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Ir a casa no Natal não é para quem quer. É para quem pode

RedaçãoPor Redação12/01/20189 Mins Leitura
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Augusto Inácio e três sul-americanos que jogaram em Portugal falaram com o Bancada

Apesar de ser cada vez mais fácil viajar para o outro lado do mundo, nem todos os jogadores do futebol têm acesso a esse privilégio em época de Natal. Os sul-americanos, por exemplo, estão entre os mais prejudicados quando jogam na Europa, o que pode levar a atrasos no regresso ao trabalho. Um desses exemplos aconteceu recentemente em França, quando Cavani e Pastore chegaram para lá da data estabelecida pelo Paris Saint-Germain depois do Natal e, por isso, ficaram de fora dos jogos com o Stade Rennais e o Amiens SCF. Thiago Silva, depois da partida com estes últimos, já comentou o momento que se vive no seio do clube.

“O clube vai fazer o necessário. (…) O Cavani vai ter de trabalhar muito para voltar a ganhar o seu lugar. (…) A diferença entre o Pastore e o Cavani é que acho que o Pastore disse ao clube que queria sair. O Cavani é um bocado diferente, mas devemos continuar a trabalhar”, disse o capitão dos parisienses aos jornalistas. As declarações de Thiago Silva não caíram bem no balneário e, de acordo com o L’Équipe, há uma divisão entre os jogadores do Paris Saint-Germain. O próprio Pastore, no Instagram, assegurou que nunca falou com Thiago Silva sobre o seu futuro.

A situação que se passa em França não é virgem no futebol. Augusto Inácio, com vasta experiência em Portugal e no estrangeiro, assegurou que a multa aplicada a quem chega atrasado ao regresso aos trabalhos da equipa. “Embora sejam vedetas, não estão imunes aos regulamentos. Aliás, deviam ser exemplos para outros e a multa devia ser muito, muito, muito pesada. E quando digo que devia ser muito pesada não é tirar tostões do bolso, é tirar milhões”, defendeu ao Bancada, continuando.

“Já tive isso [jogadores a chegarem atrasados] no Natal e também já tive no princípio de época, quando também acontece muito. Têm que estar, por exemplo, no dia 18 e aparecem no dia 20, 21, 22. E a desculpa é sempre a mesma: é porque os voos estavam cheios, é porque houve um problema de última hora, o pai adoeceu, o filho foi para o hospital… Têm sempre essas desculpas. Agora, quando se está a falar de profissionais de futebol, é evidente que estão sujeitos aos regulamentos internos dos clubes. Ainda para mais em jogadores do Paris Saint-Germain”, disse.

Em Portugal, os jogadores sul-americanos tinham pouco o hábito de viajar para casa no Natal. Fosse por falta tempo, falta de dinheiro ou os dois, era sempre preferível ficar pela Europa. Um deles, Gaúcho, também falou com o Bancada e mostrou-se totalmente de acordo com Augusto Inácio ao comentar as ‘estratégias’ dos jogadores que viajam no Natal para ganharem mais alguns dias de folga. “No momento que vão para o Brasil, Argentina ou outro país qualquer, os jogadores arranjam sempre uma desculpa para ficar mais tempo. Dizem que perderam o voo ou que aconteceu alguma coisa para ficarem mais dois ou três dias de férias. No nosso tempo nem tínhamos possibilidade de fazer isso”, referiu Gaúcho, antigo jogador brasileiro da Liga Portuguesa.

Os três grandes tiveram casos diferentes no Natal que terminou recentemente. O Benfica, arredado de todas as provas extra-campeonato, deu vários dias de folga aos jogadores e os sul-americanos viajaram para os respetivos países. Foi o caso de nomes como Jonas e Luisão (Brasil), Cervi, Salvio e Lisandro López (Argentina), Raúl Jiménez (México) e até Keaton Parks (Estados Unidos da América). Os encarnados foram de férias no dia 21, depois do empate a duas bolas com o Portimonense, para a Taça da Liga, e apenas voltaram aos trabalhos a 27, dois dias antes do jogo com o Vitória de Setúbal para a mesma competição e que terminou com o mesmo resultado.

No FC Porto, Sérgio Conceição dispensou os jogadores a seguir ao triunfo sobre o Rio Ave por 3-0, jogo referente à Taça da Liga que se realizou a 21 de dezembro. Apesar de só voltar a jogar no dia 30, o clube definiu que o regresso aos trabalhos estava marcado para dia 27. Contas feitas, o FC Porto teve cinco dias de folga contra os seis dos rivais encarnados, mas nem todos os jogadores escolheram viajar para a América. Os brasileiros Felipe e Vaná e o mexicano Reyes foram alguns que o fizeram, mas nomes como Otávio ou Corona permaneceram em terras lusitanas. O primeiro ficou a recuperar de lesão, enquanto o segundo não conseguiu um lugar no voo de Reyes e acabou por ficar por terra.

Por fim, o Sporting de Jorge Jesus. O técnico verde e branco deu aos seus jogadores o mesmo descanso que Sérgio Conceição havia concedido no FC Porto. Depois do jogo com o CF União (6-0), a 20 de dezembro, os leões entraram de férias no dia seguinte e voltaram a treinar no dia 26, quando o Estádio José Alvalade abriu para o treino solidário. O que diferiu o caso do Sporting para os dos dois rivais foi o facto de nenhum dos americanos ter viajado para casa no Natal. Os argentinos Battaglia, Acuña, Jonathan Silva e Alan Ruiz, os brasileiros Bruno César e Mattheus Oliveira, o uruguaio Coates e o costa-riquenho Bryan Ruiz ficaram por Portugal.

Para Augusto Inácio, viajar até à América do Sul para passar o Natal não tem qualquer problema desde que o calendário assim o permita. “Depende do programa e do calendário. Eu já tive jogadores que tiveram uma semana de férias e puderam ir sem problema nenhum. Se tiverem um período só de três dias é evidente que nenhum vai à América do Sul. Aí já é muito prejudicial e ficam cá todos, como já aconteceu. Mas, com uma semana de férias, não vejo inconveniente nenhum nisso”, considerou em declarações ao Bancada.

E, para além do castigo financeiro, devem ser os jogadores castigados a nível desportivo? Augusto Inácio considera que não, ainda que realçe que fica quebrado um laço de confiança entre o atleta e o clube. “O clube também não pode ser prejudicado porque um jogador chegou uns dias atrasado porque há resultados para obter. Contudo, se depois precisarem de um dia extra para resolverem algum problema, não vão ter. O treinador e a estrutura perdem a confiança num jogador que falta à palavra uma vez.”

Apesar de, nos dias que correm, a maioria dos jogadores dos três grandes poderem ir a casa no Natal, nem sempre foi assim. Quem o diz é André Cruz, que falou com o Bancada sobre isso. “Na primeira vez que estava na Europa, na Bélgica, voltei ao Brasil para visitar os meus familiares no Natal. Na segunda vez, já fiquei na Bélgica e nos restantes anos na Europa não me lembro de ter voltado alguma vez mais. Às vezes ia para outro sítio na Europa, mas não para o Brasil. Não tínhamos tempo para isso”, avançou o antigo defesa-central internacional brasileiro que representou vários clubes na Europa. Um deles foi o Sporting, entre 1999/00 e 2001/02.

“Ficava muito apertado e havia a despesa de levar também a mulher e o filho, mas o maior problema era o tempo. Hoje, há muitos voos e vários horários entre Portugal e Brasil, mas quando eu jogava os voos eram muito menos. Como disse, só fui ao Brasil uma vez, mas cheguei na data combinada. Mas vi vários exemplos de jogadores que chegaram atrasados. Não só sul-americanos, mas também europeus”, revelou.

O Natal dos sul-americanos nos clubes ‘pequenos’

O caso mudava pouco de figura nos clubes de menor dimensão. Alfredo Herlein, ex-jogador argentino que representou, em Portugal, clubes como o AC Viseu, Amora FC ou o Estoril Praia, explicou ao Bancada que viajar para a América do Sul para celebrar o Natal era impraticável. “Nunca viajei no Natal. Quando viajava era nas férias de verão. (…) Era mais uma questão económica que vontade. Agora, os jogadores alugam jogadores privados, coisa que nesse tempo era impossível mesmo que jogasses num dos grandes. Antigamente, mesmo os jogadores de Real Madrid e FC Barcelona tinham uma boa casa e um bom carro, mais nada. Hoje, é diferente”, disse o antigo defesa, que apontou ainda o mesmo problema que André Cruz para não ir à Argentina no inverno: a falta de tempo.

“Nos clubes em que eu jogava, ficávamos sempre em Portugal. Era diferente da situação dos jogadores do Benfica, Sporting ou FC Porto. Agora usa-se muito dar quatro, cinco, seis dias de folga. Eu não me lembro de alguma vez ter tido tantos dias de folga no Natal”, admitiu.

Gaúcho, avançado brasileiro que vestiu a camisola de, entre outros, Estrela da Amadora ou Marítimo, concorda com Herlein. O tempo de folgas era pouco e não compensava estar a perder tempo e dinheiro em ir para o Brasil para voltar logo a seguir. Tal como Herlein, Gaúcho nunca foi ao Brasil passar o Natal. “Não havia forma. Quando era treinado pelo Jorge Jesus [no Estrela da Amadora], tínhamos o dia de Natal para estarmos com as nossas famílias e no dia 26 já tínhamos treino novamente. Nunca tive dois ou três dias de folga, era mesmo só o dia de Natal. Logo a seguir, já tínhamos treino. Nunca fui ao Brasil passar o Natal. Hoje, viajam e três dias depois voltam ‘rapidinho’. O dinheiro não lhes faz falta. Naquele tempo, era impossível”, começou por dizer ao Bancada o ex-jogador, que hoje conta 45 anos.

O dinheiro também foi referido por Augusto Inácio. O antigo jogador e treinador confirmou que esse é um dos principais motivos pelo qual os jogadores preferem ficar em Portugal durante as festividades natalícias. “É evidente que a maioria dos jogadores dos clubes mais pequenos não vão aos seus países [no Natal] porque as passagens são caras, a não ser aqueles que têm cláusulas nos contratos com os clubes que digam que são os clubes que pagam os bilhetes. Mas normalmente isso não existe, os clubes pagam apenas as viagens na vinda pela primeira vez e na volta no final.”

Outro ponto em que os dois sul-americanos têm a mesma recordação prende-se com o castigo aplicado a quem se atrasasse em relação às datas estabelecidas. Enquanto Gaúcho referiu que um jogador nessas condições “levava multa e até podia ser despedido”, Herlein é da opinião que os clubes têm justificação para serem muito exigentes com os atletas. “Tínhamos um código interno. Quem chegava atrasado das férias, aos treinos, aos refeições, levava sempre multa. Com esse dinheiro, íamos todos jantar no fim do ano. Hoje, os clubes exigem muito porque investem muito dinheiro nos jogadores. Se tu pagas muito bem, também tens de exigir muito. O futebol português era muito diferente”, concluiu.

Alfredo Herlein André Cruz Augusto Inácio Cavani Gaúcho Liga Francesa Paris Saint-Germain Pastore Thiago Silva
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