Desde que chegou do Olympiacos, Emenike fez nada mais nada menos do que… zero minutos pelo Las Palmas.
Lembra-se de quando o português Marco Fortes, lançador de peso, disse, nos Jogos Olímpicos 2008 (China), que, à hora das provas, “estava bem era na caminha”? Já lá vamos. Em Espanha, o futebolista nigeriano Emmanuel Emenike também parece sofrer do mesmo. Mas não é só de manhã.
Segundo o jornal “AS”, Emenike disse a funcionários do Las Palmas, clube que o recebeu por empréstimo, em janeiro, que não queria treinar. “Tenho sono e não me apetece treinar”. De seguida, relata a imprensa espanhola, o jogador saiu da bicicleta na qual fazia trabalho de ginásio, pegou nas suas coisas e foi embora, mesmo antes de receber autorização do treinador Paco Jémez. As últimas semanas do jogador têm sido, segundo o jornal “AS”, semelhantes a “férias pagas”, depois de ter acolhido nas Canárias alguns amigos e familiares.
Desde que chegou do Olympiacos, Emenike fez nada mais nada menos do que… zero minutos pelo Las Palmas. Primeiro, foi o excesso de peso. Depois, uma lesão. Nada que, pelos vistos, incomode demasiado um rapaz que nem treinar quer.
Perdoe-nos o juízo de valor, mas é estranho que um jogador como Emenike demonstre esta falta de profissionalismo. Dizemo-lo porque este nigeriano tem uma história de vida difícil, com uma infância tudo menos abastada, algo que, geralmente, faz os jogadores valorizarem bastante a carreira que conquistaram. Com Emenike, não é bem assim.
Preso durante quatro dias por um crime que não cometeu
Este rapaz de 31 anos (cumpridos ontem) nasceu em Otuocha, no sul da Nigéria. Foi lá que veio o primeiro de muitos sustos na vida de Emenike, depois de, com sorte, ter sobrevivido a um acidente de carro.
Começou tarde, no futebol, e, aos 20 anos, jogava no Delta Force, clube de Asaba, cidade junto ao conhecido Delta do Níger. A casa de Emenike, em Otuocha, ficava a mais de uma hora de Asaba, pelo que Emenike, sem dinheiro para ir de autocarro, fazia o percurso a pé. Ida e volta.
Acabou para viajar para a África do Sul, para seguir o sonho do futebol. Sem dinheiro, passou fome e chegou a dormir no chão de um restaurante. Ainda assim, conseguiu juntar dinheiro para fazer um vídeo a mostrar o talento com a bola e foi pescado pelo Black Aces, clube da zona de Pretória, antes de ir para o FC Cape Town.
Teve sucesso suficiente para ir para a Turquia e, lá, mostrou ao que ia: 30 golos em 51 jogos, no Karabukspor, chamaram a atenção do Fenerbahce. A transferência abortou por causa do escândalo de apostas ilegais que envolveu o Fenerbache e Emenike chegou mesmo a estar preso, sendo um dos visados. As alegações apontavam que o jogador nigeriano tinha fingido uma lesão para, ao serviço do Karabukspor, não defrontar o Fenerbahce. Emenike acabou por estar preso durante quatro dias, uma experiência que lhe mudou a perspetiva da vida.
“O tempo passado na prisão foi um pesadelo do qual não conseguia acordar. Nunca cometi um crime na minha vida, mas fui tratado como um criminoso, vivendo de pão e água. Um polícia bateu-me nas costas, porque queria que eu assinasse uns papéis. Eu disse que não assinaria porque estavam em turco e eu não percebia nada. Ele voltou a bater-me e eu disse ‘podes matar-me, mas eu não vou assinar algo que não percebo’. Não foi uma boa experiência e deu-me uma perspetiva diferente da vida. Quando, finalmente, fui libertado, agradeci a Deus por a justiça ter prevalecido”, disse, ao “The Sun”.
Apanhado num ataque terrorista
Com a transferência abortada, acabou por ir parar ao Spartak Moscovo e, apesar do bom registo goleador (13 golos em 24 jogos, na primeira temporada), o pesadelo voltou. Na Rússia, foi vítima de cânticos racistas.
Depois de duas temporadas e meia, veio mesmo a tal transferência para o Fenerbahce. Em Istambul, mais pesadelos. Um dia, o autocarro em que viajava foi atacado por um homem armado. “Eu estava ao telefone com o meu irmão, quando ouvi um estrondo. O autocarro desviou-se e começou o pânico. Escondi-me instintivamente e o nosso segurança disse que o motorista tinha sido baleado. Vê-lo cheio de sangue foi terrível”.
O último ano no Fenerbahce não foi bom (apenas cinco golos) e, a partir daí, andou a saltitar. Al Ain, nos Emirados Árabes Unidos, West Ham, em Inglaterra, novamente Fenerbahce, Olympiacos e, em janeiro, Las Palmas. No meio de tudo isto, Emenike venceu a CAN 2013 e foi o melhor marcador da prova.
Depois destas peripécias, Emenike parece estar mais dado à caminha do que aos treinos. Já dizia Marco Fortes que, de manhã, está-se bem é na caminha.