Euro2020
“É tradicional, não jogamos assim. E não é só por causa do Ronaldo”
2021-06-25 21:40:00
Pedro Henriques avisa que Portugal não tem "a estratégia" de assumir a posse de bola

O jogo de Portugal com a Bélgica, para os oitavos de final do Euro2020, traz à memória a derrota com a Alemanha, na fase de grupos, pela similaridade da forma de jogar das duas seleções do centro da Europa. Nas antevisões à partida, é consensual o conselho de que a equipa das quinas terá de “ter a bola” para bloquear a criatividade de belgas como Kevin De Bruyne e Eden Hazard, os artistas que alimentam o goleador Lukaku.

Não faltam opções a Fernando Santos para montar um ‘tiki-taka’ luso. De Cristiano Ronaldo a Diogo Jota, passando por Bruno Fernandes e Bernardo Silva, são vários os jogadores tecnicamente capazes de ir trocando a bola para desmontar a defensiva belga. O problema, avisou Pedro Henriques, é que Portugal não sabe jogar assim.

“Essa lenda do ‘temos que ter a bola’... Não adianta ter o Bernardo ou o Rúben em campo porque não conseguem ter a bola. O problema não são os jogadores, é a forma como Portugal joga”, afirmou o antigo defesa, lembrando que na partida do Mundial com Marrocos, “essa potência do futebol”, Portugal “teve Bernardo, mas não conseguiu ter a bola”.

“A seleção portuguesa não joga para ter a bola”, insistiu: “Fala-se nos exemplos do City e do Liverpool, mas é como estar a fazer uma novela mexicana e ir para Hollywood, o guião é completamente diferente. Só se pode estar a bola estando constantemente a pressionar alto, como Portugal fez com a Hungria”.

“É tradicional, não jogamos assim. Não conseguimos jogar assim e não é só por causa do Ronaldo. Não é uma estratégia, Portugal não tem essa ideia de jogo”, complementou.

Concordando que a Bélgica tem “um posicionamento parecido com o da Alemanha”, Pedro Henriques alertou para as “indefinições” que custaram a derrota na segunda jornada da fase grupos. A Alemanha mostrou-se sempre superior porque do lado português os jogadores não sabiam quem tinham de marcar.

“A estratégia é determinante e com a Alemanha não vi a estratégia ser corrigida na pausa para beber água, que foi antes da derrocada. Não acredito que o Danilo tenha tido indicação do treinador” para encostar aos centrais, uma vez que os laterais alemães se juntavam aos três atacantes e ficavam em superioridade numérica face à linha de quatro defesas de Portugal.

Com essas “indefinições”, os jogadores “andam naquele trote de um lado para o outro porque não sabem bem quem” que jogadores têm de marcar ou quais as zonas a cobrir, como aconteceu com Bernardo Silva, que “ficou dividido entre fechar um bocadinho aqui e um bocadinho ali, a este nível não funciona”.

“Não estava definido quem pegava no Kimmich e no Gosens, nem quem pegava nos três avançados. Era preciso um homem a fazer de terceiro central, o Belenenses SAD assumiu isso com o Sporting”, acrescentou.

Pedro Henriques recomendou ainda alguma contenção aos adeptos que pedem a Fernando Santos para juntar mais um jogador assumidamente ofensivo ao quarteto que tem sido a escolha mais frequente do selecionador (Cristiano Ronaldo, Diogo Jota, Bernardo Silva e Bruno Fernandes).

“Numa seleção não se consegue colocar os melhores jogadores todos ao mesmo tempo. Essa história do serem compatíveis é muito bonita para se dizer, mas na prática raramente funciona. Tem que se escolher os melhores em função do que se quer fazer”, concluiu.