-la apresentável, mas não vai comprar tapetes e janelas novas. Não teria lá ficado três épocas se estivesse a fazer um mau trabalho”, frisou O’Leary.
A verdade é que depois de sete temporadas na Premier League, com cinco classificações no top cinco e seis entre o top dez, o treinador irlandês, que um dia esteve entre a nata europeia, nunca mais voltou a ter oportunidades na Premier League. “As pessoas esquecem-se de ti”, sublinhou O’Leary, numa entrevista concedida no mês passado ao “The Times”. “Tive uma oferta da Premier League há quatro anos. Talvez eu devesse ter aceitado, talvez eu devesse ter ido… mas não me pareceu bem”, lamentou o técnico, que ainda mantém a esperança viva em relação a um regresso.
Os empresários e os casos portugueses
É certo que no futebol português não há casos que se possam comparar ao “apagão” de David O’Leary, sobretudo por estarmos a falar de uma equipa que brilhou a nível europeu. Mas também existem alguns casos de técnicos com provas dadas em equipas da metade superior da tabela, que acabaram por sair do “mercado” ainda antes dos 60. Quinito, Mário Reis, Carlos Manuel ou António Sousa, que conquista a Taça de Portugal pelo Beira-Mar, são alguns dos nomes que conseguiram resultados na viragem do século, mas que acabaram por cair no “esquecimento”, estando já todos há alguns anos sem trabalhar.
Recuando até essa Taça de 1998/99, os aveirenses bateram na final o Campomaiorense, por 1-0. O histórico clube alentejano era orientado por José Pereira, um técnico que havia assumido o comando da equipa durante as primeiras jornadas do campeonato, naquela que era a primeira experiência enquanto técnico principal, depois de várias como adjunto. João Alves deixou os “galgos”, Pereira assumiu o leme e, não só conseguiu assegurar a permanência, ficando no 13.º lugar, como ainda levou o Campomaiorense ao Jamor pela primeira vez na história. Mas a derrota na final acabou por lhe custar o despedimento.
José Pereira tinha 48 anos na altura e revela alguma “mágoa” pelo sucedido. Nunca mais voltou a treinar desde esse episódio. Atualmente, é o presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol (ANTF). Cargo que abraçou logo após a saída de Campo Maior. “Fiz as eliminatórias quase todas, entrei à sétima ou oitava jornada”, começa por recordar José Pereira ao Bancada. “Houve dois motivos [para não ter treinado mais]. O primeiro, e fundamental, foi o facto de, depois de ter feito a recuperação do Campomaiorense e de ter feito um trabalho que todos reconheceram de bom nível, indo à final da Taça de Portugal, ter sido despedido”, conta-nos.
“Na sequência desse despedimento, era dirigente da ANTF e estavámos a preparar eleições. Houve dois colegas, nomeadamente o Henrique Calisto e o Manuel José, que propuseram a experiência de ter um presidente a tempo inteiro, que não exercesse a função de treinador, ao contrário do que acontecia na altura. Avançou-se, então, pela primeira vez para um presidente profissional. E fui o primeiro presidente profissional da associação. Nessa circunstância o que estava combinado entre nós era que durante o mandato não poderia ter funções em clubes”, resume José Pereira, atualmente com 66 anos.
Sobre outros antigos colegas que “desapareceram” do dia-a-dia do futebol nacional, José Pereira fala de um ponto também mencionado na entrevista de David O’Leary. “Há outros casos de treinadores que desaparecerem porque muitas vezes há influências, os empresários controlam um pouco a situação nos clubes e depois têm, naturalmente, aqueles treinadores a quem estão ligados, dando-lhes prioridade em relação a essas pessoas”, explica-nos.
“Ultimamente apareceram muitos treinadores novos, são fases em que procuram alterar um pouco e procuram outros nomes que ainda não tenham estado no mercado. Há que dizer que, por vezes, vão à procura destes nomes menos sonantes porque também são mais baratos. Estão a lançar a carreira, não têm as mesmas exigências dos outros e são mais acessíveis. Isso faz com que, de vez em quando, apareçam esses treinadores mais novos. E para aparecerem uns, têm de desaparecer outros”, sublinha José Pereira.
Mas terá sentido alguma vez a necessidade de regressar aos bancos? “Tive dois grandes desgostos como treinador. Primeiro foi no Vitória de Guimarães, onde era treinador de futebol juvenil. Fui preterido porque o Gregório Freixo, na altura, tinha partido uma perna e o presidente Pimenta Machado decidiu substituir-me pelo Gregório Freixo. Ele não podia jogar e assim o clube arranjou uma solução mais barata. Depois aconteceu a situação do Campomaiorense. Após esses desgostos, levei muito a sério o cargo que ocupava e ocupo na ANTF. Ainda experimentei ser diretor desportivo do Vitória de Guimarães [entre março de 2010 e outubro de 2012]. Mas acabei por me vincular mais à associação. Em condições normais, já não me interessaria assumir as funções de treinador”, rematou José Pereira.