Delfim, ex-jogador do OM, exulta com a ida à final da Liga Europa, e com Rolando: “Estou a vê-lo a fazer dupla com Pepe”
O Olympique Marselha está de volta aos grandes palcos das finais europeias, 14 anos depois da última presença quando perdeu a final da então Taça UEFA com o Valência CF por 2-1, em Gotemburgo, na Suécia. É o despertar do OM “que é mais do que um clube, é uma religião”, segundo testemunha Delfim, um dos portugueses que passou pela emblema do sul de França que sofreu na pele o escândalo da corrupção que o atirou para o limbo.
Delfim foi um dos jogadores portugueses que representou o Olympique Marselha, durante cinco anos, de 2001 a 2006, numa linhagem portuguesa que contempla nomes como Rui Barros, Paulo Futre, Filipe Azevedo (estes três foram os pioneiros) e Dimas, para além agora de Rolando, e não tem dúvidas: “É um clube distinto em França. A grande particularidade é o futebol em Marselha ser vivido como uma religião, os adeptos vivem o clube de uma forma muito especial. São adeptos fanáticos para o bem e para o mal”, frisa ao Bancada o antigo médio do Sporting, clube de onde deu o salto para Marselha.
Há um episódio que Delfim nunca mais esquece e ilustra bem o estado de espírito do clube. “Num célebre PSG-Marselha, que é um clássico em França, o jogo que move mais emoções, houve uma recusa por parte do PSG na cedência de bilhetes para os adeptos do Marselha, ao ponto do OM ter feito boicote ao jogo. Apresentou-se com quatro profissionais, e eu era um deles, e o resto eram juniores. Num estádio completamente cheio e a dar em direto no Canal Plus empatámos 0-0. Fomos recebidos em Marselha como se estivessemos ganho a Liga Europa”.
Ultrapassado o último obstáculo na presente edição da Liga Europa, os austríacos do RB Salzburgo, a 16 de maio próximo o Marselha pode tornar-se na primeira equipa francesa a conquistar a Liga Europa, depois de ter sido também a primeira a conquistar a Liga dos Campeões, em 1993, já lá vão 25 anos. Para Delfim, é o coroar de um percurso de estabilidade ultrapassados todos os problemas que o clube viveu, ele que druante a sua passagem pelo Marselha conviveu com Tapie, naquela que foi a segunda passagem pela clube do polémico dirigente. “O Marselha tem hoje uma estabilidade diretiva e desportiva que nos anos em que lá estive não tinha. Eu cheguei ao Marselha, na segund avez em q ue Tapie foi presidente, já depois de ter estado preso. Não tínhamos estabilidade, havia uma forte comercialização de jogadores”, conta, não deixando passar a oportunidade para revelar a sua satisfação pelo pequeno grande contributo de Rolando na ida à final do OM. “Estou muito contente por ele, foi excelente, e oxalá que esteja no Mundial. Vejo-o a fazer uma boa dupla com Pepe no Mundial”.
Este ressurgimento do OM na alta roda do futebol internacional teve, de facto, um toque de midas português. Rolando, que não marcava nas provas europeias desde que o FC Porto ganhou em Sevilha por 2-1, na primeira mão dos 16 avos da Liga Europa de 2011, ano em que os dragões ergueram o troféu, é o principal responsável. Na partida de ontem com o RB Salzburgo, e com a eliminatória a ter de ir para o prolongamento, o jogador português mais bem sucedido na história do Marselha, entrou aos 101′ para render Sanson e marcou aos 116′ num toque subtil com o pé direito na sequência de um canto inexistente apontado por Payet. O defesa central português vai na terceira época consecutiva no clube francês, somando 107 jogos e sete golos. Esta quinta-feira, entrou na história do clube do sul de França ao qualificar no prolongamento a equipa francesa para a final da Liga Europa, que vai realizar-se em solo francês, em Lyon, a 313 quilómetros de Marselha. Na reta final para se saber as escolhas de Fernando Santos para o Mundial na Rússia, Rolando ganhou o direito a sonhar com a chamada.
Para a imprensa francesa desta sexta-feira, mais centrada no feito histórico do Marselha, tratou-se de uma revisitação da história. Tal como Rolando, Basile Boli foi o principal responsável pela conquista inédita por parte do clube francês da Liga dos Campeões, em 1993, após derrotar o então todo poderoso AC Milan de Fabio Capello, com um golo em tudo semelhante ao do defesa central português, já que nasceu também de um canto inexistente. Uma conquista que acabaria por ficar manchada com os acontecimentos que se seguiram, com o escândalo de suborno que atingiu o clube, protagonizado pelo então presidente Bernard Tapie. O OM baixou de divisão, a reputação e orgulho ficaram feridos e o caminho da regeneração foi longo e penoso. O regresso ao futuro de um clube que já chegou a ser , chegou com o toque de midas de um português.
A festa no balneário do Olympique Marselha, após a passagem à final da Liga Europa: