Prolongamento
"Vieira não é só um problema para os benfiquistas. É um problema nacional”
2021-06-23 10:35:00
Mattamouros diz que eleições no Benfica e comissão de inquérito de Vieira foram a "gota de água"

A “implosão democrática do clube” e a “confirmação da confusão de interesses pessoal e empresarial de Luís Filipe Vieira”, em contraponto com os interesses do Benfica, são as bases da ação que avança nos tribunais, por iniciativa de Jorge Mattamouros. O advogado, sócio do Benfica, participou num podcast nesta terça-feira, ‘Falar Benfica’, onde detalhou as razões desta iniciativa judicial, que, segundo garante, visa “proteger o clube, e não atacar o Benfica”.  

“A ação pode ser interpretada como um ato radical. É uma medida séria que ponderei, como benfiquista. Mas não sou um radical. O exercício de poder no Benfica está numa fase em que os órgãos internos já não funcionam minimamente. Na minha avaliação, as últimas eleições demonstraram-no. Podemos gostar de Luís Filipe Vieira e reconhecer mérito. Eu reconheço mérito. Nunca fui um Vieirista porque sempre tive dificuldade em lidar com a forma como eu sinto que Luís Filipe Vieira mente aos sócios. Ele não fala verdade aos sócios, nunca falou, quanto a mim”, referiu.  

Não obstante reconhecer “imensos méritos” a Luís Filipe Vieira – “É um homem inteligentíssimo” e “conseguiu reestruturar o clube” –, Jorge Mattamouros quer libertar o clube dos vícios de poder, conduzindo o Benfica a uma revisão estatutária, que impeça “a utilização do clube para benefício pessoal”, tal como sucede neste momento, segundo as suas convicções. 

“Convivi com o Vieirismo com desagrado. Pela minha formação, pelo facto de estar um pouco americanizado, vejo um litígio e o entrar com uma ação judicial como um ato de defesa e de Direito. No caso, de defesa do Benfica. Quando uma organização como o Benfica não funciona de uma forma democrática, isso rebenta com tudo. E alguém tem de fazer alguma coisa. Para mim, a gota de água é a implosão do funcionamento democrático dos órgãos do clube. Não o posso aceitar. O que foi feito nos últimos seis meses, ou oito meses, depois da eleição, foi uma tentativa de branquear isso”, alega.  

As eleições não foram transparentes, de acordo com o advogado, que nota o Benfica ‘capturado’ pelo seu presidente: “Ninguém sabe, a não ser Vieira e o diretor do departamento informático do clube, qual foi o resultado das eleições. Não digo uma única vez na minha ação que tenho prova de que os resultados foram ‘x’ e que foram fraudulentos. O que eu digo é que o processo eleitoral como um todo foi fraudulento, porque impede o escrutínio. E há vários indícios de fraude”, acrescenta. 

Mattamouros faz questão de enfatizar que está a atuar como sócio e não como advogado. Considera que uma eleição só é democrática se “todo o ato eleitoral for transparente”. Algo que, na sua opinião, não aconteceu no emblema encarnado, nas últimas eleições.  

Outro evento que suscitou preocupações no advogado foi a comissão parlamentar de inquérito ao Novo Banco, onde Luís Filipe Vieira respondeu aos deputados como presidente da Promovalor, no âmbito das audições aos grandes devedores do banco. “Isso foi a outra gota de água. É impossível que os membros da direção não sintam vergonha daquilo. A comissão de inquérito confirmou que Luís Filipe Vieira não é só um problema para os benfiquistas, é um problema nacional”, dispara. 

Com a comissão parlamentar de inquérito ao Novo Banco, “tornou-se absolutamente claro que há uma história paralela”. “Quando se cruza pessoal o universo pessoal e empresarial de Luís Filipe Vieira com aquilo que já é público no universo Benfica, esse cruzamento é gravíssimo”, diz. 

Jorge Mattamouros concorda que todas estas questões já são públicas, mas lembra que há casos recentes de histórias igualmente públicas e que resultaram em quedas de grupos. Bastou apenas um olhar aprofundado a essa informação que estava no domínio público. E no Benfica pode suceder o mesmo.

“Muitas das tropelias do BES não eram privadas. Muita dessa informação não era privada, mas estava escondida nas contas daquela estrutura que o Grupo GES tinha. Isso não é para mim uma inspiração, mas esta análise já nos traz conhecimento. A ação tenta fazer isso, de boa-fé. Tentei que a informação relatada seja confirmada. A comissão parlamentar de inquérito foi um segundo momento em que confirmou que alguém tem de fazer alguma coisa”, realça o advogado.  

Mattamouros defende uma revisão dos estatutos, para remover “algumas manifestações de autoritarismo” que “não estão de acordo com a história democrática do Benfica”, onde existe, atualmente, “um culto do líder”. E essa revisão deve combater alguma “confusão” entre os interesses do clube e do seu dirigente. O advogado quer que, sempre que se pise esta linha, haja lugar à perda do mandato, prevista estatutariamente.  

A questão do voto eletrónico também deve ser repensada, porque o benefício da rapidez da contagem não pode sobrepor-se à desvantagem de eventuais fraudes. “O voto eletrónico é perigosíssimo. Não deve haver, mas se houver, deve ser auditado por entidades externas. Não vejo nenhum argumento legítimo a favor do voto eletrónico”, considera.

O causídico garante que “não faria alegações graves se não tivesse prova”. Está convencido de que “a ação pode ficar resolvida num ano, ou em 18 meses” e tem a forte convicção de que a razão está do seu lado. "Eu quero estar errado, mas se eu estiver certo e o clube estiver tomado, qual é a solução?", pergunta.

O facto de o Benfica também ser visado na queixa tem uma explicação. Apesar de ser réu, o Benfica sai protegido, com esta queixa judicial, que visa proteger o clube. Jorge Mattamouros aborda essa questão, nesta conversa com adeptos.

"Embora quem tenha violado as disposições estatutárias tenha sido Luís Filipe Vieira, fê-lo ao abrigo de poderes estatutários. É por isso que o clube tem de ser réu. Mas a ação não serve para atacar o Benfica. Serve para o proteger. O Benfica é parte, mas para o proteger, não porque o clube tenha feito algo de errado. Mas estou a impugnar o ato eleitoral, ilícito, a mando de Luís Filipe Vieira e do anterior presidente da Assembleia-Geral, Virgílio Duque Vieira”, observa.   

Mattamouros rebate, por outro lado, as críticas de um hipotético interesse pessoal com a finalidade de chegar ao poder. O causídico garante que não é esse o objetivo e lembra até que a ação surge após as eleições. “Quando esta ação apareceu, já não havia eleições”, destaca. E lembra também algumas decisões de Vieira que suscitaram surpresa no universo encarnado. E dá um exemplo: “Ninguém consegue explicar a OPA”. 

Para já, o advogado vai esconder alguns detalhes da ação judicial, para não dar trunfos à defesa de Vieira. E um segredo que não desvenda é a eventual participação de Rui Pereira, que há poucas semanas apresentou a demissão do cargo de presidente da Mesa da Assembleia Geral do Benfica. 

Jorge Mattamouros garante que não quer mediatismo, refuta as acusações de estar a ser uma espécie de ‘testa de ferro’ do seu cunhado, Noronha Lopes, e assegura que o ex-candidato à presidência do Benfica só teve conhecimento da ação numa fase adiantada da preparação da mesma. E sobre esta argumentação, saída do clube da Luz, nenhuma surpresa.

“Nesta fase do Vieirismo já nada me surpreende. Claro que vão dizer ‘este é um cunhado do outro’. Se calhar, pagam a uns comentadores para dizer isso, na televisão. A decisão vai chegar. Isto vai ter de ser avaliado. E não é por jornalistas comissionistas”, ataca. 

O sócio do Benfica repete a frase de que só avança porque tem provas. E está convencido de que a razão está do seu lado. Lembra ainda que tem “zero interesse em disputar qualquer procedimento criminal” e salienta ainda que não quer criar problemas entre os parceiros de negócio e Luís Filipe Vieira. “O único objetivo desta ação é libertar o Benfica de Luís Filipe Vieira”, completa.  

“Há uma grande facilidade de retirar notícias do ciclo mediático. Elas desaparecem. Mas a ação não se vai embora. Ele não consegue controlar essa agenda. Se eu perder, perdi. Mas é um direito que me assiste, como sócio. Não é normal que seja o presidente do clube decida quem conta os votos. Não é normal nem saudável. Como sócio, tenho todo o direito. Agora, o clube tem de ser parte da ação, para que o tribunal tenha a possibilidade e competência de avaliar”, conclui.