É sob o comando de um antigo número dois de Mourinho que o Kilmarnock está a virar o futebol escocês de pernas para o ar
Nunca nos últimos anos o futebol escocês viveu momentos como o atual. No final das contas, a coisa pode até nem ser diferente do habitual, porém, dezasseis jornadas volvidas na primeira divisão escocesa, o líder da Premiership é surpreendente. Sim, o Kilmarnock até pode ter mais um jogo disputado do que o Rangers ou mais dois do que os que o Celtic já realizou e, por isso, estar numa desvantagem quase desleal, mas é preciso entender o contexto da competição para perceber a importância deste facto. Mais improvável era impossível e nem o fantasma de José Mourinho lhe é indiferente. Afinal, por esta altura, o Kilmarnock é liderado por um ex braço direito do técnico português que admite ter em Mourinho a sua grande inspiração e maior influência.
“Não sabia o que esperar quando recebi um telefonema para me encontrar com Mourinho. Tive sérias dúvidas acerca do meu futuro. Quando tens uma reunião com um novo ‘manager’ há duas possibilidades: ou ficas no teu emprego ou ficas desempregado. Eu não fazia ideia se ele me queria a trabalhar consigo ou me iria mandar embora. Felizmente, fiquei. E foram anos memoráveis para mim”, recordou em 2013 por honra de um embate entre o “seu” Chelsea, o Chelsea de José Mourinho e com quem trabalhara entre 2004 e 2008 ao lado do técnico português. Steve Clarke seguiu o seu caminho pouco depois, como adjunto no West Ham e no Liverpool FC, até finalmente dar o passo seguinte em West Brom em 2012/13 onde finalmente olhou Mourinho nos olhos.
Uma grande penalidade de Eden Hazard, bem dentro do período de compensação final, evitou o escândalo em Stamford Bridge. Chelsea e West Brom saíram do encontro empatados a dois, naquele que é ainda hoje um dos resultados mais importantes da carreira de Steve Clarke como treinador. Não tanto pelo desfecho, mas pelo que quase produziu e, acima de tudo, pela ligação do técnico escocês ao clube. É que ainda antes de ter assistido Mourinho durante vários meses, Steve Clarke passou mais de uma década em Stamford Bridge enquanto jogador. Entre 1987 e 1998, o antigo defensor internacional escocês fez mais 300 jogos pelos Blues.
Hoje, Steve Clarke vai tentando escrever história pela Escócia. Quando em outubro de 2017 orientou o primeiro encontro enquanto treinador do Kilmarnock, Steve Clarke colocou um ponto final a um distanciamento de décadas. Pela primeira vez em 30 anos, Steve Clarke voltava a estar envolvido num jogo do campeonato escocês, já que era ainda um jovem quando abandonou o St. Mirren, em 1987, e rumou a sul com destino a Londres de onde raramente saiu nas décadas seguintes. Na Escócia procura reabilitar a carreira e mais do que não desiludir, está verdadeiramente a deixar marca e legado. Primeiro revolucionou o Kilmarnock, agora, está a virar o futebol escocês de pernas para o ar. Sempre com a marca e a influência de José Mourinho, o seu mestre.
“O maior elogio que posso dar a Mourinho é dizer que no tempo em que trabalhamos juntos eu mudei completamente. Aprendi mais com ele do que com todos os outros treinadores com quem trabalhei antes. José Mourinho põe bola em todos os exercícios e os jogadores adoram isso. ‘Intensidade’ é a palavra chave para o seu trabalho. Ele faz os jogadores perceberem que todos os treinos são importantes, que cada um dos exercícios é importante. Ele trouxe intensidade a todo o clube. Para ele, o treino tem de ser sério e totalmente profissional. É muito exigente, mas está sempre lá para ajudar a resolver qualquer problema”.
Depois de um despedimento do West Brom então visto como uma injustiça por grande parte da imprensa e analistas ingleses – surgido poucas semanas após Clarke ter liderado o clube à melhor prestação do mesmo na Premier League em décadas – e uma passagem falhada por Reading – onde a instabilidade a nível diretivo certamente não ajudou – antes de voltar a assumir o lugar de número dois no Aston Villa, é agora em Kilmarnock que Steve Clarke procura reabilitar a carreira, aos 55 anos. Cada vez mais longe vão os tempos em que Steve Clarke era considerado como um dos treinadores britânicos da nova vaga mais promissores, mas é também em Kilmarnock que vai justificando o porquê desta afirmação. Depois de ter pegado num Killie enterrado na classificação da Premiership escocesa (o Kilmarnock era último no final da 11ª jornada de 2017/18), a evolução do clube sob o comando técnico de Clarke é, no mínimo, impresionante.
Com apenas duas derrotas nos vinte e três jogos orientados por Steve Clarke na temporada passada antes da quebra do campeonato em duas metades, o antigo braço direito de José Mourinho não só tirou o Killie do último lugar da Premiership escocesa e de uma cada vez mais séria luta pela manutenção, como levou o clube para junto do topo da classificação. Em Maio, por ocasião do final da temporada “regular”, já o Kilmarnock estava há muito safo da queda ao Championship. Na verdade, depois de pegar no Kilmarnock em último lugar na liga escocesa, Steve Clarke orientou o clube ao quinto lugar e a um final de temporada avassalador. Uma derrota em Aberdeen à 24ª jornada precipitou uma série de sete vitórias e dois empates nos últimos nove encontros da fase regular da prova antes do play-off de apuramento de campeão/despromoção, com o Kilmarnock a terminar mesmo a etapa regular com quatro vitórias consecutivas.
No play-off, já em fase de descompressão, e colocado frente a frente com os principais clubes escoceses, o Kilmarnock pode não ter supreendido, mas já pouco lhe podia ser apontado. A surpresa era estar ali. Nos cinco jogos que concluíram a temporada, pelo menos, arrancou um empate ao Celtic e agora na primeira temporada completa ao comando do Killie, não perdeu gás. Dezasseis jogos volvidos, o Kilmarnock é líder da Premiership e soma apenas três derrotas contra clubes tradicionalmente maiores do que o Killie: Hibs, Hearts e Aberdeen, tendo já vencido o Celtic em Kilmarnock e arrancado um empate a um golo, no Ibrox, ao Rangers.
Se a memória praticamente não atinge a última vez que o Kilmarnock se estabeleceu como um clube de presença habitual na primeira metade da tabela do futebol escocês, muito menos se lembra da última vez que o Killie terminou uma jornada da competição na liderança da mesma. Nem uma vez na última década tal aconteceu, o que não surpreende se lhe dissermos que faz praticamente dez anos a última vez que o Kilmarnock pagou por um jogador para o contratar, com os planteis do clube da primeira liga escocesa a terem sido construídos consecutivamente sob fortes restrições financeiras, quer em jogadores livres, quer em emprestados. Em jeito de comparação, só este ano, o Celtic gastou vários milhões de Euros num… sistema de iluminação de última geração para o seu estádio. Concorrência desleal falar-se em liderança com jogos a mais? Isto sim, é concorrência desleal.
A resiliência do Kilmarnock é o seu grande segredo. Uma equipa que nunca se dá por vencida e que faz do espírito escocês a sua principal força. Uma equipa que, de certa forma, personifica o estereótipo escocês. Certo, é que nenhuma equipa conquista tantos pontos após posições de desvantagem como o Kilmarnock. Só esta temporada, a equipa de Steve Clarke arrancou pontos em nove jogos em que esteve a perder, acabando por vencer quatro deles, empatado três e apenas perdendo os tais três encontros já referidos. Ao todo, o Kilmarnock conquistou 14 pontos após ter estado a perder na Premiership, mais nove do que o segundo classificado nestas contas, o Aberdeen. Algo que já tinha sido facto na temporada passada após a chegada de Steve Clarke ao clube e que ajudou a que o antigo braço direito de Mourinho vencesse o prémio de treinador do ano para a imprensa escocesa.
Não é só na resiliência que o Kilmarnock se excede e muito menos a equipa de Steve Clarke se limita a ser um conjunto organizado e dificil de bater. Se é certo que o Kilmarnock é a segunda melhor defesa da competição apenas superada pelo Celtic (e aqui a situação surge reforçada por ter mais dois jogos que o campeão escocês e do que o Aberdeen e mais um do que o Rangers) e em igualdade com o Livingston, também é verdade que só Rangers, Celtic e Hibs marcaram mais golos do que o Kilmarnock na Premiership esta temporada. Muito por culpa de Eamonn Brophy, avançado escocês de 22 anos, que leva seis golos apontados na competição e apenas é superado nesse registo por Alfredo Morelos (Rangers), Edouard (Celtic) e Steven Naismith (Hearts), mas também culpa de Greg Stewart um dos jogadores da Premiership que maior participação em golos tem tido na competição juntando cinco assistências aos cinco golos já apontados. Só Morelos, Tavernier e Naismith estiveram envolvidos de forma direta em mais golos do que Stewart e só em três jogos esta temporada o Kilmarnock não conseguiu marcar qualquer golo.
O sucesso do Kilmarnock desde a chegada de Steve Clarke ao clube – que curiosamente é o clube do coração do antigo número dois de Mourinho – não tem passado despercebido e o técnico escocês é agora visto como o principal candidato à sucessão de Brendan Rodgers assim que o técnico norte-irlandês sair do Celtic Park. Em 2018, ano civil, nenhum outro clube da Premiership conquistou tantos pontos quanto o Kilmarnock de Steve Clarke, e nem a saída do jogador mais influente da equipa, o internacional congolês Mulumbu, que se juntou ao Celtic, abrandou o ritmo do clube.
“O clube foi revolucionado de alto a baixo por Steve Clarke. Há um par de anos, se fossemos a uma escola da zona, a maioria dos miúdos não saberia dizer quem eram os jogadores do Kilmarnock. Agora, não só sabem os jogadores habituais do onze inicial, como sabem os seus números. O que o Steve Clarke conseguiu fazer neste tempo tem criado uma atmosfera especial e torna o trabalho de todos mais fácil. É um treinador de uma classe especial que sabe o que faz e todos confiamos no seu trabalho”, confessa um dos dirigentes do clube, Paul di Giacomo, à BBC.
Tudo isto, num clube que não contrata jogadores a não ser a custo zero ou por empréstimo – a última vez que aconteceu foi há uma década -, sob fortes limitações orçamentais – até há pouco tempo só o Motherwell tinha receitas inferiores às do Kilmarnock -, cuja média salarial é inferior a mil libras por semana, que não tem passivo e que até faz lucro anualmente. Um clube modelo que demonstra que, no futebol, o sucesso vai muito além do dinheiro gasto. Desde 1998 que o Kilmarnock não era líder da Premiership, sendo preciso recuar à temporada 1964/65 para ver o Kilmarnock líder numa jornada posterior aos dez primeirs jogos da época. Nesse ano, o Killie foi campeão. Deixem-nos sonhar. Caso aconteça, esqueça o Leicester. Esta será a maior história de superação de sempre no futebol.