Fora da Bancada
Filipe Froes refuta declaração de Costa sobre segunda vaga da pandemia
2020-11-11 14:10:00
"A segunda onda só chegou mais cedo para quem estava à espera que chegasse mais tarde"

O pneumologista Filipe Froes criticou ontem as palavras do primeiro-ministro, António Costa, que, numa entrevista à TVI, defendera a tese de que nenhum especialista estaria à espera de uma segunda vaga da pandemia tão chegou.

O chefe do Governo considerou que o aumento exponencial de casos surpreendeu não só o executivo, como toda a comunidade médica e científica. "Ninguém previu que esta segunda vaga surgisse tão cedo", afirmou.

Filipe Froes refuta a afirmação. “A segunda onda só chegou mais cedo para quem estava à espera que chegasse mais tarde. Para quem está no terreno, era evidente que a segunda vaga chegaria à medida que a atividade era retomada”, disse, em declarações à SIC Notícias.

“O regresso de férias, por exemplo. Havia sinais evidentes que estavam a ser criadas cadeias de transmissão na comunidade que rapidamente se espalhariam e que iriam aumentar”, complementou.

O especialista não está, por isso, surpreendido com os números da pandemia. E esta segunda vaga nesta altura do ano seria previsível, até porque o País não foi capaz de "interpretar os sinais", na primeira vaga da pandemia.

“Nós chegámos aqui porque desvalorizámos a pandemia, não retirámos as devidas ilações da primeira onda e não tivemos a capacidade de interpretar os primeiros sinais que foram aparecendo ao longo de agosto, setembro e no início de outubro. Não tivemos capacidade de ler o que estava a acontecer, planeámos mal, não nos antecipámos e, agora, estamos numa segunda onda em que o outono vai a meio e o inverno ainda não chegou”, sustentou Filipe Froes.

E como “estamos no meio de uma fase ascendente”, o pneumologista faz um alerta: o número de casos “vai continuar a subir” e o país, que ainda não chegou à fase crítica, poderá não ter capacidade de resposta: “Não estamos numa fase crítica. Isto vai continuar a subir. Estamos numa fase ascendente da segunda onda que não vamos saber como acaba".

Mas o principal aviso de Filipe Froes está relacionado com a capacidade do Serviço Nacional de Saúde, em particular a disponibilidade de camas em unidades de cuidados intensivos. E contraria os números apresentados por António Costa, na mesma entrevista.

“Eu e os meus colegas começamos a ter dificuldade em saber quantas camas temos. O número de camas nunca é coincidente. O gabinete de crise, que irá reunir amanhã [hoje], quis saber o número de camas. Eu trabalho em cuidados intensivos. Em março, tínhamos 510 camas em cuidados intensivos. À data de hoje, em Portugal Continental, para toda a população nacional, temos um número que ronda as 740 camas. Quando o primeiro-ministro referiu que temos 704 camas alocadas a covid-19, dá-me a entender que se equivocou. Não temos 700 camas vazias criadas de novo para covid”, esclareceu.

Acresce que, do total de 740 camas em unidades de cuidados intensivos, “já temos 382 ocupadas com covid”, pelo que “sobram pouco menos de 400 para todas as outras patologias”.

“A nossa reserva agora já é inferior à reserva que tínhamos antes da pandemia. Quando atingirmos as 500 camas, entraremos num cenário de pré-rutura”.

E basta atentar nos números de novos casos diários de covid-19 e na percentagem de pacientes que necessitam de internamento em unidades de cuidados intensivos para concluir que bastará uma semana para esgotar 700 camas.

“Há estudos que dizem que 2,5 por cento dos novos casos requerem cuidados intensivos. Se tivermos uma média diária de 4000 novos casos, por semana teremos 30 mil. E 2,5 por cento representam 750. Serão necessárias por semana 750 novas camas. E essas 750 camas são a nossa reserva total”, alertou Filipe Froes.

Analisando as mais recentes medidas do Governo, que restringiu a circulação de pessoas em particular ao fim de semana, Filipe Froes considera que não são suficientes e chegam depois do tempo.

“Avalio estas medidas como insuficientes e tardias. Estamos a tomar decisões com base nos números de hoje que refletem realidade de há três, quatro dias. As medidas devem ser tomadas no sentido de evitar o que se aproxima. Nós temos de começar a pensar em medidas para a possibilidade que já se fala de 10 mil casos diários e previsivelmente 100 óbitos por dia e provavelmente mais de 500 internamentos em cuidados intensivos. Esta situação representa uma quase rutura do Serviço Nacional de Saúde. Essa previsão é para dezembro”, explica.

Filipe Froes manifesta compreensão relativamente aos efeitos económicos das medidas de confinamento, ou de restrição de circulação. Porém, considera que a saúde é prioritária.

“Estamos numa fase exponencial, em que o fim ainda não se vê. Antes de salvarmos os restaurantes ou os hotéis, temos de salvar os portugueses, porque sem portugueses, não há atividade económica”, conclui.