É considerada a equipa mais pequena a chegar à Football League, mas a filosofia amiga do ambiente está a dar que falar
Em maio passado o Forest Green Rovers bateu o Tranmere Rovers no playoff de promoção, em pleno Wembley, e garantiu a subida do quinto para o quarto escalão do futebol inglês. Em 2017/18 o modesto clube vai jogar pela primeira vez na Football League, mas é por outros motivos que tem dado nas vistas. A filosofia do clube tornou-se recentemente o centro das atenções, uma vez que se destaca por ser ecológica, sustentável e também… vegan. Tudo com o objetivo de juntar o futebol à consciencialização ambiental.
No menu do bar do estádio há hambúrgueres vegans e várias receitas à base de legumes, uma vez que desde 2015 que só se confeciona comida vegan. Os jogadores também aderiram a esta “dieta” e há quem garanta que até os adeptos se renderam a este modo de vida. Mas há mais. O novo estádio é sustentado a energia solar e eólica, o relvado é o primeiro no mundo a ser orgânico, não levando pesticidas ou químicos, a água da chuva é aproveitada para regar o relvado, através de um sistema de irrigação, e as redes das balizas são biodegradáveis. Eis o clube mais “verde” do Mundo, segundo descrição recente feita pela FIFA.
Mas nem sempre foi assim. Quem o garante é Bruno Teixeira, avançado do SC Rio Tinto, que na década passada chegou a representar o clube inglês. “Naquela altura era totalmente diferente”, assegura ao Bancada o jogador, de 34 anos, que por lá esteve na temporada de 2005/06. “O estádio era outro. Quando saí foi quando fizeram o estádio novo, ainda cheguei a jogar nele. Estávamos no quinto escalão. Naquela altura já era um clube profissional, mas não era nada assim. O presidente era outro, só desde que chegou o atual presidente é que tudo mudou”, salienta.
Apesar de ser um dos clubes mais antigos de Inglaterra – foi fundado em 1889 – esta peculiar filosofia de vida do Forest Green apenas foi aplicada em 2010, quando Dale Vince chegou à presidência do clube. As contas não eram famosas e foi necessário tomar opções. É aí que entra em cena a Ecotricity, empresa ligada às energias e ao ambiente que revolucionou o ADN do clube e lhe deu nova força financeira, acabando este processo por culminar na subida da equipa à League Two.
A primeira mudança na filosofia aconteceu em 2011, quando do menu do clube foram retiradas as carnes vermelhas. Quatro anos depois a culinária passou a ser totalmente vegan. Os jogadores aceitam esta realidade. Os adeptos do clube apoiam e seguem o ADN, sendo que deixam ainda o aviso que os rivais na próxima época vão comer muito húmus [alimento típico da cultura árabe feito à base partir de grão]. “Acho engraçado porque até os próprios adeptos seguiram a filosofia do clube”, afirma Bruno Teixeira.
No entanto, surgem queixas do lado dos adeptos rivais, talvez por estarem à espera de encontrar outro tipo de menu no The New Lawn. Também os adversários costumam ironizar a “dieta” especial do clube, conforme revela o técnico Mark Cooper. No entanto, o treinador inglês dá um exemplo bem concreto para se defender. “A verdade é que o Agüero está a fazer uma dieta vegan. Ele diz que o ajuda a precaver lesões. Estamos a falar de um dos melhores avançados do Mundo, por isso algo deve estar certo. E não houve um único jogador que tenha rejeitado a nossa proposta por termos esta filosofia vegan”, frisou Cooper em recente entrevista ao jornal britânico “The Telegraph”.
“Vi na televisão, percebi os planos do presidente e não pude escapar a esta realidade”, admitiu, por sua vez, o jogador Scott Laird, contratado este defeso ao Scunthorpe, em declarações reproduzidas no mesmo artigo. “Fiquei envolvido por esta filosofia. Tenho seguido uma dieta vegan desde que aqui cheguei e a realidade é que me sinto em grande forma. Melhor do que após qualquer outra pré-temporada que tenha feito na carreira”, assegurou Laird, de 29 anos.
Championship em cinco anos e novo estádio
O novo estádio, The New Lawn, foi inaugurado em 2006 e tem capacidade para mais de 5 mil adeptos. Ou seja, tem capacidade para receber praticamente toda a população da pequena vila de Nailsworth, na região de Gloucestershire, no sudoeste inglês. “Os adeptos adoram o clube. É um meio pequeno, mas tem muita gente que gosta daquilo”, explica-nos Bruno Teixeira, dando ainda conta do facto de, embora esta seja uma nova realidade, o nome do clube – floresta verde, em português – sempre ter estado ligado ao ambiente, tal como a consciência dos adeptos.
O clube, que também é apelidado de “Green Devils”, orgulha-se de ser o primeiro e único clube vegan no Mundo, conforme é possível ler na página oficial na internet, assim como se congratula por ter recebido o estatuto dourado de gestão ambiental da EMAS, organismo de cariz ambiental pertencente à União Europeia. No teto das bancadas do estádio é ainda possível ler as inscrições “a mudar as regras do jogo” e “sustentabilidade no desporto”.
Mas os objetivos do Forest Green Rovers ainda estão longe de ser alcançados, uma vez que o clube, considerado pelo presidente como “o mais pequeno de sempre” a chegar à League Two, já estabeleceu novas metas: chegar ao Champioship – segundo escalão – em cinco anos e construir um novo estádio. É verdade que o The New Lawn é recente, mas a direção pretende inovar ainda mais, tendo projetos para lançar o Eco Park: o primeiro estádio do Mundo feito exclusivamente de madeira. Intenção que está vincada no site oficial do clube.
A estreia na League Two aconteceu no passado fim-de-semana e a equipa alcançou um empate caseiro na receção ao Barnet, emblema que contou com dois jogadores portugueses. Um deles foi Mauro Vilhete. Em conversa com o Bancada o defesa garante que as equipas adversárias não se deixam envolver por toda esta história. “Apenas pensamos no que temos de fazer em campo. É uma questão que mexe mais com os adeptos, não tanto com os jogadores”, frisa. Ainda assim, sublinha que, apesar de serem vegans, os jogadores rivais “pareciam estar bem e fortes”.
Antes do arranque da época o Forest Green passou por Portugal, cumprindo uma parte da pré-temporada pelo Algarve. O clube inglês enfrentou o Farense, do Campeonato Nacional, num particular e perdeu por 2-1. Mas o resultado é o que menos interessa para a história. A verdade é que apesar da filosofia alternativa, esta dá pouco nas vistas. Tanto é que Luís Zambujo, atacante dos algarvios, admite-nos que nem sequer tinham consciência das peculiaridades associadas ao adversário.
Já Bruno Teixeira, que revela ainda seguir as notícias da equipa através do Facebook, acredita que o clube tem potencial para chegar longe com esta política. “Da maneira que eles estão a gerir o clube, acho que as coisas estão a tomar proporções grandes. É difícil em Inglaterra singrar no meio dos outros clubes, porque são quase todos equivalentes, mas, desta forma, penso que o clube pode ganhar ainda mais visibilidade”, aponta o avançado que na juventude passou pela formação do FC Porto.
Contudo, a ligação ao Forest Green durou pouco. “Foi só uma época porque eu não quis mais”, relembra Bruno, entre uma gargalhada. “Vim-me embora. As pessoas gostavam muito de mim lá e queriam que eu renovasse, mas vim para casa. Queria ficar livre de impostos, porque se descontava muito lá, e eles não queriam. Foi por isso que me vim embora”, confessa-nos, antes de se declarar incompatível com a nova realidade vegan do clube: “Acho que não dava para a equipa agora (risos). Não sou muito ligado a isso”.
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