Como surgiram os cartões no futebol? Hoje, é impensável assistir a um jogo sem a presença constante dos cartões amarelo e vermelho na algibeira do árbitro, mas a verdade é que esta linguagem visual universal nem sempre existiu.
Até ao Mundial de 1970, a disciplina no futebol dependia em exclusivo da voz e dos gestos dos árbitros. Porém, a ausência de um código não-verbal claro gerou um dos episódios mais surreais da história do futebol em pleno Mundial de 1966, forçando os responsáveis a procurar uma solução prática que acabou por vir do trânsito urbano.
Uma expulsão no Mundial 1966 que ninguém percebeu
A urgência de criar um sinal gráfico visível para todo o estádio ficou evidente nos quartos de final do Mundial de 1966.
Num ambiente extremamente agressivo entre a Inglaterra e a Argentina, o árbitro alemão Rudolf Kreitlein interrompeu a partida aos 35 minutos para expulsar o capitão argentino, Antonio Rattín, por insultos verbais continuados.
O problema era elementar, mas intransponível naquele momento: Kreitlein não falava espanhol e Rattín não entendia uma palavra de alemão.
Sem um cartão vermelho para exibir ao público, ao jogador e às câmaras da transmissão televisiva, o árbitro gesticulava a apontar para a bancada. Rattín, alegando incompreensão e exigindo a presença de um intérprete, recusou-se a abandonar o relvado.
O jogo esteve parado durante cerca de dez minutos num clima de crescente tensão diplomática. Para mais, a confusão disciplinar desse encontro não se limitou ao capitão argentino. Os internacionais ingleses Jack e Bobby Charlton foram advertidos verbalmente pelo juiz alemão durante o jogo, mas nenhum dos dois percebeu que tinha sido admoestado.
A confirmação oficial de que tinham sido avisados só chegou na manhã seguinte, quando o selecionador inglês, Alf Ramsey, teve de contactar a organização após ler as notícias no jornal.
Do semáforo aos cartões amarelo e vermelho
Diante da necessidade de evitar novos incidentes e padronizar a arbitragem internacional, a comissão de arbitragem da FIFA assumiu a missão de desenvolver um método inequívoco de comunicação. O objetivo era encontrar um sinal que eliminasse as barreiras linguísticas e fosse imediatamente percetível por jogadores, adeptos nas bancadas e telespectadores.
A inspiração para o modelo final surgiu quando Ken Aston, ex-árbitro inglês que integrava essa comissão, se encontrava numa deslocação pelas ruas de Londres.
Ao parar perante um semáforo no cruzamento de Kensington High Street, Aston observou o funcionamento do código de cores rodoviário e percebeu que a solução já estava integrada no quotidiano das pessoas:
- Cor amarela: sinal de aviso, atenção e necessidade de abrandar.
- Cor vermelha: indicação de perigo, infração e paragem imediata.
A ideia de transpor as duas cores para pequenos retângulos de papel rígido que cabiam no bolso do árbitro resolveu três problemas simultaneamente:
- Superava o analfabetismo linguístico em campo;
- Informava o público nas bancadas sem necessidade de explicações adicionais;
- Garantia clareza para a realização televisiva.
A estreia dos cartões no México 1970
O novo sistema fez a sua estreia oficial na fase final do Mundial de 1970, realizado no México. O primeiro cartão amarelo da história da competição foi mostrado no jogo de abertura pelo árbitro germânico-oriental Kurt Tschenscher ao jogador soviético Evgeny Lovchev, após uma entrada fora de tempo.
O efeito dissuasor da nova ferramenta visual superou as expectativas da própria FIFA. A perceção clara e pública de que um cartão amarelo colocava o atleta à beira da expulsão fez com que o Mundial de 1970 terminasse sem qualquer cartão vermelho exibido ao longo dos 32 jogos do torneio.
| Edição do Mundial | Cartões amarelos | Cartões vermelhos | Contexto disciplinar |
| México 1970 | 33 | 0 | Estreia do sistema; nenhuma expulsão registada. |
| Alemanha 1974 | 79 | 5 | Primeiro cartão vermelho da história (Carlos Caszely, do Chile). |
| Itália 1990 | 162 | 16 | Rigor acrescido da FIFA sobre entradas por trás. |
| Alemanha 2006 | 345 | 28 | Torneio com o recorde absoluto de sanções. |
Um semáforo que salvou o futebol
A simplicidade e funcionalidade da invenção garantiram a sua rápida expansão.
Pouco tempo após a consolidação no futebol, o sistema de cartões foi adaptado por várias outras modalidades desportivas, incluindo o andebol, o râguebi, o voleibol e o hóquei em campo, ajustando a escala de cores e tempos de suspensão às especificidades de cada regulamento.
O que nasceu da incapacidade de um árbitro alemão e de um jogador argentino se entenderem num relvado em pleno Campeonato do Mundo de 1966 converteu-se na linguagem não-verbal mais eficaz e reconhecida do desporto moderno.
