Laranja sofreu a pior derrota desde 1961, numa altura em que ocupa o pior lugar da história no ranking FIFA
O golo apontado por Mbappé, aos 90’+1, em pleno Stade de France, sentenciou o triunfo da França por 4-0 frente à Holanda. Um desaire que colocou a equipa laranja em grandes dificuldades para conseguir lutar pelo apuramento para o Mundial’2018, mas que também deixou feridas no orgulho e no historial de uma seleção tradicionalmente apontada como potência, mas que está em queda permanente desde 2014 e que já não apresenta o esplendor de outrora. Foi a maior derrota da Holanda desde 1961, entre jogos oficiais e particulares.
Um resultado que deixa os holandeses no quarto lugar do Grupo A do apuramento para o Mundial da Rússia, com três jogos por jogar, já a seis pontos da líder França e a três da vice-liderança da Suécia, que ocupa o lugar de acesso ao playoff – pelo meio está a Bulgária, com mais dois pontos. Mais do que a situação delicada na qualificação, preocupante é a falta de vitórias frente a equipas expressivas. Desde o terceiro posto alcançado no Mundial do Brasil, no verão de 2014, que a Holanda não vence uma seleção do top 70 do ranking em encontros oficiais.
São já mais de três anos. Desde então, a Holanda falhou o Europeu de 2016, em França, e venceu apenas sete encontros oficiais, somente dois frente a equipas dentro do top 100 do ranking da FIFA. Dois frente a Luxemburgo (130.º do ranking em 2016 e 136.º em 2017), dois contra o Cazaquistão (139.º em ranking em 2014 e 129.º em 2015), mais dois contra a Letónia (96.ª do ranking em 2014 e 101.ª em 2015) e, por fim, um frente à Bielorrússia (74.ª do ranking em 2016).
Pelo meio duas derrotas em 2017 (Bulgária e França); um empate (Suécia) e uma derrota (França) em 2016; três derrotas (República Checa, Turquia e Islândia) e um empate (Turquia) em 2015; mais duas derrotas (Islândia e República Checa) em 2014. O resultado de todas estes tropeções foi uma escorregadela ainda maior para o 36.º posto do ranking, após a atualização feita pela FIFA em agosto. É a pior posição de sempre dos holandeses – outrora mecânicos, atualmente desregulados – no ranking.
Em sentido inverso a este momento, está a vizinha e rival Bélgica, que a partir de 2014 entrou no top 10 do ranking, chegando, inclusivamente, à liderança do mesmo em 2015, algo que a Holanda nunca conseguiu, e ocupando agora o nono posto. Os “diabos vermelhos” já estão, inclusive, praticamente garantidos no Mundial’2018, faltando apenas um triunfo na próxima jornada frente à Grécia para carimbar o passaporte para a Rússia. Mais um duro golpe no estômago dos holandeses, que, curiosamente, até foi frente à Bélgica que somaram o pior desaire anterior ao de ontem – num particular em 1961.
A ressaca de Cruyff e uma renovação demorada
O recente momento da Holanda deve fazer lendas como Cruyff ou Rinus Michels, os dois grandes criadores da “Laranja Mecânica”, dar voltas nos respetivos túmulos. No entanto, a história por vezes mostra-se repetida e parece ser isso que se está a passar com os holandeses. Após alcançar a final do Mundial’2010 na África do Sul e o terceiro posto em 2014 no Brasil, a Holanda quebrou. Pode falhar a segunda competição internacional consecutiva. Mais ainda está longe do período de “abstinência” que se verificou entre 1980 e 1988 – falharam dois Mundiais e um Europeu de forma consecutiva.
Precisamente um período que se seguiu às duas finais consecutivas em Mundiais. Primeiro em 1974 com Michels e Cruyff, na Alemanha Ocidental, onde perderam apenas para a equipa da casa, e, depois, em 1978, na Argentina, onde perderam novamente para os anfitriões, mas sem Cruyff, alegadamente em protesto político contra o regime ditatorial argentino, e com o lendário treinador austríaco Ernst Happel. Após a eliminação na fase de grupos do Euro’80, os holandeses falharam o Mundial’82, o Euro’84 e o Mundial’86.
A seca holandesa terminou apenas com a presença no Europeu de 1988, na Alemanha Ocidental, novamente com Michels ao comando, na sua terceira de quatro passagens pelo comando da seleção holandesa, mas como uma nova geração de estrelas, liderada por Van Basten, e com nomes como Rijkaard, Gullit e Koeman. Após a “vingança” sobre a equipa da casa, o triunfo frente à ex-URSS na final, com o célebre golo de Van Basten, após um remate de primeira e à meia-volta, com ângulo reduzido. Era o regresso perfeito da Laranja às grandes competições.
Resta, agora, a Dick Advocaat, que tomou as rédeas da equipa em maio deste ano, após a saída do histórico defesa Danny Blind, e que, curiosamente, também está na terceira passagem pelo comando da Holanda – a primeira foi entre 1992 e 1994 e a segunda entre 2002 e 2004, quando conduziu a equipa às meias-finais do Euro’2004, onde perdeu com o anfitrião Portugal -, tentar evitar a primeira ausência da Holanda num Mundial desde 2002.
Mais complicado seria repetir a façanha de Michels no Europeu 2020… Até porque a renovação da equipa holandesa tem sido demorada e pautada por uma mistura entre jogadores veteranos e outros muitos jovens, faltando uma geração intermédia de valor. Do Mundial de 2010, ainda restam o capitão Robben, Sneijder, Van Persie e Stekelenbourg, em relação aos convocados para o encontro com a França. Já de 2014 ainda sobram Cillessen, De Vrij, Blind, Wijnaldum, Robben, Veltman, Martins Indi, Van Persie e Depay.
Pelo meio, só em 2017 já foram chamados 58 jogadores à seleção holandesa – os 23 escolhidos na última convocatória, mais 32 que foram convocados ou pré-convocados para os encontros anteriores. Em contrapartida com a veterania de alguns, a Holanda lançou muitos jovens, com o exemplo máximo a ser o defesa De Ligt, que se estreou como titular aos 17 anos, na derrota na Bulgária. Mas também Fosu-Mensah, de 19 anos, que se estreou pela seleção – e logo a titular – na “fatídica” noite de ontem no Stade de France. Esta é, verdadeiramente, uma Holanda com muito pouco sumo, “desmecanizada” e que anseia pelos novos Rijkaards e Van Bastens para sonhar em regressar ao topo do futebol europeu e mundial.