Cristiano Ronaldo chega a Itália numa fase em que em média oito clubes por ano declaram falência.
2002 foi um ano negro para o futebol italiano no geral e para o futebol fiorentino em particular. O histórico emblema de Florença, os Viola, a Fiorentina, declarou falência e caiu ao terceiro escalão do futebol italiano. O clube onde jogaram nomes como Batistuta ou Rui Costa foi obrigado a refundar-se nas profundezas do futebol italiano e o que devia ter servido de exemplo ou de aviso para as autoridades locais pareceu não ter sido mais do que uma infelicidade de um clube histórico. Desde então pouco mudou e pelo meio houve até escândalos como o Calciopoli. Desde então, mais de 150 clubes italianos, muitos deles históricos, declararam falência e tiveram de se reinventar nos escalões secundários do futebol transalpino. E, isto, Cristiano Ronaldo não irá resolver.
Na mesma semana em que Cristiano Ronaldo chegou a Itália para reforçar a Juventus, negócio que muitos consideraram como uma lotaria ganha por parte do futebol italiano, pelo menos três clubes declararam falência e falharam a inscrição nas divisões que era suposto representarem. Três clubes históricos do futebol italiano, ainda para mais, como os casos da Reggiana, clube onde jogou Paulo Futre nos anos 90, mas também o Cesena que ainda em 2012 andou pela Serie A ou o FC Bari, clube por onde passaram nomes como Gordon Cowans ou David Platt nos anos 80 e que recentemente lançou para o futebol e seleção italiana jogadores como Bonucci ou Andrea Rannochia, que terminou a temporada sem conseguir pagar uma fatura de água que ascendeu aos seis mil euros.
A extinção e refundação de emblemas históricos do futebol italiano tem sido como uma epidemia nos últimos anos. Desde que a Fiorentina se refundou em 2002, 153 clubes italianos declararam falência e falharam a inscrição nas divisões onde deviam atuar como foi o caso do Bari e do Cesena da Serie B ou da Reggiana da Serie C esta temporada. Entre eles estão ainda outros históricos do futebol italiano como são os casos do Modena ou do Vicenza, bem como outros clubes como o Akragas, o Mestre, o Fidelis Andria, com a epidemia a prometer não ficar por aqui já que também Piacenza, Cuneo, Matera e Avellino se encontram em sério risco de cair na bancarrota.
Todos estes casos sucedem a episódios icónicos como foram o da queda da Fiorentina ou, mais recentemente, do Parma que só esta temporada regressou ao convívio dos grandes do futebol italiano após três promoções consecutivas da Serie D em 2015/16 à Serie A em 2018/19. Mesmo perante acontecimentos de magnitude nacional como foram estes dois, pouco parece estar a ser feito pela federação italiana na reformulação e revolução do futebol do país, tanto, que muitos parecem acreditar que será Cristiano Ronaldo que, por arrasto, resolverá todos os problemas financeiros associados ao futebol italiano. Segundo o La Repubblica, em média, por ano, oito clubes italianos declararam falência desde a queda da Fiorentina.
Quando, em novembro de 2017, o Modena declarou falência, o emblema da cidade da Ferrari, Lamborghini ou Maserati tornou-se no vigésimo emblema italiano a apresentar falência num período de cinco anos. Uma situação tão grave que obrigou mesmo o clube a ser excluído da Serie C depois de nem sequer conseguir apresentar uma equipa em quatro jogos consecutivos. Os jogadores não foram pagos e o clube acabou mesmo por ser impedido de frequentar as instalações do Estádio Alberto Braglia. Como é habitual nestes casos em Itália, após a declaração de falência o clube passa a ser gerido pelo Município que tem depois oito meses para encontrar novos donos para um clube que terá de ser refundado na Serie D, quarta divisão do futebol italiano.
A refundação, porém, não é sempre um ponto negativo. Muitas vezes tem permitido que certos clubes se reergam e em poucos anos estejam de regresso à elite do futebol italiano e, até, não só a jogar as competições europeias como a lutar pelo título italiano. Clubes como a Fiorentina, o Torino e o Nápoles passaram por isto, por exemplo. No caso dos napolitanos, ainda em 2006 a equipa jogava na Serie C, terceira divisão do país, tendo crescido de tal forma nos últimos anos que na temporada passada ameaçou mesmo a conquista do título italiano.
Na temporada passada, além do Modena, também o Pisa passou por problemas tendo visto serem-lhe deduzidos vários pontos devido a salários em atraso, com clubes como o Ascoli, o Siena, o Latina ou o Como a declararem-se falidos nos últimos anos. Para bem dos mesmos, porém, surge a lei instituída em 2004 que obriga a que os clubes sejam refundados na mesma cidade, mantendo ainda a história e palmarés dos antecessores mesmo que, no fundo, seja um clube novo.
Cristiano Ronaldo chegou a Turim numa das transferências mais mediáticas dos últimos anos e, porventura, a mais mediática do futebol italiano desde que Ronaldo, o brasileiro, trocou Barcelona por Milão. Um negócio que foi mesmo comparado por Vieri, antigo internacional italiano, ao vencer da lotaria pelos benefícios financeiros que o mesmo trará ao futebol italiano. Fora de Turim, porém, torce-se o nariz. Afinal, quem é que vai convencer os adeptos da Reggiana, do Bari ou do Modena de que a chegada de Ronaldo irá ajudar no futuro e reconstrução destes clubes? Bem vindo a Itália, Cristiano, onde a cada ano “morrem” oito clubes e pelo menos um histórico tem de renascer.