Atacante brasileiro retirou-se aos 29 anos, depois de várias experiências falhadas ao redor do Mundo e algumas lesões
Kerlon retirou-se esta sexta-feira dos relvados. Aos 29 anos, o atacante brasileiro, outrora famoso pela finta da foquinha, que lhe valeu a alcunha que ainda hoje o acompanha, decidiu terminar uma carreira que muito prometeu, mas que acabou remetida ao esquecimento em alguns dos lugares mais recônditos do futebol mundial. Muitos viam nele o sucessor de Ronaldinho Gaúcho, mas o futuro reservou-lhe um lugar na memória coletiva apenas pelo célebre lance em que conduzia a bola com a cabeça entre vários adversários.
“Perdi para as lesões”, anunciou Kerlon, em mensagem enviada ao site brasileiro “GloboEsporte”. Talvez até pela ousadia com que enfrentava os adversários desde muito novo, pois era rara a vez em que a foca não acabava tombada no chão. O lance deu voltas ao mundo, mas os defesas contrários é que pareciam não gostar de ser alvos da célebre finta. Entre a primeira vez que mostrou a finta ao Mundo, no campeonato Sul-americano de 2005, ao serviço dos Sub-17 brasileiros, e a atualidade já passaram 12 anos. Foram onze clubes e sete países diferentes por onde passeou a sua fama.
O potencial demonstrado levou-o bem cedo até Itália, onde assinou pelo Inter Milão, em 2008, com apenas 20 anos. Esteve emprestado pelo clube milanês durante quatro temporadas, acabando por não se conseguir impor no futebol europeu. Falhou no Chievo, logo na primeira época, e não fez melhor ao serviço do Ajax na época seguinte, chegando a ser remetido para a equipa B. Depois disso acabou por regressar ao Brasil por empréstimo – representou o Paraná e o modesto Nacional de Patos -, antes de se mudar para o Japão a título definitivo, em 2012.
Foi aí que começou uma carreira de verdadeiro globetrotter, longe do fulgor da juventude, onde tinha despontado ao serviço do Cruzeiro e das seleções jovens brasileiras. Após dois anos no Fujieda MYFC, das divisões secundárias nipónicas, iniciou uma verdadeira aventura, que teve passagens pelos Barbados, por Miami, Malta e, por fim, Eslováquia. Foi na segunda metade da última época que chegou ao Spartak Trnava. Mas realizou apenas quatro jogos como suplente utilizado. Agora, poucos meses depois desse regresso ao futebol europeu, deu por terminada a carreira.
“Foram anos de alegrias e de vitórias. Mesmo tendo jogado muito menos tempo que queria, coleciono ótimos momentos, desde as categorias de base do Cruzeiro à seleção brasileira. Com a minha dedicação e graças ao dom que Deus me deu, fui cedo para o futebol europeu, comprado por uma das maiores equipas italianas, o Inter Milão”, recordou Kerlon na carta de despedida, ele que chegou a tornar públicas algumas das aventuras vividas na altura no balneário “nerazzurro”. Sobretudo as que envolviam Balotelli.
“Ele tinha o hábito de chegar antes de todos aos treinos e mijava em todas as chuteiras dos jogadores. Nunca vi um moleque de 18 anos fazer aquilo, não tinha dó de ninguém, até das ‘cobras’ tipo Júlio César e Maicon. E ninguém ligava, porque ele era muito moleque, até passavam um pouco a mão na cabeça dele. Era bem engraçado ver as brigas dele com o Materazzi, tudo na brincadeira”, revelou em 2016, em entrevista ao site brasileiro ESPN.
O jogador brasileiro lembrou as operações de que foi alvo ao longo da carreira. “O futebol fez-me perceber em certos momentos o lado bom e o lado mau do homem e ensinou-me o caminho certo por onde todos devemos andar. Passei por momentos de muitas tristezas, de muitas lesões e de muitas desconfianças. Mesmo assim lutei, tentei e mesmo passando por seis cirurgias nos ligamentos cruzados anteriores e duas nos ligamentos no tornozelo sempre tentei recuperar e continuar a fazer o que mais gosto, jogar futebol”, frisou.
“Tive a alegria de ter feito uma coisa única no futebol, orientado pelo meu maior companheiro e amigo, o meu pai. Criámos uma jogada inédita e exclusiva, que foi a jogada da ‘foquinha’. Fiz a finta em grandes momentos, tanto na seleção brasileira como enquanto profissional do Cruzeiro e diante de um clássico com o maior rival e o Estádio Mineirão lotado. Mesmo sabendo que sofreria faltas ou até mesmo entradas desleais, mesmo assim arriscava, jogava a bola para cima e corria vários metros com a bola na cabeça sem deixá-la cair. Esse era o meu estilo, um futebol irreverente e com muita alegria”, sublinhou o antigo internacional jovem canarinho.
“Perdi para as lesões. Foram muito além das minhas forças, mas fico feliz por ter tido a oportunidade de viver coisas boas e agradáveis que só o futebol pode proporcionar”, concluiu.
https://playbuffer.com/watch_video.php?v=M91N57188SHX