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Grande Futebol

O “pensador do futebol” que promete não ficar por aqui

RedaçãoPor Redação13/06/20178 Mins Leitura
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Bancada falou com Carlos Queiroz, o segundo treinador da história a qualificar seleções para quatro Mundiais

Fez história ao qualificar três seleções diferentes para quatro Campeonatos do Mundo. Descrito ao Bancada como um “pensador do futebol” por um antigo campeão do mundo de sub-20, é um dos treinadores portugueses com mais currículo de sempre. Aos 64 anos, Carlos Queiroz falou com o Bancada e promete não ficar por aqui.

“É um feito muito importante numa equipa que luta contra muitas dificuldades. Há quem tente passar a ideia que esta qualificação foi fácil, mas o que alcançámos foi graças ao nosso trabalho e ao sacrifício destes jogadores. Só há duas palavras para definir o desempenho dos nossos jogadores nesta qualificação: comprometimento e dedicação. Fizeram muitos sacrifícios pela equipa nacional. Estou muito orgulhoso deste grupo e destes jogadores”, revelou Carlos Queiroz, por escrito, ao Bancada, destacando a segunda qualificação consecutiva do Irão para um Mundial.

Com o apuramento para o Mundial 2018 com a seleção iraniana, Carlos Queiroz fez o que nunca ninguém tinha feito. Walter Winterbottom já havia conseguido a qualificação para quatro Mundiais (1950, 1954, 1958 e 1962), mas sempre como técnico da seleção inglesa. Queiroz, por outro lado, levou a África do Sul à Coreia/Japão, em 2002, Portugal à África do Sul, em 2010, e o Irão ao Brasil, em 2014. Agora, confirma-se a ida da seleção do médio oriente à Rússia, no próximo ano, país onde espera encontrar um certo colega sul-americano.

“Creio que é mais um marco numa carreira sempre dedicada ao futebol. Só um treinador na história o conseguiu, [Walter] Winterbottom, sempre com Inglaterra, mas nenhum treinador o alcançou com selecções diferentes. Espero que Óscar Tabarez consiga também a sua quarta classificação com o seu Uruguai”, admitiu o antigo selecionador nacional.

A um nível mais pessoal, o treinador deixou ainda uma mensagem de agradecimento a quem o entendeu fazer, deixando ainda uma promessa: enquanto puder e quiser, vai continuar no mundo do desporto-rei. “Quero agradecer a todos os que me ajudaram a chegar aqui, em especial aos meus jogadores, à minha família, e a todos os que me são próximos. É um grande privilégio poder disfrutar deste momento. A minha vida é o futebol, dou tudo ao futebol, muitas vezes em sacrifício da minha vida e da vida daqueles que me amam, mas enquanto tiver saúde e esta paixão pelo jogo, e pelo treino, creio que vou andar por aqui”, prometeu. 

Futuro da seleção do Irão e expetativa para o Mundial

Sobre o Mundial, Queiroz não tem dúvidas: é uma oportunidade histórica para o futebol iraniano assegurar o seu futuro.

“A partir de agora temos que colocar em marcha a melhor preparação possível para o Mundial. Esperemos que, depois de duas qualificações consecutivas para Mundiais, o Irão não perca uma oportunidade histórica de assegurar o futuro do seu futebol. A paixão está cá, o talento também, esperamos que aqueles que têm responsabilidades possam dar o impulso decisivo”, disse.

Carlos Queiroz deixou ainda algumas críticas aos responsáveis da Federação de Futebol do Irão, desejando melhores condições de trabalho e financeiras para a sua equipa.

“Desde a qualificação para o Mundial de 2014 que ouvimos muitas promessas. Não temos apoio financeiro, não temos um relvado para treinar, portanto, em relação ao futuro, não é altura de perguntar o que esta equipa pode fazer pelo país, isso está à vista, mas antes o que os responsáveis podem fazer por esta equipa”, considerou, em declarações ao Bancada.

Uma vida ligada ao futebol

Decorria o ano de 1953 quando Carlos Queiroz nasceu em Nampula, Moçambique. Foi guarda-redes do Ferroviário de Nampula no final dos anos 60 e início dos anos 70, mas o destino não o queria dentro das quatro linhas. Veio para Portugal depois da revolução de 1974 e licenciou-se em Educação Física e tornou-se mestre em Metodologia do Treino Desportivo pelo Instituto Superior de Educação Física, atual Faculdade de Motrocidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa.

Orientou equipas nos escalões de formação do SL Olivais e do Belenenses, mas a primeira experiência ao mais alto nível do futebol português aconteceu em 1983/84. Nessa temporada, foi adjunto de Mário Wilson no Estoril Praia, mas os resultados não foram os melhores: a equipa da linha, que contava com Fernando Santos, atual selecionador nacional, no plantel, desceu de divisão.

Chegou à Federação Portuguesa de Futebol em 1985, tendo começado como técnico adjunto de seleções jovens. Em 1988 passou a treinador principal nas seleções sub-16 e sub-18 e logo com resultados importantes. Foi à final do Europeu com os sub-16 no ano de estreia, mas a glória chegaria em 1989.

Para além de ter conseguido o título continental em sub-16 que lhe fugira no ano anterior, batendo na final a República Democrática Alemã, conseguiu o primeiro Mundial da história do futebol português. Com os sub-20, conquistou o planeta na Arábia Saudita, levantando o troféu depois da vitória sobre a Nigéria na final. Estava escrita uma página e estava confirmada a existência de uma notável geração, ambas de ouro.

Dois anos volvidos, repetiu a dose. Desta vez em Portugal, e com mais uma equipa recheada de talento, liderou o conjunto que se sagrou bicampeão do mundo. A emotiva final não deixou ninguém indiferente. Perante um Estádio da Luz completamente cheio, Portugal e Brasil tiveram de recorrer à marcação de grandes penalidades e os lusitanos, aí, foram mais fortes. Rui Costa marcou o golo que levantou a bancada – e o país.

Carlos Queiroz fala com a Seleção Nacional sub-20, antes do prolongamento da final do Mundial de 1991, ante o Brasil (Foto: Lusa)

Passou para a equipa principal portuguesa, de 1991 a 1993, mas sem grande sucesso. Depois da seleção nacional, o Sporting, onde esteve três anos e conquistou uma Taça de Portugal e uma Supertaça. Esteve nos Estados Unidos da América, no Japão e nos Emirados Árabes Unidos antes de orientar a seleção da África do Sul, a primeira que levou a um Mundial. Apesar de ter qualificado a equipa, não a liderou na Coreia/Japão, em 2002, por ter saído antes da prova começar. Seguiu para o Manchester United, onde foi adjunto de Alex Ferguson durante vários anos, interrompido por uma temporada como treinador principal do Real Madrid, onde venceu uma Supertaça Espanhola.

Voltou a ser selecionador nacional e levou Portugal ao Mundial de 2010, na África do Sul. Saiu em setembro desse ano e, desde 2011, é selecionador do Irão, onde fez história ao conduzir a equipa a dois Campeonatos do Mundo: em 2014, no Brasil, e em 2018, na Rússia.

O “pensador do futebol”, segundo Rui Bento

O Bancada conversou também com Rui Bento, internacional português entre 1991 e 2001, sobre Carlos Queiroz, um treinador que conhece há praticamente trinta anos. Atual selecionador nacional de sub-16, o antigo jogador de Benfica, Boavista e Sporting não escondeu a satisfação ao falar do mais recente êxito do técnico lusitano.

“Como português, logicamente é um treinador que gosto e com o qual trabalhei, portanto sou um pouco suspeito. É um acontecimento extremamente positivo para a carreira do Carlos e mostra toda a sua competência. Penso que isso fica bem patente. Em seleções diferentes, conseguir o apuramento para quatro mundiais é extremamente positivo e demonstra a capacidade que tem”, começou por dizer ao Bancada.

Rui Bento fez parte da seleção de sub-16 que chegou à final do Europeu em 1988, assim como da equipa campeã do mundo de sub-20 em 1991. Em comum, nestes dois torneios, houve dois fatores: a famosa ‘geração de ouro’ e o treinador Carlos Queiroz. Juntos, formavam uma equipa nível excecional.

“Com o mister Carlos Queiroz, eu e a minha geração – Figo, João Pinto, Peixe e por aí fora – começámos com ele nos sub-16 e estivemos nas finais todas europeias. Fomos campeões do mundo [de sub-20, em 1991]. Era uma pessoa em que nós acreditávamos muito e que nos ajudou. A competência e a qualidade dele foram sempre muito apreciadas por nós”, admitiu Rui Bento, hoje com 45 anos.

Recusando-se a falar da experiência de Carlos Queiroz como selecionador da principal equipa portuguesa, entre 2008 e 2010, Rui Bento revelou o segredo para as caminhadas feitas pelas formações de um técnico que considera ser um “pensador do futebol”. “[O segredo] está na preparação que tem, no saber que tem. Eu acho que é um pensador do futebol. Quem conhece o seu percurso sabe que é um homem que estudou muito futebol e continua a fazê-lo. E quem gosta de futebol nunca pára, a procura do pensamento nunca pára. Aliando à experiência que ele tem, às seleções e aos clubes onde passou… Real Madrid, Manchester United [como adjunto], é um treinador que esteve no top e que está no top”, concluiu ao Bancada.

Carlos Queiroz Irão Mundial 2018 Rui Bento
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