Ao contrário do Caldas, em Portugal, as surpresas no futebol francês fazem parte da tradição e são bastante habituais
Impressionado com o feito do Caldas SC na Taça de Portugal? Em França aconteceu a dobrar. E não se trata de um ato isolado. Os protagonistas desta história são o Les Herbiers VF e FC Chambly. Ambos os (modestos) clubes ocupam os lugares de despromoção – o Les Herbiers é 15.º classificado e o Chambly 16.º – do National, o terceiro escalão do futebol francês. Mas nem isso os impediu de carimbarem o passaporte para as meias-finais da Taça de França. Ao contrário de Portugal, estas “histórias da Cinderela” fazem parte do ADN do futebol gaulês. Uma pesquisa exaustiva ao passado permite perceber que desde 2000 apenas por uma vez não houve clubes da terceira divisão ou abaixo nos quartos-de-final da competição. E é habitual lá chegarem clubes do quarto ou até do quinto escalão.
Tudo isto tem uma razão cultural por trás, mas também desportiva. A Taça de França é tradicionalmente propícia a surpresas e resultados inesperados, como aquele que o Les Herbiers conseguiu esta época nos oitavos-de-final, ao vencer por 3-0 no terreno do histórico AJ Auxerre, da Ligue 2 (segundo escalão). “Juntamente com um espírito de Taça muito acentuado, em França há muita competitividade nos campeonatos inferiores. Há décalage entre os campeonatos, como é óbvio, mas todos têm jogadores de valor, sobretudo afro-franceses. Há muitos jogadores africanos em França e isso dá uma qualidade e competitividade elevada a esses escalões”, explica-nos Rui Almeida, que no ano passado orientou os franceses do SC Bastia, depois de já ter passado pelo comando do Red Star 93, na Ligue 2.
“É bastante normal uma equipa da Ligue 2 vencer uma da Ligue 1. Acontece muitas vezes. Tal como é normal equipas das divisões amadoras vencerem as do National e da Ligue 2. É muito frequente e marcante. Já vi jogos até ao quinto escalão e há muita competitividade. É uma realidade bem diferente daquela que existe em Portugal”, frisa Rui Almeida ao Bancada. Foi isso mesmo que aconteceu nos quartos-de-final da Taça de França. Primeiro com o Les Herbiers, na terça-feira, após bater o RC Lens, da Ligue 2, no desempate por penáltis. Esta quarta-feira foi a vez do Chambly receber e vencer o primodivisionário RC Estrasburgo por 1-0. Um golo solitário do defesa Lassana Doucouré, que já tinha sido o responsável por colocar a equipa nos quartos-de-final, lançou a festa no pequeno Stade des Marais, com capacidade para apenas 1000 pessoas.
Por sua vez, em Les Herbiers, no oeste francês, houve um pequeno segredo que ajudou ao feito do clube local. No final do jogo, o presidente Michel Landreau – não confundir com o antigo guardião internacional francês, sobre o qual ainda vamos falar aqui – disse estar “extasiado”, pediu que o sorteio lhe traga “um gigante” nas meias-finais e revelou que sempre acreditou no guarda-redes Matthieu Pichot, que classifica como um jogador “de topo”. Mas Pichot teve uma ajuda antes dos penáltis: um vídeo motivacional com imagens do Mundial. “Tinha imagens e música. Não estava a par, mas fiquei agradavelmente surpreendido. Isto é lindo. Até tenho dificuldade em compreender o que alcançámos. Geralmente, acontece aos outros. É de loucos e, a partir de agora, não há limites”, afirmou ao jornal francês “L’Èquipe” o guardião, que foi herói ao defender duas grandes penalidades. A mesma festa teve um sabor amargo em Chambly, uma vez que pouco depois do feito conseguido no relvado o clube recebeu a notícia do falecimento de Walter Luzi, pai do atual treinador e também do atual presidente e fundador do modesto emblema criado em 1989.
Agora, os dois clubes do terceiro escalão esperam pelo fecho da eliminatória e pelo sorteio das meias-finais para saberem o que os separa da grande final e de jogaram no mítico Stade de France. O poderoso Paris Saint-Germain é outro dos clubes já apurados, faltando apenas conhecer o último semifinalista, que sairá do jogo desta quinta-feira entre o SM Caen e o Olympique Lyon. Mas se o sorteio for amigo, o FC Chambly e o Les Herbiers VF até podem discutir diretamente a vaga na final. Contudo, enquanto não conhecem o futuro na Taça vão ter de lutar pela vida no National, um campeonato semiprofissional, mas com muitas equipas profissionais, onde o Les Herbiers chegou pela primeira vez na história em 2015/16 e o Chambly em 2014. Isto porque em caso de despromoção caem nos escalões amadores. É caso para dizer que estão literalmente entre o céu e o inferno.
O Eoitle Fréjus Saint-Raphäel e o susto de Jardim
Basta recuar um ano e temos mais um exemplo desta estranha e pouco habitual tradição de surpresas e “tomba gigantes” na Taça de França. Na temporada passada, por esta altura, o pequeno Eoitle Fréjus Saint-Raphäel, do quarto escalão, era notícia depois de eliminar o Auxerre – clube que parece ter queda para ser surpreendido – nos oitavos-de-final da competição. Além de ser notícia, o modesto clube garantiu ainda que pela quarta temporada consecutiva uma equipa do quarto escalão ou abaixo alcançava uma fase tão adiantada da prova. O sonho do Saint-Raphäel só chegaria ao fim nos quartos-de-final, depois de uma derrota por 1-0 frente ao primodivisionário EA Guingamp.
Neste século apenas em cinco ocasiões não houve clubes amadores nos quartos-de-final, com uma dessas ocasiões a ser a presente temporada. Mas, excluindo 2012/13, em todas as temporadas houve equipas do terceiro escalão ou abaixo nos quartos-de-final da prova. Curiosamente, esta época foi mesmo o Chambly a evitar que uma equipa de escalões amadores cumprisse a tradição. Nos oitavos-de-final recebeu e venceu o US Granville, do quarto escalão, por 1-0, e avançou na prova. O mesmo Granville que em 2015/16, quando estava no quinto escalão, só foi travado nos quartos-de-final pelo Olympique Marselha, depois de perder em casa por… 1-0.
Também no ano passado o FC Chambly já tinha dados nas vistas. Embora sem chegar tão longe como agora, o pequeno clube do norte de França recebeu o AS Mónaco nos 16 avos-de-final e fez sofrer os pupilos de Leonardo Jardim. A equipa monegasca, que no final da temporada se sagraria campeã francesa, só venceu após prolongamento. O Mónaco chegou a estar a vencer por 3-0, mas o Chambly encetou uma recuperação espetacular no segundo tempo, que terminou com o empate aos 90’+3. No prolongamento a equipa de Jardim marcou por duas ocasiões, contra uma dos anfitriões, e seguiu em frente. Nessa mesma eliminatória o Les Herbiers também caiu no prolongamento frente ao Guingamp. Coincidências? O aviso estava dado e a ameaça foi agora consomada.
Alemães, Zvunka e um sem fim de desconhecidos
Numa competição que também recebe anualmente equipas provenientes dos territórios ultramarinos franceses, como Nova Caledónia, Ilha Reunião, Martinica, Guadalupe, Guiana Francesa, Maiote e Taiti, não faltam exemplos de verdadeiras histórias de David contra Golias. Algumas de forma repetida e outras bem peculiares. Em 2011/12, por exemplo, o US Quevily, do terceiro escalão, chegou à final, perdendo apenas por 1-0 frente ao Lyon. A mesma equipa tinha já chegado às meias-finais da prova dois anos antes, quando estava no quarto escalão, sendo eliminada também pela margem mínima, mas pelo PSG. Já em 2002/03 foi um clube de origem alemã – fica na Alsácia e chegou a competir na Alemanha, mas depois da Segunda Guerra Mundial foi incluído nas provas francesas – a chegar aos quartos-de-final. O SC Schiltigheim, do quinto escalão, só foi travado pelo Stade Rennes, por 2-1.
Em 2000/01 não houve equipas do quarto escalão ou abaixo nos quartos-de-final da prova, mas o Amiens SC, na altura na terceira divisão, chegou até à final, desafiando todas as probabilidades e perdendo somente nos penáltis frente ao primodivisionário Estrasburgo. Já em 1998/99 o FC Rouen, do quinto escalão, foi aos quartos-de-final, onde o Nantes era o único representante do primeiro escalão – acabou por ganhar o troféu. Registo ainda para o USJA Carquefou que em 2007/08, quando estava no quinto escalão, chegou aos quartos-de-final. Depois de eliminar os primodivisionários AS Nancy e Olympique Marselha, nos 16 avos-de-final e oitavos-de-final, respetivamente, caiu frente ao histórico PSG, mas apenas por 1-0.
Contudo, apesar desta tendência amadora, o troféu é habitualmente conquistado por equipas da primeira divisão. Registaram-se apenas duas exceções: o triunfo do EA Guingamp, em 2009, pela mão do técnico Victor Zvunka, que passou pela Naval em 2010/11, e o do Le Havre AC, em 1959. Curiosamente, Zvunka já tinha conduzido o secundário LB Châteauroux à final da Taça em 2003/04, perdendo por 1-0 para o PSG, com o golo a ser apontado por Pauleta. Na final da Taça de França já marcaram presença dez clubes da divisão secundária – dois deles repetiram o feito -, três do terceiro escalão e ainda um do… quarto escalão.
A epopeia dos trabalhadores de Calais
Esta história não fica completa sem ser contado o episódio mais fantástico gerado pela Taça de França até aos dias de hoje. Em 2000, o Stade de France, em Saint Denis, Paris, recebeu os amadores do Calais RUFC. Muitos dos jogadores da equipa tiveram mesmo de pedir dispensas aos respetivos patrões para poderem disputar o jogo das suas vidas. Alguns deles tiveram dificuldades em conseguir uma “folga”, mas depois da imensa “pressão social” gerada – a história foi acompanhada diariamente pelos meios de comunicação franceses – lá acabaram por conseguir rumar a Saint Denis.
O emblema da localidade portuária de Calais foi causando enorme sensação ao longo da competição e tinha consigo o apooio de praticamente toda a França. Nas meias-finais eliminou o Girondins Bordéus por 3-1, após prolongamento, e garantiu a presença na final, onde enfrentou o FC Nantes. Chegaram a estar a vencer por 1-0 e assim foram para o intervalo. Mas o clube da Ligue 1 acabou por dar a volta ao marcador, graças a um penálti algo polémico no último minuto do jogo, convertido por Sibierski, que bisou.
No final da partida ficou célebre o gesto de Landreau, guardião e capitão do Nantes, – cá está! – que convidou o capitão contrário a levantar a taça com ele. Os jogadores do Calais tiveram ainda a oportunidade de passear com a Taça pelo relvado do mítico Estádio de França, seguindo-se uma apoteótica receção no regresso a casa, ao melhor estilo de uns dignos vencedores. Mas a história do Calais não terminou aí. Em 2005/06, quando também estavam no quarto escalão, voltaram aos quartos-de-final, onde acabaram por ser eliminados pelo… Nantes.
O resumo da final entre o Calais e o Nantes
A receção à equipa em Calais, após a final
Surpresas nas fases finais da Taça de França neste século:
2017/18
FC Chambly (3.º escalão), meias-finais*
Les Herbiers VF (3.º escalão), meias-finais*
*ainda em prova
2016/2017
Eoitle Fréjus Saint-Raphäel (4.º escalão), quartos-de-final
US Avranches (3.º escalão), quartos-de-final
2015/16
US Granville (5.º escalão), quartos-de-final
2014/15
US Concarneau (4.º escalão), quartos-de-final
US Boulogne (3.º escalão), quartos-de-final
AJ Auxerre (2.º escalão), final
2013/14
AS Moulins (4.º escalão), quartos-de-final
AS Cannes (4.º escalão), quartos-de-final
2012/13
Não houve; o RC Lens (Ligue 2) foi o único não primodivisionário a chegar aos quartos-de-final.
2011/12
US Quevilly (3.º escalão), final
GFC Ajaccio (3.º escalão), meias-finais
2010/11
SO Chambéry (5.º escalão), quartos-de-final
2009/10
US Quevily (4.º escalão), meias-finais
2008/09
Rodez AF (3.º escalão), quartos-de-final
EA Guingamp (2.º escalão), vencedor
2007/08
USJA Carquefou (5.º escalão), quartos-de-final
2006/07
FC Montceau (4.º escalão), meias-finais
Vannes OC (3.º escalão), quartos-de-final
2005/06
Calais RUFC (4.º escalão), quartos-de-final
2004/05
US Boulogne (4.º escalão), quartos-de-final
Nimes Olympique (3.º escalão), meias-finais
CS Sedan (2.º escalão), final
2003/04
ESA Brive (4.º escalão), quartos-de-final
Dijon FCO (3.º escalão), meias-finais
LB Châteauroux (2.º escalão), final
2002/03
SC Schiltigheim (5.º escalão), quartos-de-final
FC Martigues (3.º escalão), quartos-de-final
AS Angoulême (3.º escalão), quartos-de-final
2001/02
FC Libourne-Saint-Seurin (4.º escalão), quartos-de-final
2000/01
Amiens SC (3.º escalão), final
Grenoble Foot 38 (3.º escalão), quartos-de-final
Stade Reims (3.º escalão), quartos-de-final
1999/00
Calais RUFC (4.º escalão), final