Grande Futebol
Chris Wilder: o revolucionário discreto, admirado e invejado por Marcelo Bielsa
2018-11-30 14:25:00
Aos 51 anos, o técnico inglês conquistou a admiração de um dos mais icónicos e influentes treinadores mundiais.

Revolucionário. Discreto. Admirado e invejado por Marcelo Bielsa. Não é qualquer um. Não é qualquer um que recolhe a admiração de um dos treinadores mais influentes da história recente do futebol e se lhe disséssemos que falamos de um homem de 51 anos que nunca treinou uma grande equipa, ou, vá lá, uma equipa primo divisionária, talvez ninguém acreditasse. Assim é, porém, com Chris Wilder. Técnico inglês que por esta altura vai liderando o Sheffield United a mais um início de temporada surpreendente, tal qual havia feito na época passada, época de regresso dos Blades ao Championship. Fá-lo com identidade e personalidade. Colocando em marcha, quem sabe, uma revolução tática.

Para Marcelo Bielsa, Chris Wilder é um homem admirável. Invejável, até. E, isso, é já por si dizer muito. Em vésperas de se defrontarem pela primeira vez na carreira, as palavras de Bielsa em conferência de imprensa de antevisão para o jogo são muito mais do que palavras de simpatia e circunstância. São palavras de admiração pura pelo trabalho que o adepto de sempre do Sheffield United vai realizando por Bramall Lane. Wilder está na sua cadeira de sonho, mas o trabalho desenvolvido no clube de Sheffield vai muito mais além do coração, do sentimento pelo clube, da garra ou da intensidade. Em Sheffield, tal qual aconteceu há quase 150 anos, prepara-se uma nova revolução. Desta feita, pela mão de Chris Wilder.

“Diria que o treinador do Sheffield United é alguém com novas ideias e eu tenho conhecido muito poucas pessoas com essas ideias. Nós treinadores olhamos para os colegas de forma a aprender om eles e eu gosto de aprender coisas novas, não o que toda a gente anda a fazer. Normalmente, quando observas alguém, tens a sorte de observar algo que não vês todos os dias, coisas novas. As ideias do Sheffield United merecem ser observadas e estudadas. O que eu estou a tentar é fazer o público identificar diferentes estilos de jogo e jogar futebol e o meu objetivo é fazer os adeptos valorizar essa parte do jogo, o que normalmente não acontece. Quando destaco estas particularidades nos adversários, é com esse objetivo. Eu vi coisas neste Sheffield United que sempre tentei implementar e desenvolver nas minhas equipas ao longo da minha carreira e não o consegui fazer. Não conheço a história de Chris Wilder, mas está a fazer um grande trabalho”, afirmou Bielsa.

Se nunca ouviu falar em “overlapping centre backs”, não desespere. O conceito é tão inovador e inédito que nem tradução para português tem ainda. “Falsos defesas centrais”, avançamos nós. Talvez. Esse é o principal legado de Chris Wilder que, por Bramall Lane, vai revolucionando a forma como uma equipa constrói jogo em organização ofensiva, integrando as linhas mais recuadas nas mais avançadas, confundindo, criando desequilíbrios e superioridades numéricas em todo o campo e em particular em fases adiantadas do terreno e da organização. Em suma, incorporando os próprios defesas centrais no bloco adversário e no último terço ofensivo do terreno.

Em Bramall Lane, Chris Wilder vai levando o “juego de posición” típico, também, das equipas de Bielsa, a outro nível e não admira que o influente técnico argentino esteja tão entusiasmado e invejoso do inglês. De Cruyff a Guardiola, nunca esquecendo Bielsa, pilar fundamental das mais recentes revoluções táticas no futebol é a influência dos defesas centrais na construção de jogo e a incorporação dos mesmos na organização ofensiva como parte fundamental da mesma. O sair a jogar a partir de trás, em linguagem simples. Mas Wilder vai mais além. Não só os defesas centrais do Sheffield United iniciam o momento ofensivo, como têm influência decisiva nas etapas finais da construção.

Se o normal até aqui era que os defesas centrais iniciassem a fase de construção, mas ficassem a equilibrar a equipa no que restava do momento ofensivo e da organização ofensiva, com Chris Wilder os defesas centrais têm um papel determinante na construção em fases avançadas desses momento ofensivo. Lá está, fazendo “overlappings” constantes, saindo de zonas recuadas do terreno e incorporando-se em zonas mais avançados do terreno de jogo. O verdadeiro “futebol total” e pormenor que nem o próprio Marcelo Bielsa conseguiu implementar ao longo da carreira, apesar de sempre ter sido característica das suas equipas a construção a partir de trás e a influência dos defesas centrais na manobra ofensiva das suas equipas.

Chris Wilder é um treinador de processo e ao longo de quase vinte anos de carreira nunca falhou ou fracassou. Na verdade, o trabalho do técnico inglês, hoje com 51 anos, um pouco por toda a parte, tem sido tão positivo que não só nunca foi despedido, como sempre fez mais de uma centena de jogos ao comando de cada um dos projetos em que se viu envolvido. Deixando sempre o clube que liderou num patamar acima daquele em que o clube se encontrava quando a ele Chris Wilder chegou. Em Halifax, foram mais de 300 jogos e apenas de lá saiu quando o clube faliu. Em Oxford, ao longo de seis anos e 269 jogos, tirou o clube dos escalões não profissionais, devolvendo-o à Football League e liderando-o às melhores prestações do mesmo em vários anos, inclusivamente lutando por lugares de play-off de promoção quando nada o fazia prever.

Foi, porém, em Northampton que Chris Wilder finalmente abriu os olhos de muita gente para uma capacidade invulgar em colocar equipas de menor expressão para o contexto em sobre rendimento, tal qual vai fazendo atualmente por Sheffield. Em Northampton, mesmo no seio de um verdadeiro caos financeiro e com o clube muito próximo da liquidação, Chris Wilder liderou o clube a uma posição tranquila na tabela na primeira temporada completa ao comando dos Cobblers, isto depois de em meia temporada ter evitado a queda deste aos escalões não profissionais. A obra prima de Chris Wilder aconteceu, porém, em 2015/16 quando contra todas as expetativas acabou por levar o Northampton Town ao título na League Two quando ainda há poucos meses o clube ficou perto de desaparecer. Perigosamente perto.

Em 2015, o Northampton Town ficou muito perto de desaparecer. Poucas horas foi tudo o que separou o clube da liquidação e foi Chris Wilder o homem que acabou por juntar os cacos de um clube despedaçado e fazer disso, de certa forma, uma força. Nenhum jogador ou técnico do clube foi pago durante meses e ainda que os jogadores tivessem tido o apoio financeiro do sindicato, durante meses, Chris Wilder e a sua equipa técnica não receberam qualquer libra enquanto salvava desportivamente o clube.

O sucesso em Northampton, ao longo de mais de 120 jogos, abriu a porta do Sheffield United, clube do coração, a Chris Wilder, numa altura em que os Blades atravessavam um dos piores momentos da história recente do clube. O 11º lugar alcançado pelos Blades em 2015/16 na League One foi a pior posição alcançada pela equipa de Sheffield desde inícios dos anos 80. Era quase impossível descer mais baixo. E, mais uma vez, o revolucionário discreto, admirado e invejado por Marcelo Bielsa, não desiludiu. Na primeira temporada ao comando dos Blades, Chris Wilder e o seu Sheffield United arrasaram a League One, com o clube a alcançar a promoção ao Championship com 100 pontos conquistados e o título de campeão alcançado, mesmo depois de um início de temporada tremido com quatro derrotas nos cinco primeiros jogos da época. Depois de seis temporadas de ausência, o Sheffield United estava de volta ao segundo patamar do futebol inglês e em grande estilo. Pela segunda vez na história do futebol inglês, um treinador no país levava a sua equipa aos 99 pontos em duas épocas distintas, algo que só tinha sido feito anteriormente por Kevin Keegan.

No regresso ao Championship, mesmo com um dos orçamentos mais baixos para a divisão e perante plantéis repletos de qualidade individual superior à do Sheffield United, os Blades ficaram perto da surpresa. Alavancados por um início de temporada impressionante, o Sheffield United passou grande parte da temporada a lutar pela promoção e por um lugar entre os seus primeiros da competição - algo que os Blades vão repetindo este ano -, que acabou por não ser possível no final muito por culpa de lesões graves em jogadores nucleares como foram os casos de Paul Coutts e Kieran Freeman.

Com um plantel composto por dispensados de clubes rivais, oportunidades de negócio, emprestados e elementos em claro sobre rendimento potenciados pelo modelo e sistema de Chris Wilder, o Sheffield United é um dos maiores casos de “dedo de treinador” existentes no atual futebol inglês. Tudo isto, enquanto Chris Wilder vai revolucionado mesmo, a nível tático, o futebol, ao ponto de recolher a admiração e até a inveja de um homem tão icónico e influente como Marcelo Bielsa. Chris Wilder, o revolucionário discreto. Vai um exemplo?