No que à excentricidade de donos de clubes de futebol diz respeito poucos igualam Glenn Tamplin, dono do Billericay Town
No que à excentricidade de donos de clubes de futebol diz respeito, poucos igualam Glenn Tamplin, dono do Billericay Town, clube que milita atualmente na sexta divisão do futebol inglês e que nunca visitou os campeonatos profissionais de futebol em Inglaterra. Na verdade, só em três ocasiões desde a fundação do clube, em 1880, o Billericay Town alcançou a primeira ronda da Taça de Inglaterra caindo, quase sempre, nas eliminatórias preliminares. Glenn Tamplin prometeu mudar tudo isto quando em dezembro de 2016 comprou o clube e desde logo o estabeleceu como uma espécie de “clube rock & roll” ou “clube hollywoodesco”, vá. Dois anos depois é seguro dizer que apesar de toda a excentricidade aliada ao Ricay, o sucesso continua longe e, no máximo, Glenn Tamplin tem sido fonte de algumas das histórias mais bizarras a surgir do futebol inglês. Um homem que podia perfeitamente ser uma personagem de um dos primeiros filmes de Guy Ritchie.
Excêntrico, empresário, investidor, dono e antigo treinador em… três ocasiões do Billericay Town, no que à excentricidade de donos de clubes de futebol diz respeito, poucos igualam Glenn Tamplin, multimilionário inglês e um dos homens mais poderosos da região de Essex, fortuna e estatuto construídos através da empresa AGP Steel, o maior fabricante de aço da região sudeste de Inglaterra, companhia que Tamplin começou no seu próprio quintal. Com o negócio na indústria a definhar, foi no futebol que Tamplin procurou um escape depois de uma tentativa falhada na compra do Dagenham & Redbridge também dos escalões não profissionais do futebol inglês, foi em Billericay que Tamplin encontrou nova casa comprando o clube em dezembro de 2016.
Tamplin chegou com tudo ao clube inglês. Além de si próprio, fez chegar ao Ricay nomes com algum estatuto no futebol inglês como eram os casos dos antigos internacionais ingleses Paul Konchesky e Jermaine Pennant, bem como o antigo médio do Tottenham e antigo internacional jovem por Inglaterra Jamie O’Hara, jogadores que apesar do estatuto há muito que a forma física já não o acompanhava, mas que permitiu ao Billericay Town ganhar uma notoriedade especial no futebol em Inglaterra.
Não foi só com a contratação de estrelas (cadentes) que trouxe notoriedade ao Billericay Town. A pintura de murais ao estilo… urbano no estádio e balneários do clube, bem como rituais pré jogo que se tornaram virais devido ao seu estatuto bizarro – imagine uma roda de jogadores adultos abraçados e a cantar R. Kelly, pois… -, tornaram o Ricay numa espécie de fenómeno de culto no futebol inglês. Certo é que a coisa resultou. Em 2017/18 o clube conseguiu mesmo a promoção alcançando a National League South e estando, por isso, a uma distância cada vez menor de alcançar o futebol profissional inglês depois de um investimento avultado por parte de Tamplin que só no relvado do estádio do clube gastou mais de dois milhões de libras.
Em dois anos de liderança de Tamplin, o excêntrico dono do Billericay Town não se coibiu, sequer, de se fazer treinador e de se despedir a ele próprio, situação que ocorreu já em três ocasiões. Depois de ter guiado o clube a uma pouco habitual presença na primeira ronda da Taça de Inglaterra, Tamplin demitiu-se a si próprio em Fevereiro de 2018 depois de três derrotas consecutivas e depois de uma divergência com o plantel por ter pedido ao mesmo que doassem uma semana dos seus salários devido à má forma mostrada em campo e proposta à qual os jogadores não acharam grande graça. A vingança talvez tenha chegado pouco depois, com Tamplin a mostrar quem manda no clube e a contratar-se de novo como treinador dois dias depois de se ter despedido. Durou pouco. Em abril, Tamplin voltou a demitir-se, e desta vez nem um anúncio feito em género de documentário no youtube faltou.
Pelo meio há ainda o episódio que envolveu dois sem abrigo. Aconteceu em outubro de 2017 quando Tamplin tornou público ter oferecido trabalho a dois sem abrigos, homens que via regularmente no seu caminho para o trabalho. Um deles acabou por se tornar o encarregado principal do relvado do estádio do Billericay Town, enquanto o outro passou a ser um dos seguranças do recinto, tendo ambos passado a dormir num escritório desocupado no estádio do clube.
Altamente tatuado e dono de um Ferrari que decidiu pintar ou cobrir com as cores e símbolos do Billericay Town, Glenn Tamplin é uma caixinha de surpresas e nem ameaças a “haters” faltam no seu currículo. No twitter foram já algumas as vezes que Tamplin sugerir que determinados “haters” se atirassem de um prédio ou para a frente de um comboio, enquanto em fevereiro de 2018 foi acusado de ter ameaçado Eliott Kebbie, um dos seus jogadores, com o que a imprensa inglesa apelidou de “ameaças gangster” por parte de Tamplin. Em causa estava o facto do clube ter oferecido cinco mil libras a Kebbie para o dispensar, com o jogador a rejeitar por querer levar o seu contrato até ao fim, algo que não terá sido do agrado de Tamplin que ameaçou Kebbie com um… apertão, ele que até já havia despedido o anterior treinador da equipa, Harry Wheeler, por sms… cinco minutos antes de um encontro do clube terminar.
Se tudo isto não bastava, Glenn Tamplin e o seu Billericay Town voltaram a saltar para as páginas das secções desportivas dos jornais ingleses recentemente com o excêntrico milionário a ser acusado de consumir cocaína nas instalações do estádio, algo que pode ter sido a gota de água na ligação de Tamplin ao clube. Não porque as mesmas se tenham confirmado e o milionário tenha sido impedido de continuar o seu trabalho no clube, mas porque o mesmo parece ter-se fartado de confusões e de ser mal amado pelos adeptos. Em comunicado emitido esta semana, Tamplin anunciou que o clube estava oficialmente à venda já que as acusações relacionadas com o consumo de droga ultrapassaram o limite e passaram a afetar também a sua família depois de Tamplin ter sido parado por duas vezes pela polícia para ser questionado acerca do episódio e, segundo o empresário, isso ter aterrorizado os seus filhos que se encontravam no banco de trás do carro.
Acusações que, apesar de infundadas até ao momento, talvez pudessem ter uma razão de ser. O próprio Glenn Tamplin admitiu ter passado por momentos complicados recentemente, apesar de ter descoberto uma nova luz na Tailândia. Durante seis semanas exilou-se no país asiático e fez uma “cura” através do Muay Thai. “O ringue Muay Thai foi a minha salvação. É boxe tailandês misturado com o encontrar de paz. Foi a melhor coisa que alguma vez fiz e é muito capaz de me ter salvo a vida”, confessou. Tamplin diz-se um homem novo, mais calmo e mais positivo e talvez por isso não tenha aguentado as acusações do tal adepto do Billericay. Esta história, porém, parece saída de um guião de um filme de Guy Ritchie ou de uma verdadeira novela latina e, por isso, promete não ficar por aqui. Bem vindos ao excêntrico mundo de Glenn Tamplin.