Grande Futebol
FK Qarabag, o clube dos refugiados que não tem casa há quase três décadas
2018-09-01 11:00:00
Desde 1993 que o Qarabag não joga em casa tendo-se estabelecido desde então como o símbolo de esperança e orgulho azeri.

2017/18 foi um ano histórico para o FK Qarabag. O clube azeri garantiu o quinto título consecutivo com sobra, dezasseis pontos a mais do que o segundo classificado Gabala, mas foi na Liga dos Campeões que o emblema azeri fez história ao bater o FC Copenhaga no play-off de qualificação para a Fase de Grupos da prova através da regra dos golos fora e definir-se, por isso, como a primeira equipa da história do Azerbaijão a alcançar tal fase da prova. Também aí o Qarabag supreendeu. Apesar do último lugar no grupo da morte da competição, a equipa azeri não perdeu qualquer um dos dois jogos disputados frente ao Atlético Madrid naqueles que foram os dois únicos pontos conquistados pela equipa que registou derrotas frente a AS Roma e Chelsea.

Hoje, o Qarabag é uma equipa estabelecida há vários anos em Baku, capital do Azerbaijão e cidade que irá receber a final da Liga Europa esta temporada, mas nem sempre foi assim. Este foi um clube que se viu obrigado a fugir da guerra para subsistir e, também por isso, definir-se ideologicamente. Fundado há 67 anos em Agdam, o Qarabag viu-se obrigado a deixar a região de Nagorno-Karabakh em 1993 devido à Guerra da Libertação Artsakh entre Azerbaijão e Arménia, naquele que foi um conflito armado que teve tanto de político como de étnico e religioso já que opôs armenos cristãos a azeris muçulmanos. O último jogo do Qarabag em casa, aliás, disputado perante o Turan IK, a doze de maio de 1993, foi disputado debaixo de fogo e sob a ameaça de misseis.

Internacionalmente reconhecido como território azeri, desde o início dos anos 90 que a região de Nagorno-Karabakh está ocupada militarmente pelo exército armeno sendo, aliás, a população da zona maioritariamente armena atualmente. Uma região montanhosa no Cáucaso e nos vales dos rios Kur e Araz onde se situa Agadam que foi arrasada totalmente pela Arménia destruindo monumentos, cemitérios, hospitais, escolas, residências e fábricas, tudo, ao ponto de atualmente Agdam não estar sequer habitada, algo para o qual a comunidade internacional, ainda hoje, parece ainda não ter encontrado opinião ou justiça. Atualmente, cerca de 20% do território internacionalmente reconhecido como território azeri está hoje ocupado militarmente pela Arménia.

Apesar de hoje estar estabelecido em Baku - Agdam é hoje conhecida como “cidade fantasma” e como “Hiroshima do Cáucaso” -, o Qarabag mantém vivas as ligações ao Alto Carabaque, fazendo disso identidade. Os cavalos carabaques, por exemplo, fazem parte da iconografia do clube surgindo em dose dupla no emblema do clube azeri. Uma ligação à região de Nagorno-Karabakh que serve de inspiração e fonte de orgulho para todos os deslocados e refugiados de guerra da região e que, por isso, valeu também ao clube a alcunha de “clube dos refugiados”, não tendo faltado nos últimos anos, com a ascensão da equipa a potência do futebol azeri, diversos programas realizados pelo clube junto de campos de refugiados nas fronteiras de Nagorno-Karabakh, estimando-se que quase um milhão e meio de pessoas acabaram deslocadas da região, e mais de quinze mil morreram durante o conflito, grande parte delas azeris, que resultaram na conquista do território por parte das forças armadas armenas sob acusações de limpeza ética.

Apesar de há muito estar estabelecido em Baku, ainda reina a esperança de um dia o clube conseguir regressar a Agdam onde uma antiga e vibrante cidade de 40 mil pessoas é hoje ocupada por ruínas da guerra e considerada uma das maiores cidades fantasma do Mundo. O próprio antigo estádio do Qarabag foi praticamente destruído durante a guerra, utilizando mesmo, o clube, um estádio construído propositadamente para o mesmo em 2015 em Baku, apesar do Qarabag disputar os encontros da UEFA no Estádio Olímpico de Baku onde será disputada esta temporada a final da Liga Europa. Se o clube, na Premier League azeri consegue albergar cerca de cinco mil adeptos na Azersun Arena, esse apoio ultrapassa os sessenta mil nos jogos Europeus no Olímpico de Baku.

Hoje, o Qarabag é ideologicamente um choque entre dois Mundos. Ícone da esperança de todos os refugiados e deslocados da região de Agdam e clube símbolo de afirmação política do governo azeri que detém o clube através da empresa estatal Azersun que dá nome ao estádio do Qarabag. Hoje, o Qarabag não é só o símbolo de Agdam e de Nagorno-Karabakh, mas de todo o Azerbaijão substituindo o Neftchi Baku como o clube mais bem sucedido do país, equipa que desde a ascensão do Qarabag não vence um título com o último deles a remontar à temporada 2012/13.

Apesar do cessar fogo atual entre Arménia e Azerbaijão, o conflito de Nagorno-Karabakh pode ter impossibilitado para sempre qualquer tipo de relação diplomática entre ambos os países, algo que não tem lugar atualmente, ainda, e que até no futebol tem implicações. Henrikh Mkhitaryan que o diga que em 2015, aquando da visita do Borussia Dortmund ao terreno do Gabala, ficou impossibilitado de ir a jogo devido à recusa do governo azeri em passar um visto de entrada no país a Mkhitaryan, conhecidamente internacional armeno.

A história poderá repetir-se esta temporada uma vez que também no grupo de Sporting e Qarabag está o Arsenal, clube que Henrikh Mkhitaryan representa atualmente, sendo previsível que nem UEFA, Arsenal ou o próprio Mkhitaryan arrisquem novo conflito diplomático ou coloquem em causa a segurança de Mkhitaryan face a uma possível viagem do médio ao terreno do Qarabag e a território azeri.

Apesar de ser um pequeno clube do Azerbaijão e desalojado há quase 30 anos da sua própria região, a ascensão do Qarabag nos últimos anos impressiona ao ponto de hoje ser uma equipa competitiva na Europa, além de se ter estabelecido como a principal força do futebol azeri. Para isso em muito contribuiu a chegada ao clube de Gurban Gurbanov, antigo ícone do futebol azeri, que desde 2008 - então com 36 anos - treina a equipa do Qarabag e cujo futebol expansivo e baseado na posse de bola levou o clube a ser apelidado de Barcelona do Cáucaso e onde pontua atualmente o antigo médio do Sporting Simeon Slavchev.