Gabriel Heinze, devolveu o clube que formou Maradona à primeira divisão argentina e fê-lo em grande estilo
Poucos treinadores no Mundo influenciaram tantos outros ao longo dos anos quanto Marcelo Bielsa. Na Argentina, especialmente, a escola bielsista é particularmente forte. Gabriel Heinze, recorda-se dele? O antigo defesa central/lateral esquerdo internacional argentino, que se notabilizou ao serviço de clubes como o PSG, o Manchester United ou o Real Madrid é mais um desses casos. Mais um bielsista, com quem, aliás, trabalhou na seleção argentina, então às ordens de Bielsa, seu selecionador nacional. Foi Bielsa quem levou Heinze para a seleção argentina pela primeira vez, aquando da passagem do hoje técnico do Lille entre 1998 e 2004. Com Bielsa, Heinze venceu mesmo a medalha de ouro olímpica em 2004.
Por esta altura poucas equipas na Argentina mostram tanto futebol como o Argentinos Juniors. Um histórico caído em desgraça, agora recuperado e ressuscitado por Gabriel Heinze. Em 2016, o clube que formou Diego Armando Maradona caiu à segunda divisão argentina – Maradona dá mesmo o seu nome ao estádio do Argentinos – e apenas uma temporada depois, confirmou o seu regresso à elite do futebol argentino. Pela mão de Gabriel Heinze, treinador do Argentinos, El Bicho, como o clube é conhecido, confirmou o regresso à Primera División ainda com três encontros por jogar. A ocasião é particularmente interessante pelo timing em que ocorre: por esta altura, celebra-se também o aniversário do título que o Newell’s Old Boys venceu em plena Bombonera. Há 26 anos, Marcelo Bielsa, esse mesmo, omnipresente, celebrou o título argentino numa das catedrais do futebol do país. Um dos títulos mais icónicos do futebol argentino e um dos que mais agentes do futebol influenciou ao longo de toda a história do jogo.
Se, por esta altura, poucas equipas na Argentina – ou, sequer, qualquer outra – pratica um futebol tão perfumado e agradável quanto o do Argentinos Juniors de Heinze, tal, em muito se deve a Marcelo Bielsa. Sempre ele. Bielsa a quem Heinze foi beber grande parte dos ensinamentos, influência e matriz de jogo. A quem foi beber, essencialmente, inspiração. Um futebol de toque, movimentação constante, bola de pé para pé, rápido, intenso. De pressão a todo o campo. Como Bielsa ensinou. Heinze recusa comparar-se ao mestre. Para o antigo defensor do Sporting – é verdade, Heinze passou por Alvalade em 1998/99 e representou o Sporting em cinco ocasiões por empréstimo do Valladolid -, Bielsa não é apenas o melhor treinador do Mundo. É alguém que está anos luz à frente de qualquer outro no Mundo do futebol. Um visionário. Um vanguardista. Um mestre.
Heinze pode recusar as comparações, mas, em campo, o futebol do Argentinos não podia ser mais Bielsista. Aprendeu bem. Tévez já pede Heinze para o seu Boca. O Argentinos garantiu o regresso à primeira divisão da argentina com três jogos por jogar e, por esta altura, El Bicho não é só o melhor ataque da competição, como é, também, a melhor defesa. Algo particularmente interessante para uma equipa de um discípulo de Bielsa. Com uma vitória por 1-0 frente ao Gimnasia de Jujuy, o Argentinos está de regresso ao convívio com os grandes da Argentina e a primeira divisão do futebol do país poderá agora assistir de perto a nomes como Esteban Rolón, Alexis Mac Allister, Iván Colman e Facundo Barboza. Como escreve o La Nación, uma equipa que coloca em momento ofensivo seis/sete jogadores, que faz mil passes durante esse mesmo momento se tal for necessário.
Um Argentinos Juniors que é, por si próprio, também ele, um dos grandes do país, aliás. Clube que formou nomes como Maradona, Cambiasso, Juan Pablo Sorín, Riquelme ou Fernando Redondo. Tivessem saído mais cedo ou mais tarde do clube, parte influente da sua formação é feita em La Paternal. Clube que venceu já três títulos nacionais mas que, mais que isso, venceu a Libertadores em 1985 e que levou a Juventus até ao desempate por grandes penalidades durante a Taça Intercontinental de 1985.
O domínio do Argentinos Juniors em 2017 foi tal que três jogos antes do término do campeonato, El Bicho está já promovido. À 41ª jornada, o Argentinos é líder da Primera B Nacional, segunda divisão argentina, com mais treze pontos que o segundo classificado, o Guillermo Brown. Um domínio tão notável que, desde a décima primeira jornada, só à 15ª o Argentinos não esteve em uma das duas primeiras posições do campeonato. Alcançou a liderança à 27ª e não mais a perdeu.
A passagem de clubes históricos da argentina pela segunda divisão, nos últimos anos, não tem sido caso raro. Matias Almeyda, por exemplo, tirou da Primera B Nacional tanto Banfield como, claro está, River Plate. Em 2011, também o Rosario Central por lá passou tal como o Belgrano ou, ainda há mais tempo, o Huracán. O Argentinos tornou-se agora o mais recente caso de um histórico a ser devolvido aos grandes palcos do futebol argentino e, Heinze, antigo internacional pela Argentina, dá-se a conhecer como um treinador de futuro. Nos festejos após a promoção, até um adepto o pediu em casamento.
O jogo frente ao Jujuy terminou e, no fim, quando todos queriam Heinze, o protagonismo foi dado ao seu corpo técnico – onde se identifica Toedtli, antigo avançado do Marítimo. Uma homenagem que Heinze justificou com o facto de, sem eles, nada daquilo ter sido possível. Recusou louros e elogios, pois lembra-se dos insultos e desconfiança com que foi recebido em La Paternal. A promoção não foi sua, foi de todos. Agradeceu à direção pela oportunidade numa altura “em que o clube se incendiava” e a sua carreira como treinador havia tido um início desapontante no Godoy Cruz. Enalteceu o feito especial dos seus jogadores. A carreira de Heinze, para quem nunca a entendeu, ficou ali bem exposta: um profissional e um líder. Melhor, só o futebol do Argentinos, que Heinze potenciou com prata da casa.
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