Industrial brasileiro acusou a FIFA de roubo e prometeu derrotar o Golias, custe o que custar.
São Paulo, junho de 2014. Yuichi Nishimura teve a honra de apadrinhar o regresso de um Mundial de futebol ao Brasil, mas, naquela tarde, fez história na arbitragem. O juiz nipónico foi o primeiro árbitro de futebol a utilizar o spray numa competição FIFA. A tecnologia não era nova, pelo Brasil, aliás, há muito que era utilizada. Contudo, só em 2014 entrou definitivamente na esfera da arbitragem a nível mundial. Em 2014, Heine Allemagne viu a sua invenção invadir os campos de futebol a nível internacional, uma odisseia que, garante, demorou 14 anos a tomar forma. Esta semana, porém, a utilização do spray no futebol, três anos após ter sido implementado ao nível da FIFA, pode ter tomado o rumo oposto e ter os dias contados. “Decidiram roubar-me. É isso, um roubo, um sequestro”.
Quando todos aguardavam que o reinado de Gianni Infantino, como líder da FIFA, resultasse no regressar do organismo ao plano da transparência, a polémica entre a FIFA e Heine Allemagne promete retornar o organismo máximo do futebol a terrenos algo… pantanosos. Tudo devido à utilização do spray por parte dos árbitros nas competições FIFA, algo que se concretizou desde 2014 com o Mundial de futebol. Allemagne, que se assume como o criador da tecnologia, assumiu ao New York Times que a FIFA lhe roubou a ideia e exige o pagamento de uma indemnização de 100 milhões de dólares. A batalha legal dura há anos, porém, esta semana, um tribunal do Rio de Janeiro reconheceu a patente da tecnologia a Allemagne e determinou que a FIFA deixasse de utilizar o spray nas suas competições.
“A FIFA roubou-nos a ideia. Isto não é fair play por parte deles. Esta era uma boa oportunidade para ele [Gianni Infantino] mostrar que era um grande homem e não mais um medíocre como os mercenários do passado e que o precederam”, afirmou Allemagne ao New York Times. Allemagne não está feliz com a FIFA ou com Infantino, mas recebeu da justiça brasileira uma importante ajuda na sua luta judicial contra o organismo que tutela o futebol mundial. Um tribunal do Rio de Janeiro reconheceu o registo da patente da tecnologia por parte de Allemagne em 44 países, ordenando que a FIFA deixasse de utilizar o spray nas suas competições sob pena de uma multa de 15 mil dólares por jogo. Uma vitória para Allemagne que chegou semanas depois de a FIFA ter endereçado uma carta aos responsáveis jurídicos do brasileiro afirmando não ter mais paciência para a discussão da questão, alegando não existirem quaisquer registos da pertença da patente por parte de Heine Allemagne. Registos que o tribunal brasileiro considerou irrefutáveis.
A luta entre Allemagne e a FIFA dura há anos. Segundo o New York Times, comunicações eletrónicas que datam a meses anteriores ao Mundial 2014 demonstram o interesse da FIFA em dispender 500 mil dólares na compra da patente à empresa de Allemagne. O processo não evoluiu e poucos meses passaram até que o organismo fizesse inversão de marcha nas pretensões. Logo após o Mundial de 2014, diz o New York Times, Allemagne e a sua empresa receberam cartas da FIFA a agradecer a produção das latas utilizadas no torneio, que as mesmas proporcionaram um grande sucesso e um passo em frente na luta pelo fair play, contudo, assumindo não ter qualquer interesse em comprar a patente da tecnologia à empresa brasileira. À publicação norte americana, porém, Allemagne garante que a FIFA permitiu a outras empresas produzirem e venderem a tecnologia de forma ilegal, latas que vêm sendo utilizadas no futebol mundial já que desde o Mundial 2014 que a empresa do brasileiro não produz os objetos.
A luta entre Allemagne e a FIFA vai longa, mas ainda está a vários anos de distância do período que o industrial brasileiro precisou para desenvolver a tecnologia. Foram cerca de 14 anos entre o início do desenvolvimento da tecnologia e o dia em que a mesma se tornou universal. Tudo começou quando a ver um jogo de futebol na televisão, em 2000, Allemagne ouviu o narrador afirmar que seria sempre impossível para um árbitro controlar a distância entre a bola e a barreira em casos de livres diretos. Allemagne, que até atravessava grandes dificuldades financeiras na altura, sentiu-se desafiado e tomou as palavras do narrador brasileiro como objetivo de vida. Inspirado pela tecnologia utilizada nas espumas de barbear, Allemagne desenvolveu então um spray que não danificava o relvado e desaparecia ao fim de alguns segundos. Três anos depois, a federação brasileira determinou como obrigatória a utilização do spray nas suas competições, enquanto a CONMEBOL precisou de mais cinco para autorizar a utilização da tecnologia nas suas competições.
Em 2008 a utilização do spray por parte dos árbitros estava já enraizada na cultura futebolística sul americana. Em 2012, por fim, o International Board aprovou a utilização do spray para dois anos mais tarde o mesmo ser utilizado no Mundial de futebol. Apesar da importância da tecnologia para o desporto, porém, Allemagne nunca viu reconhecida a questão do ponto de vista financeiro e procura agora, com a ajuda da justiça brasileira, que a sua invenção, por fim, lhe retribua todo o tempo dispendido na sua criação. “Eu estou a pedir respeito. A FIFA não me deu os créditos devidos pelo spray. Eles fizeram várias promessas, usaram-nos, assumiram comercialmente o projeto a partir de 2008. Depois disso, fizeram uma conspiração gigantesca, coisas absurdas. O que eu estou fazendo? Eu sou David, e a FIFA é Golias. A FIFA ameaçou processar-me. Eu fiz história no futebol mundial, e a FIFA, de forma caluniosa, ameaçou processar-me” declarou ainda Heine ao Globo Esporte.