Um golo que tudo mudou. Aos 28 anos, Mario Enrique pode deixar de vender tomates, agora, é profissional de futebol.
Por vezes um golo é tudo o que é preciso para virar uma vida do avesso. Dar-lhe uma volta de 180 graus. Deixá-la de pernas para o ar. Mario Enrique Centurión, Henry para os amigos, que o diga. Se o nome não lhe diz nada, não se preocupe. Dificilmente a alguém dirá. Henry é, porém, o protagonista desta história e de como um modesto futebolista amador, vendedor de tomates profissional, alcançou o topo do futebol paraguaio, tudo culpa de um golo apontado à segunda equipa mais importante do país. E, tudo isto, sendo cego de um olho.
Para Henry Centurión não parecem existir limites por esta altura. Aos 28 anos, por fim, atingiu o topo do futebol paraguaio. Ou assim parece, pelo menos. Afinal, há que contextualizar: para quem até hoje viveu de vender tomates num mercado de Ñemby, cidade paraguaia dos arredores de Assunção, capital Guaraní, chegar à primeira divisão nem que seja para representar o Sol de America é, efetivamente, chegar ao topo do futebol paraguaio. Ainda para mais, um homem que sempre viveu com a deficiência de ver apenas de um olho depois de ter perdido a vista do olho esquerdo ainda na infância, depois de um amigo, num acidente, ter raspado um lápis no olho de Centurión. No hospital, os médicos acabaram por apenas tapar o ferimento e o jovem Henry acabou por perder metade da vista.
Aos 28 anos Mario Enrique Centurión chegou ao futebol profissional, tudo por culpa de um golo apontado ao serviço do seu antigo clube, o Cristóbal Colón, emblema amador da terceira divisão do Paraguai. Bom, um golo e não só, explicou o Sol de América, clube médio do futebol do Paraguai que conta já dois títulos nacionais na sua história, 12 vice campeonatos e que por culpa do quinto lugar alcançado na temporada passada irá ser em 2018 uma das equipas representantes do Paraguai na Copa Sudamericana, segunda grande competição de clubes da América do Sul. Sim, Henry Centurión pode mesmo saltar do mercado de Ñambry para alguns dos palcos mais míticos da América do Sul.
“Mais do que o golo, o que mais nos chamou a atenção foi a entrega que colocou em campo, a dedicação. Tudo o que pedimos aos nossos jogadores é essa mesma entrega. No Sol de America a atitude não é negociável”, explicou o presidente do clube paraguaio após o anuncio da contratação de Mario Enrique. E, mesmo que não fosse pela dedicação, somente o golo podia muito bem ter valido a transferência a Henry. A certa altura do jogo, o antigo avançado e capitão do Cristóbal Colón resolveu fazer um sombrerito a um adversário e, de primeira, do meio da rua, tentar a sorte que acabou um golaço na baliza do Cerro Porteño – clube que até é o do coração -, então, para fazer o 1-1 no marcador. Ao ângulo. Onde a coruja dorme. Um golo candidato ao Puskas – e já petições nesse sentido já -, mas que de pouco valeu ao Cristóbal Colón que acabou por perder por 3-1 com o histórico emblema do Paraguai, jogo em que Henry até meteu outra bola na trave.
Hoje avançado, também futebolisticamente a vida de Mario Enrique Centurión deu uma volta completa desde os tempos em que iniciou a carreira como… guarda redes. Para ajudar a família e conseguir pagar a renda de casa dividiu o futebol com a venda de tomates num mercado dos arredores de Assunção. Com o primo comprava tomates de madrugada, vendendo-os logo pela manhã pois durante o dia tinha treinos e outras atividades que o impossibilitavam de ajudar mais o negócio. Não mais. Henry é agora profissional, tendo assinado por dois anos com o Sol de América num negócio em que o emblema primodivisionário comprou 50% do passe do atacante.
Como o próprio diz: os limites não existem. Nunca é tarde para chegar a profissional, Henry que o diga. O golo? Está aqui.